Periferias: os 7 erros do jornalismo na pandemia

Reforçar estigmas. Apelar ao sensacionalismo. Substituir serviços públicos por “heróis”. Esquecer a violência doméstica. Apurar sem precisão. Tudo isso se repetirá no momento em que a covid devasta às quebradas?

Por Bia Carvalho, Carla Souza, Fábio Leon, Gracilene Firmino, Jota Marques, Tatiana Lima, Thábara Garcia e Thaís Cavalcante, no Brasil de Fato

Desde março deste ano, a pandemia de covid-19 gerou uma necessidade de informação maciça e uma produção de conteúdo inédita no mundo inteiro. Disseminação da doença, medidas de proteção, políticas públicas de emergência, situações críticas nos sistemas de saúde, danos colaterais do isolamento físico são algumas das inúmeras pautas do noticiário diário.

Contudo, com a chegada do vírus às favelas do país, tem surgido um grande número de matérias cobrindo o potencial impacto — e, infelizmente, o que hoje é um impacto de fato — da doença nas periferias do Brasil. Como é costume na cobertura sobre favelas, em qualquer momento, têm surgido também pautas contraproducentes junto a um jornalismo problemático.

Enquanto muitas matérias fazem uma abordagem justa às situações e aos protagonistas das comunidades, enfatizando as soluções locais sem perpetuar estigmas injustos, inúmeras continuam caindo nos erros habituais ou conjunturais das reportagens sobre favelas. Neste artigo, evidenciamos sete erros que a imprensa está cometendo ao cobrir a covid-19 nas favelas, tanto nas narrativas, como na metodologia jornalística, para que seja evitada sua reprodução.

1. Cair na armadilha de sempre: o sensacionalismo

A violência nas favelas sempre foi o tema mais coberto pela grande mídia, cristalizando uma imagem já estigmatizada. A crise do coronavírus não parece ter desencorajado alguns canais de continuar veiculando as mesmas ideias sensacionalistas, às vezes baseadas em provas escassas. Em particular, em meio à pandemia, e enquanto organizações comunitárias respondiam à crise com incrível prontidão, várias mídias brasileiras e internacionais resolveram focar, na terceira semana de quarentena, na informação de que o tráfico de drogas impunha um toque de recolher em algumas comunidades. Um conteúdo raso e sem função social, tomando tempo e energia de leitores num momento em que a leitura e o compartilhamento de informações de qualidade são essenciais para salvar vidas. Não há justificativa ética para este foco durante uma semana tão crítica. A única justificativa, como comumente é o caso na cobertura das favelas, é o Ibope e o lucro em cima do descaso.

Embora seja uma verdade triste de algumas comunidades do Rio, essa atuação de grupos civis armados é um elemento simples dentro de uma história rica e complexa e muito mais importante: a mobilização comunitária diante a negligência do Estado. Ao focar um holofote em um elemento mínimo do que está ocorrendo nas favelas, quando a pauta principal do momento é sua resiliência e protagonismo, o viés da mídia se torna ainda mais desmascarado. É importante destacar que há relatos do mesmo fenômeno acontecendo em áreas controladas por milícias, também de milícias barrando o isolamento, fatos bem menos pautados.

2. Romantizar o isolamento

Ao fazer reportagens sobre a adaptação do modo de vida na sociedade em tempos de isolamento social, alguns jornalistas focam em histórias dos que conseguem lidar bem com a situação, sem mencionar as dificuldades vividas pela grande maioria. Se alguns aproveitam do isolamento para se dedicar a sua família, redescobrir prazer simples, se centrar no seu lar e cuidar de si, na realidade, para a maioria, a maior preocupação do isolamento é de sobreviver à fome, medo, promiscuidade, violências domésticas e falta de perspectivas.

Esta narrativa de quarentena como tempo de qualidade para reflexão e momento privilegiado para fazer coisas que importam é relatada pelas classes média e alta cujas condições de conforto e preocupações não têm nada a ver com as das comunidades. Romantizar o isolamento, seja onde for, é desviar a atenção das necessidades urgentes e primordiais que vivemos como sociedade. Se a pandemia nos ensina uma coisa é que todos são intrincadamente interligados.

3. “Heroicizar” ativistas comunitários sem denunciar a falta de serviços públicos

Desde o começo da crise da covid-19, muitos grupos comunitários se organizaram para divulgar informação de prevenção, arrecadar doações, distribuir kit de higiene e cestas básicas para famílias que passam por necessidades, e mais recentemente costurar máscaras, instalar pias comunitárias ou higienizar os bairros. Estas iniciativas de solidariedade e mobilizações, para e pelas próprias comunidades, estão cada vez mais aparentes na mídia, o que é bom, por um lado, para mostrar a agência e protagonismo local e sua eficácia e capacidade. Mas, por outro lado, pode não ser positivo, se faltar na matéria a recordação da ausência de serviços públicos e a negligência do estado que está na origem das carências. Os voluntários comunitários chegam ao ponto de tomar as rédeas porque os poderes públicos não assumem a responsabilidade que lhes cabe.

Ao pintar estes ativistas como heróis, a mídia normaliza e idealiza esta transferência de responsabilidade. Mas a admiração não é bem-vinda se não é seguida de demanda por garantias de direito, respeito e dignidade. Desvia o olhar que deveria estar focado na denúncia de falta de medidas efetivas por parte das autoridades. O papel da mídia não deveria ser de lançar um olhar complacente, até condescendente, mas de mostrar que estas ações não substituem o Estado. Precisamos de ambos nas matérias sobre ações locais: o reconhecimento da luta, a autogestão e a resistência criada historicamente nas favelas, e o reconhecimento da ausência dos direitos que obriga as comunidades a se organizar e seus mobilizadores a se colocarem na linha de frente do risco.

