Os movimentos sociais e a questão do alcoolismo

Tema espinhoso às esquerdas já foi tratado por teóricos como Trotsky e Frantz Fanon. Não trata-se de impor moralismo, mas de abrir canais de diálogo, baseados na ciência, sobre impactos da dependência química também à organização social

Imagem: “O copo de Absinto” (1875-76), de Edgar Degas

Dois motivos me levam a escrever este texto que, à primeira vista, pode parecer sem sentido ao conectar os movimentos sociais e a questão do alcoolismo. O primeiro é uma tragédia na família ligada ao uso abusivo do álcool, o que me fez procurar entender melhor como se dá o mecanismo que causa a dependência desta e de outras substâncias e como isso afeta a pessoa dependente e as pessoas próximas a ela. O segundo motivo é um texto que circulou pela internet em janeiro de 2020, de autoria de Erahsto Felício1, cujo título O gigante pode estar de ressaca: ensaio sobre o uso do álcool e as lutas das esquerdas que me chamou bastante atenção. Felício sugere que os movimentos sociais, comunidades e grupos debatam “sem moralismos e sem ilusões” o fato de que o uso abusivo do álcool compromete de forma negativa as lutas, já que é algo presente na vida de muitos militantes e de suas famílias. Assim como ele fez em seu artigo, quero aqui afirmar que não sugiro a proibição do consumo de álcool por parte de qualquer pessoa maior de idade. Isso já foi proposto por governos de direita e de esquerda e por muitas religiões em vários países ao longo dos últimos séculos sem obter êxito. Basta ver o que aconteceu com a Lei Seca nos Estados Unidos, em 1920, e tentativas de proibir o álcool na Rússia pós-revolução no mesmo período. Não vejo mal em beber uma cerveja ou um vinho, jogar conversa fora e dar boas risadas com os amigos e as amigas. Ainda mais se for uma cerveja que não pertença a um monopólio industrial do setor e com a qualidade duvidosa dos insumos para a sua fabricação. A discussão que proponho, reforçando o que foi feito por Felício, é referente ao consumo abusivo de álcool.

De início, é preciso entender que as pessoas que consomem álcool (ou outras substâncias danosas à saúde) de forma abusiva não são “viciadas”, como julgam muitas pessoas baseadas no senso comum. Este é um julgamento moral (do latim moralis que significa hábito ou costume) que conclui que as pessoas dependentes apenas se acostumaram ao consumo de determinada substância e podem para de consumi-las tão logo o desejem. A dependência química não é um hábito ou costume que se muda quando se quer e as pessoas dependentes tornam-se doentes ao ponto de perderem o controle sobre si mesmas. Há um mecanismo em seus corpos que associa o álcool ao prazer, buscando sempre mais álcool como forma de eternizá-lo. Essa busca acaba gerando uma compulsão, pois o corpo pede sempre uma quantidade maior de álcool para se sentir saciado, e é essa compulsão que causa a doença. Vale salientar que a Organização Mundial da Saúde considera o alcoolismo como uma doença desde 1967, mas a Ciência ainda não sabe exatamente o motivo que causa a dependência, podendo ter origem em fatores sociais ou genéticos. O fato é que os efeitos nocivos são os mesmos em graus diferentes a depender do avanço da doença em cada pessoa. Como é uma droga legalizada, ela é muito mais aceita que outras substâncias, mas os prejuízos sociais, econômicos e psicológicos são devastadores, mesmo em comparação com outras drogas mais fortes, como mostra uma pesquisa coordenada pelo professor britânico David Nutt (2007). Isso porque o álcool (cachaça, cerveja, etc) é consumido por um número muito maior de pessoas, logo o número de impactados é numericamente bem maior. Basta ver as notícias que relacionam álcool e acidentes automobilísticos ou violência doméstica (ninguém conhece melhor as consequências da doença do alcoolismo do que as mulheres). As pessoas afetadas indiretamente são um número não computado que merece atenção e que, em geral, não é levado em conta (tome-se as crianças que carregam traumas devido ao alcoolismo de um parente próximo como um exemplo). Além de tudo isso, há o gasto com as doenças decorrentes da dependência por parte dos governos. Uma das melhores formas de aprender mais sobre os mecanismos desta doença e as suas consequências é conhecendo os grupos dos Alcóolicos Anônimos – AA – e os grupos Familiares e Amigos de Alcóolicos – AL-Anon2, ou lendo a vasta literatura por eles publicadas com base na experiência de pessoas em recuperação3. Há também inúmeros estudos científicos sobre este tema que podem ser acessados na internet por pessoas interessadas.

Voltemos ao texto O gigante pode estar de ressaca… O artigo menciona que este assunto vem sendo tratado há mais de um século pelo campo da esquerda: de Trotsky em um artigo intitulado A Vodka, a Igreja e o Cinema4à Frantz Fanon em seu livro Condenados da Terra, além de outras lideranças citadas no texto como exemplos. Percebam como este tópico é recorrente como um obstáculo para o avanço da organização dos grupos oprimidos em várias partes do mundo. O autor nos lembra que “O abuso de álcool é um problema no processo de formação política da militância dos movimentos sociais. Aqui e ali perdemos lideranças, bons quadros por excessos cometidos no uso e até pelo alcoolismo…” Ele também chama a atenção para o fato de que o álcool e a sua (oni)presença onde bares são, muitas vezes, o único território para o encontro de jovens e adultos como na periferia das grandes cidades (e eu acrescento que também nas proximidades das universidades), contribui para minar a luta por mudanças sociais, já que desarticula a organização. Como irão os dependentes priorizar a organização se gastam tempo em bares e depois para a recuperação física e mental da embriaguez? Como avaliar e traçar estratégias de luta quando o final de um protesto acaba em um bar e não em uma reunião para a avaliação do evento?

