Uma inovação amazônida: o Geojornalismo

Coletivo de SP mostra o poder dos mapas para narrar fatos — e investigar um dos territórios mais afetados pelo vírus. Na iniciativa, uma tendência: dados geoespaciais, aliados à Comunicação e Geografia, são essenciais para entender crises

Mapa elaborado pelo coletivo InfoAmazônia

Informações sobre a covid-19 estão cada vez mais permeadas por mapas. Os territórios afetados pela pandemia do Brasil e os epicentros no mundo tornaram-se informações banalizadas pelos medias através de mapas atualizados constantemente, como o painel da Universidade John Ropkins.

Os mapas são formas geométricas de narrar fatos do espaço geográfico. A Cartografia é um estilo de discurso científico conhecido por geógrafos, produzido desde o século I, e que cada vez mais ganha espaço nos estudos e práticas de Comunicação no século XXI. A convergência digital induziu o campo profissional (o jornalismo, a publicidade, o design) que hoje depende de mapas diariamente para orientar ou monitorar ações operacionais que tenham eficácia, eficiência e efetividade.

Para começar, podemos pensar em três exemplos: seja um mapa da previsão climática para região Norte exibido em um telejornal, um mapa do roteiro em uma corrida de Uber nas ruas de Manaus-AM; ou um mapa de uma terra indígena impresso na entrada de uma reserva na floresta.

Nestes três exemplos (na TV, na Internet e no impresso) conseguimos entender que trata-se de uma representação territorial em muito graças à nossa formação escolar em Geografia. Essa noção da “espacialidade” é a base da Cartografia, que conecta os seres humanos através de índices (mapas) ícones (legendas) e símbolos (geométricos). A capacidade humana de “leitura” dos índices, ícones e símbolos, que permite que vários lugares do mundo compreendam-se pela “linguagem cartográfica”, é a consequência do processo de “mediatização dos mapas” (ou “midiatização dos mapas”), que na história inicia-se a partir do século XIX.  

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A “narrativa geoespacial” dos fatos envolve três elementos geográficos: 1) a correlação de dois ou mais fatores narrados sobre um espaço, 2) a localização de quem visualiza o mapa e 3) os lugares que o mapa visibiliza em determinada escala gráfica (ou zoom). A consequência é a “mediatização geoespacial”, que tem sido cada vez mais decisiva para a comunicação no momento da pandemia; o que demonstra que a linguagem cartográfica é determinante para combater um patógeno, como o coronavírus.

A produção de sentido dos mapas

Conforme relatamos em outro momento da pandemia (março), os mapeamentos colaborativos e os mapeamentos institucionais são duas metodologias, duas direções para superar os desafios de um “estado de realidade social alterada”.

Além da Geografia e da Comunicação, outros campos como as Engenharias (Cartográfica e Ambiental) e as Ciências Humanas (Direito, Planejamento Territorial e Gestão Pública) vem demonstrando, ao longo dos séculos XIX e XX, que os mapas têm sido menos reconhecidos pela sociedade enquanto dispositivos tecnológicos e mais como discursos mediatizados.

Quando tratamos de um momento de pandemia, o que extrapola a norma do cotidiano social, o “tempo de mobilidade” é um fator decisivo para a tomada de decisão coletiva e os interesses individuais que envolvem “sair de casa”. Medir a velocidade do contágio e traçar estratégias para estabelecer lockdowns de vias, áreas ou locais, torna-se um desafio para os gestores públicos municipais e estaduais, sobretudo.

Das medidas de bloqueio (lockdowns) de bairros em capitais da região Norte até os indicadores da pandemia entre os municípios de um estado (como Pará ou Amazonas), é preciso saber ler mapas geográficos (de diferentes estilos) para entender “como” e “porque” ele foi escrito e “para quem” ele fala e “por quem” ele fala. Vejamos a seguir dois exemplos de como utilizar os dados geoespaciais nos estudos nestes dois casos.