4. Não cobrir, ou cobrir superficialmente, a violência doméstica

Parte muito pequena da mídia está se debruçando sobre os efeitos sociais danosos e potencializados pelo isolamento social, tais como os episódios de violência doméstica. Salvo raras exceções presentes em iniciativas editoriais independentes, setorizadas ou institucionais, a produção de conteúdos contextualizados e focados especificamente neste tipo de violência são raros ou muito superficiais. No entanto, os impactos perturbadores dessa violência sobre a saúde física, sexual, reprodutiva e mental de mulheres, crianças e adolescentes, incluindo a população LGBTQA+ são imensas, ainda mais quando fugir não é uma opção.

A grande mídia começou a ecoar o problema mais uma vez só a partir de uma declaração oficial, no caso de António Guterres, chefe da Organização das Nações Unidas (ONU) que pediu medidas para combater o assunto crescente. Porém, para a maioria, foi só uma mera reprodução da fala de Guterres e das conclusões da ONU, com pouco destaque acerca das perturbações internalizadas decorrentes do isolamento social tais como ansiedade, depressão, idealização de suicídio e agressividade por parte de maridos e namorados violentos. As coberturas também faltam de resgate historiográfico decorrente de momentos de crise na sociedade com impactos na economia e política, por exemplo, sob o ponto de vista de epidemias que, historicamente, trazem aumento da violência contra a mulher, como aconteceu com o ebola na África e a cólera no Haiti. Também poucas são as matérias que mencionam ou analisam a existência de apenas 21 delegacias especializadas no atendimento às mulheres com funcionamento 24 horas em todo o país. Dessas, só São Paulo e Rio de Janeiro possuem delegacias fora das capitais.

As narrativas mais usadas mais uma vez reproduzem a ideia que o papel das vítimas é sempre o de se proteger através de variados meios, mas não culpabilizam de forma suficiente a violência dos agressores. Também são muito poucas as matérias que intensificam o debate em torno de políticas pedagógicas para o machismo, que responsabilizam os homens pela iniciativa de impedir atos violentos em domicílio no contexto da pandemia. Menos ainda conteúdos que enfatizaram a recorrência de episódios de estresse decorrente da sobrecarga de mulheres nos serviços domésticos e nos cuidados com os entes familiares que pertencem aos grupos de risco.

5. Não remunerar comunicadores populares contribuintes e usar imagens de pessoas sem sua autorização

Em tempos de pandemia, ainda mais do que o habitual, poucos são os jornalistas que se aventuram no território das favelas, então o trabalho deles baseia-se em boa parte nas fontes locais. Muitos moradores de favelas acabam exercendo o papel de fixer ou produzindo conteúdos diretamente retomados pela mídia. Apesar da parceria estabelecida e da troca de qualidade de conteúdo, é essencial que veículos e equipes de grandes redes de comunicação seja TV, impresso ou portais de notícias e agências, estabeleçam um pagamento pelo apoio e uso da produção de conteúdo dos comunicadores comunitários.

Ainda que a relação de troca seja fundamental neste momento, mediante a questões econômicas de sobrevivência, a reprodução de conteúdo poderia começar a ser remunerada por veículos de grandes redes. É uma forma também de auxiliar e dar suporte a ação de comunicadores e jornalistas das favelas e suas famílias. (Importante: o apontamento não se refere a entrevistas realizadas com os moradores como fonte de informação).

Mas já ouvimos vários relatos de falta de profissionalismo e respeito sobre isso. Por exemplo, em março, um projeto social na Cidade De Deus foi procurado por dois fotojornalistas freelancers com a suposta intenção de fotografar famílias da favela para ajudar. Mas não deixaram claro as verdadeiras intenções das fotos, que acabaram vendidas para vários veículos de comunicação diferentes e até saíram em duas capas de jornais nacionais e na TV. As entrevistadas não imaginavam que teriam suas imagens expostas dessa maneira. Uma gestante entrevistada foi particularmente afetada por muitas pessoas que a julgaram e xingaram nas redes sociais de um grande jornal. Ela se sentiu invadida e explica que não autorizou que sua imagem fosse para tantos veículos.

6. Falta de apuração ou informações imprecisas 

Quando o tema é favela é possível encontrar com facilidade, na grande mídia, matérias mal apuradas, com informações faltando ou até mesmo contendo imagens ou dados falsos, como no caso ocorrido em Acari. É necessário fazer apuração de qualidade quando o assunto vem da favela da mesma forma como se a informação viesse de qualquer outro lugar, talvez, até mais. Ter fontes seguras é fundamental. É preciso buscar associações locais, moradores, líderes comunitários, jornalistas que moram na região, acessar os sites e redes sociais de mídias e coletivos de favela e, dessa forma, buscar e reunir informação de qualidade. 

Além disso, é fundamental que essa informação seja acessível. Não adianta querer informar a favela e usar palavras como “lockdown” ou “home office”. Não apenas o favelado mas a maior parte da população brasileira não entende esses termos. É preciso que a informação não apenas chegue mas que seja clara, direta e acessível. 

7. Falta de empatia

As matérias contando os óbitos por coronavírus em favelas se multiplicam a cada dia, apontando cada morador de favela como mais uma estatística de maneira fria, quando deveriam ser valorizadas as histórias das pessoas, como é feito com moradores de áreas nobres. É fundamental ter um olhar mais humano, porém sem violar a privacidade das vítimas e de suas famílias.

Reconhecemos que acertar esse equilíbrio delicado – de combinar empatia com rigor, sem reproduzir estigma nem romantizar demais – é difícil, ainda mais em tempos de pandemia e uma nova urgência midiática exigida pelos grandes canais. Mas a crise atual requer, mais do que nunca, um jornalismo de qualidade.

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