Mapas do coronavírus: desafios e direções

Em resposta a Foucault, Milton Santos apregoava uma “Geografia da Saúde” — interdisciplinar e geopolítica. Hoje, cartografias digitais permitem construir conhecimento colaborativo em rede e evidenciar áreas com saúde vulnerável

Montagem: Antônio Heleno Caldas Laranjeira

Escrever sobre o momento histórico que nos contém – a contemporaneidade – exige um distanciamento do presente para um olhar sobre nossa “época”, como definiu o filósofo Jean-Paul Sartre. Pelo método dialético, a compreensão da existência humana é descrita conforme épocas da História. Em nossa época, reconhecer o antigo e o novo é estratégico para produzirmos uma crítica que seja capaz de quitar a “dívida multidisciplinar” estabelecida entre a Geografia, a Saúde e a Comunicação.

O contexto de pandemia em um mundo globalizado exige apontamentos que vão da teoria para a prática, reflexões que atenuam diálogos entre o pesquisador e o profissional de Comunicação Social. Nos últimos anos, doenças zoonóticas emergentes assumiram destaque dos media por serem consideradas de “médio risco”. Por serem ameaçadoras, as epidemias sempre sondaram a necessidade de medidas práticas de cientistas e profissionais técnicos de diversas áreas para evitar as pandemias, afinal a informação é uma “arma” em uma “guerra contra os vírus”.

Assim como a Ebola e a Zika, a Covid-19 é uma doença de “alto risco” causada por um vírus da família dos “coronavírus”. A origem geográfica do novo coronavírus na China foi apontada por especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS), instituição segundo a qual o desmatamento do espaço natural e a comercialização de animais silvestres podem ser fatores somáticos para a origem da maior pandemia do século XXI.

Em 1976, quando Michel Foucault endereçou diversas questões complexas à revista parisiense Hérodote, na época editada pelo geógrafo Yves Lacoste, diversos geógrafos responderam por meio de cartas que foram publicadas na edição seguinte, em 1977. Milton Santos ofereceu uma resposta a uma das questões sobre a possibilidade de uma “Geografia da Saúde”, em resposta ao autor francês, onde evidenciava a necessidade da ação interdisciplinar para um conhecimento geopolítico sobre as dinâmicas das estruturas da “medicina global” e as funções econômicas dos seus processos de inovação.

Milton Santos afirma, em seu breve e denso artigo intitulado Une géographie de la médecine, que “é preciso sempre recorrer a uma unidade de análise situada em um nível mais elevado para encontrar na totalidade do movimento social as razões específicas, particulares, aparentemente locais”. Hoje, ainda sob esta visão de mundo, buscamos recorrer à “unidade” para refletir que estudos diversos sobre Geografia, Saúde e Comunicação, em escala global, indicam esta mesma necessidade de “totalidade” indicada por Milton Santos em resposta à Michel Foucault: por uma retomada de conceitos e categorias críticas que possam estar associadas em prol de soluções locais.

Quando a pandemia da Covid-19 foi confirmada, questões oriundas da Saúde aceleraram-se em busca por respostas no campo da Geografia, que, por sua vez propõe questões que encontram respostas no campo da Comunicação, e vice-versa, em um processo de “unicidade teórica” de “totalidade prática”, um movimento do campo científico capaz de reacender um debate mundial “por uma outra globalização”, como enunciou Milton Santos no título da sua última obra.

Ao longo deste artigo, buscaremos realizar uma articulação entre conceitos, categorias e metodologias que aponta como o mapeamento é um procedimento-chave para um monitoramento eficiente, especialmente neste período de pandemia pelo novo coronavírus.

O que é de Comunicação de Riscos?

Historicamente, conforme o filósofo francês Michel Foucault (1984), os “riscos dos séculos XVIII e XIX” apresentam características socioespaciais, sanitárias e discursivas: 1) estão confinados no espaço em escalas (a cidade, o bairro, o lar), no tempo (a estação do ano, o surto, a epidemia) e na classe social (os pobres, os indigentes, os trabalhadores); 2) centram-se na questão da higiene; 3) possuem nos médicos os seus peritos principais.

Na contemporaneidade, na década de 1980 o termo “comunicação de risco” passou a fazer parte da gramática de pesquisas científicas e das práticas dos medias, especialmente da produção e distribuição de informações para as tomadas de decisão. Segundo o documento de 1989, elaborado pelo National Research Council, dos EUA, “a comunicação de risco inclui mensagens movendo-se em várias direções – não apenas dos peritos para os não peritos (leigos) mas também dos não peritos para outros não peritos, dos não peritos para os peritos e, especialmente, as mensagens de participação política dos cidadãos para os decisores públicos”.

Partindo desse pressuposto, de acordo com o comunicólogo português Paulo Serra, os casos de risco das sociedades a partir do século XX, são: 1) “onipresentes”, por serem de longo prazo e de escala global; 2) “difusos”, em muitos casos invisíveis e de efeitos nem sempre calculáveis ou previsíveis; 3) “multidisciplinares”, na sua avaliação, estudo e gestão.