Na Amazônia os mapas utilizados para o Marketing de empresas aéreas são um dos meios de “mediatização geoespacial”. Estes mapas das rotas de aeroportos informam quais lugares centrais (capitais ou cidades portuárias). Interpretar os fluxos humanos por este mapa permite compreender os caminhos da covid-19 até chegar aos povos que vivem em lugares periféricos (ribeirinhos e povos da floresta) e são mais vulneráveis.

Ocupada em grande parte de bioma da Amazônia, esta região deve ser interpretada como “a mais vulnerável do Brasil”, mas não pela sua ausência de importância social, econômica e ecológica, ao contrário; é vulnerável porque sua sociedade não possui, na maioria, acesso à tecnologia e abriga uma das mais importantes fauna e flora do planeta.


Mapa das rotas operadas pela MAP Linhas Aéreas na região Norte do Brasil

Estas “vias” representadas no mapa da companhia aérea regional MAP, representa para o público os municípios que recebem fluxos nacionais e internacionais. Esses pontos e linhas em rede ajudam a compreender as possíveis entradas da circulação humana de escalas internacional e regional do coronavírus, entre vias de grande densidade, como aeroportos internacionais (áreas de acelerada circulação) ou estações fluviais (lugares de lenta circulação) que conectam diversas cidades da região amazônica pelo ar e pelas águas.

Um novo gênero jornalístico

Buscando apoiar o ecodesenvolvimento, o Geojornalismo é um gênero jornalístico que surge em 2012 por atuação de um coletivo de jornalistas de São Paulo que atuam no estado do Amazonas um dos mais afetados do Brasil pela covid-19. Em uma recente reportagem, o portal InfoAmazonia demonstrou o quanto um mapa tem o poder de narrar os fatos.


Mapa da reportagem com texto de Eduardo Geraque e análise de dados de Juliana Mori

De acordo com reportagem publicada em maio de 2020, a distância entre aldeias de Terras Indígenas e hospitais com leitos de UTI (os fixos) é de em média 315 km e pode chegar a 1.000 km. Se considerarmos o tempo e o movimento dos rios, um paciente sofre um alto risco. Portanto, apenas um mapa é a comprovação semiótica do que o discurso desta narrativa escrita afirma sobre o espaço.

O que significava antes uma “grande distância” agora significa muito mais, afinal o fator “pressa” e o fato “isolamento” entraram na relação de semiose, ou seja, de produção de sentidos sobre a realidade social que não vivemos mas sabemos que existe e nos afeta.

Técnica, Ciência e Informação nos mapas

O ato de ler e escrever mapas ainda parece um tabu para muitas pessoas, interpretar um ou mais mapas ainda é um desafio para muitos profissionais da Comunicação. Os mapas, portanto, são mídias fundamentais para gestão territorial que ganham evidência na narrativa dos fatos em situações de crises.

Estamos diante de uma alteração profunda na produção de sentido sobre os mapas. Aqueles que antes eram apenas representações de uma disciplina escolar (a Geografia), agora passam a ser elementos da mídia, sendo relevante saber interpretar um mapa para entender fatos em suas escalas: local, regional, nacional e global.

Seja qual for a técnica de mapeamento, é urgente que os comunicadores de todas as partes do Brasil passem a saber trabalhar com dados geoespaciais para uma produção aprofundada de conteúdo, com critérios técnicos de Comunicação (Jornalismo de Dados e Designs Interativos) e científicos da Geografia Crítica, que permitem um ciclo de reflexões sobre: “quem somos”, “sobre quem falamos”, “para quem falamos” e “para onde vamos”.

“Quanto mais globalizados estamos, mais localizados somos”, conforme Edgar Morin, e vivemos este paradigma do século atual, seguimos insistindo em tentativas. “Pense local, aja global”: será essa a lógica dos discursos dos medias sobre o mundo pós-pandemia? Esses mapas são pistas que a resposta é: sim.

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