Conforme esta teorização recente, “a comunicação de risco é multiforme”, definida conforme cinco categorias de análise dos discursos: 1) a motivação: temática (explícita) e não temática (implícita); 2) o tempo: normal (prevenção) e de crise (emergência); 3) o código: verbal (palavras) e não-verbal (signos não verbais); 4) o meio de comunicação: midiatizada e interpessoal; 5) a fonte: institucional e alternativa.

Orientados por estas formas de “midiatização dos riscos”, conforme as escalas adotadas para cada projeto de monitoramento, refletiremos sobre dois mapas online que reproduzem informações distintas com objetivo em comum de comunicação de riscos da pandemia com base em evidências do Covid-19 (suspeitas, confirmações, descartes, pesquisas, ações, etc.) em territórios de todos países que registraram casos da doença.

A cartografia na Saúde Pública

A necessidade de usos de sistemas de cartografia digital colaborativa nas metodologias da Saúde é crescente e relevante para diversos países, especialmente os periféricos, com diversas “áreas enigmas” da pandemia invisibilizadas nos mapas e com uma constatável maior vulnerabilidade dos sistemas de Saúde.

De acordo com as definições clássicas do geógrafo francês Max Sorre, em sua obra Fundamentos Biológicos da Geografia Humana, a Geografia e a Saúde aproximam-se na busca por respostas cada vez que identificam-se os fatores “patógenos sociais” de uma enfermidade infecciosa, afinal todo “complexo patogênico” tem origens em organismos em um mesmo território; ou seja, toda transmissão se inicia em um “contexto”, nas dinâmicas socioespaciais entre o espaço, os humanos, os animais domésticos ou silvestres e os micro-organismos em uma escala geográfica local.

Os mapas foram estabelecidos como objetos técnicos nos estudos de contextos da Saúde desde meados do século XIX, com o médico inglês John Snow, que cartografou os casos de cólera na cidade de Londres, em 1854. Nos séculos XX e XXI, a ciência geográfica tem sido cada vez mais relevante para o desenvolvimento de estudos da relação “entre o espaço, a saúde e as desigualdades e iniquidades”, o que assegura o avanço da teoria para a prática através de métodos eficazes com base em meios de comunicação cartográfica. Na segunda década do século XXI, a convergência tecnológica entre sistemas de cartografia digital colaborativa e a web 2.0 indicam três vias metodológicas consideradas inovadoras para estudos da Saúde Pública: o “georreferenciamento”, a “geolocalização” e a “geoetiquetação”.

O “georreferenciamento” pode ser definido como um processo de comunicação que permite a um humano utilizar da web para localizar um lugar no mapa a partir de um GIS, como exemplo do Google Maps e ArcGIS. A “geolocalização” é o processo que permite um humano utilizar um dispositivo receptor de GPS para localizar outro humano (ou objeto) em movimento no espaço geográfico e visualizá-lo conforme o georreferenciamento determinado. A “geoetiquetação”, por sua vez, é um processo que utiliza da vetorização geométrica de um território para denominação etiquetada (tags) de seus elementos no mapa, neste caso ela deve ser assimilada pela geolocalização e pelo georreferenciamento de modo complementar, para assim compreendermos o contexto de uma temática patogênica, seja para prevenção ou para intervenção.

Estas três vias metodológicas entrecruzam-se, na prática, para uma análise espacial crítica que considera os lugares, as localizações e o complexo patogênico, permitindo uma visão multiescalar e multidisciplinar de um fenômeno global, como a pandemia Covid-19, a partir da relação “lugar-mundo” mediada pela comunicabilidade dos mapas.

Como cartografar a propagação de um vírus pelo planeta Terra? O que fazer com o mapa de casos do Covid-19 durante e depois da pandemia? Ora, as perguntas “como?” e “o quê?” são distintas e complementares. Portanto, reafirmamos que a realidade do espaço geográfico é representada em cada mapa conforme um “interesse de poder” que define “como mapear” e “o que mapear”.

De acordo com a metodologia proposta pelo geógrafo brasileiro Milton Santos, que possui uma tradição nas pesquisas de análises espaciais críticas, existem quatro categorias indissociáveis para uma análise das contradições e solidariedades do espaço geográfico: o lugar, o território, a paisagem e a região.

Estas “categorias para análise espacial”, formuladas na obra seminal Espaço e Método (1985), conectam-se com as quatro categorias semiológicas da comunicação cartográfica: o ponto, a mancha, a faixa e a legenda. Há uma equivalência nestas categorias, afinal o mapa busca ser a representação de uma realidade, portanto consideramos que: 1) o lugar é o ponto; 2) o território é a mancha; 3) a região é a faixa; 4) a paisagem é a legenda do mapa. Portanto, partiremos desse pressuposto para considerações sobre dois projetos: o COVID-19 Map e o CoronaVirus Situation.

Coronavírus: um mapa dos lugares e um mapa dos territórios

De acordo com o manual do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE): “O conceito fundamental dos vários modelos de tomada de decisão é o de racionalidade. De acordo com este princípio, indivíduos e organizações seguem um comportamento de escolha entre alternativas, baseado em critérios objetivos de julgamento, cujo fundamento será satisfazer um nível estabelecido de aspirações”.

Para mapear coletivamente, com uma rede de pessoas que não se conhecem mas se reconhecem, esse modelo de trabalho considera quatro procedimentos científicos, que reiteram as definições do INPE sobre a “racionalidade” de uma análise espacial: 1) Definição do problema: formular o problema como uma necessidade de chegar a um novo estado; 2) Busca de alternativas: estabelecer as diferentes alternativas (aqui consideradas como as diferentes possíveis soluções do problema) e determinar um critério de avaliação.; 3) Avaliação de alternativas: cada alternativa de resposta é avaliada.; 4) Seleção de alternativas: as possíveis soluções são ordenadas, selecionando-se a mais desejável ou agrupando-se as melhores para uma avaliação posterior.

Se nenhum mapa pode ser considerado um “canal neutro”, uma “representação perfeita” ou um “olhar completo” de informações do espaço na forma de dados, aqui refletiremos como os discursos de cada um dos dois mapas são resultantes do método de representação e como ambos possuem efeitos distintos na comunicação dos riscos da doença para cada território.

Analisaremos semiologicamente e discursivamente, dois mapas de monitoramento do coronavírus que seguem em plena mudança em taxas estatísticas, período em que a Covid-19 se complexifica na escala patogênica mundial. Partiremos da teorização da Geografia para atribuirmos conclusões da Comunicação sobre o papel estratégico da informação na escala local e na escala global no contexto do novo coronavírus.

Estes dois mapas surgiram em 2019, a partir de uma motivação em comum (a temática explícita) e um mesmo meio de comunicação (a geoweb), e possuem discursos distintos em seus códigos (infográficos e mapas), suas temporalidades (prevenção e emergência) e suas fontes (institucional e alternativa), sendo o primeiro caso uma rede de mapeamento alternativo da plataforma Reddit e o segundo caso uma rede de mapeamento institucional da OMS.

O modelo de mapeamento alternativo do COVID-19 Map, produzido por diversos voluntários com base na plataforma gratuita Google My Maps, delimita os “lugares da pandemia” na forma gráfica de pontos aos quais são atribuídas cores de classificação; os pontos são distribuídos em camadas (layers) que podem ser ativadas ou desativadas conforme o interesse de quem utiliza este mapa online.

No COVID-19 Map, são visualizáveis casos de quarentena (roxo), casos confirmados (laranja), casos recuperados (verde) e casos de morte (preto). Para cada camadas de dados, a checagem foi realizada por habitantes do território e pode ser verificada a partir de hiperlinks que reportam para portais jornalísticos ou governamentais com informações de credibilidade.

Já o modelo de mapeamento institucional do CoronaVirus Situation, produzido em rede por instituições de Saúde Pública de cada nação com base na plataforma privada da ArcGIS, tem como centro de comando dos dados a OMS. O mapa possui infográficos que contextualizam as informações de cada país conforme estatísticas e delimita os “territórios da pandemia” na forma de círculos (manchas) que seguem atribuições booleanas (algébricas) que variam conforme o grau de infecção informada pelos especialistas do país; os círculos estruturam uma única camada de dados, por vezes sobrepostos, que utiliza a mesma cor de classificação (laranja) e diâmetros diferentes (maiores e menores).

No mapa CoronaVirus Situation são visualizáveis, além dos círculos da pandemia, o número de países afetados em um ranking (à direita da tela) casos confirmados e casos de morte na barra lateral (à esquerda da tela). Para estas camadas de dados, a checagem foi realizada por entidades governamentais ligadas à OMS que gerem os territórios nacionais, não estando aberto para colaborações de outras entidades ou da sociedade civil.

Concluímos que a cartografia digital colaborativa é uma metodologia que assume papel estratégico, seja por um mapa alternativo ou por um mapa institucional. Estes dois tipos de mapas comunicam os riscos e realizam uma enunciação do discurso de escala geográfica local em um processo de circulação destes discursos na escala cartográfica global.

Cabe ao leitor dos mapas o olhar crítico sobre o papel da informação e da contrainformação para aceitar ou questionar qual o método que afinal aponta para uma efetiva contribuição para mitigarmos os problemas enfrentados pela humanidade hoje e nos preparamos melhor para problemas do amanhã.

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3 comentários para "Mapas do coronavírus: desafios e direções"

  1. Guilherme aparecido Oliveira Vilar disse:

    Achei o texto bem legal e interesante!!!

  2. Jamilly Ribeiro Pereira disse:

    Interessante

  3. obrigado pela informação, o é site excelente vou voltar
    mais vezes 🙂

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