O consumo de álcool serve, muitas vezes, para esquecer todo o sofrimento de que são depositárias as pessoas oprimidas. Acontece que anestesiar a dor da opressão diária pode adiá-la, mas não a faz desaparecer, como tão bem sabemos. Por isso, a volta ao anestesiamento acontece com doses cada vez maiores e mais frequentes.

Felício também toca em um ponto que penso ser essencial para refletir: para quem vai o lucro do consumo de álcool? Se a bebida for cerveja, saiba que o seu dinheiro alimenta a maior fortuna do Brasil e uma das maiores do mundo. Essa fortuna começa a, sem disfarces, financiar candidaturas5 para o Congresso Nacional e tem o objetivo de chegar ao Palácio do Planalto. A luta contra a máquina da opressão e o consumo abusivo de um produto que abastece esta mesma máquina por parte de pessoas que compõem os movimentos sociais é contraditória. Não esqueçamos que os opressores sempre utilizaram o álcool para sabotar os grupos oprimidos. Exemplos não nos faltam com os senhores de engenhos dando cachaça às pessoas escravizadas para que elas não fugissem na entressafra da cana-de-açúcar ou fazendo o mesmo com vários povos indígenas no período da invasão europeia em nosso país. Não à toa ainda hoje a cachaça é um produto muito barato. Por que será que não se aumentam os impostos sobre este produto? Quais as forças ocultas que o mantém tão barato? Por isso é importante pensar o consumo abusivo do álcool sob um ponto de vista Político6. Aqui não me refiro apenas as políticas públicas para a saúde mental, o que é extremamente importante. Minha referência é a Política com P maiúsculo, como a ciência da organização da vida em sociedade e como um ponto importante para a luta por um mundo justo.

A esquerda enfrenta problemas sérios para conquistar um grande contingente de pessoas da periferia nas grandes cidades que foi contaminada por um falso moralismo pregado por algumas igrejas neopentecostais. Uma das promessas destas igrejas é justamente que ao converter-se para aquela religião, a pessoa encontrará a cura para a sua dependência química. Qual a família pobre e periférica que não almeja por isso para um parente dependente e as vezes violento? Em política, espaço que se deixa vazio é tomado por outras forças. Eis aí mais um motivo para trazer esta discussão para os movimentos sociais.

Que cada grupo, comunidade ou movimento social encontre o seu próprio caminho para lidar com este assunto, mas sem um processo educativo e um debate à luz dos novos conhecimentos científicos sobre a dependência química e das experiências das famílias que compõem a luta e vivem esta situação, o álcool continuará minando a organização dos que mais sofrem injustiças neste país. É urgente começar este debate. Haverá resistência por parte de alguns e isso é normal. Que se comece a discussão com aquelas pessoas abertas a este tema. Quero encerrar desejando que reverberem as palavras de Erahsto Felício presentes em seu texto tão corajoso e desafiador para os movimentos sociais:

O abuso das bebidas é sim um problema da militância de esquerda, dos ativistas de movimentos sociais. Gastamos muito tempo em análises de conjuntura que pregam para convertidos nossas ideias e concepções políticas de esquerda, contudo somos incapazes de pautar em nossas mesas redondas um tema tão espinhoso quanto presente em nossos quadros. Não é possível seguir não pautando este tema, ignorando estas dores. Estamos falando de trilhar um caminho novo para o ser humano em luta. Reinventar-se eticamente para seguir firme em nossos propósitos.

Bibliografia:

ALCÓOLICOS ANÔNIMOS. A história de como milhares de homens e mulheres se recuperaram do alcoolismo. 1976.

BRASIL. Lei Federal 6117/07: Política nacional sobre o álcool. 2007. Acessível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/decreto/d6117.htm#:~:text=Decreto%20n%C2%BA%206117&text=DECRETO%20N%C2%BA%206.117%2C%20DE%2022,criminalidade%2C%20e%20d%C3%A1%20outras%20provid%C3%AAncias

FELÍCIO, Erahsto. O gigante pode estar de ressaca: ensaio sobre o uso do álcool e as lutas das esquerdas. 2020. Acessível em https://medium.com/@erahstofelicio/o-gigante-pode-estar-de-ressaca-ensaio-sobre-o-uso-do-%C3%A1lcool-e-as-lutas-das-esquerdas-5b7956ab3988

GRUPOS FAMILIARES AL-ANON. Como o Al-Anon funciona para familiares e amigos de alcóolicos. 2005.

NUTT, David; KING, A. Leslie; SAULBURY, William; BLAKEMORE, Colin. Development of a rational scale to assess the harm of drugs of potential misuse. In The Lancet. Vol. 369. Mar. 24. 2007. Acessível em http://www.antoniocasella.eu/archila/NUTT_2007.pdf.


1 Há também uma ótima entrevista com Erahsto Felício no Youtube sobre este tema. Confira em https://www.youtube.com/watch?v=7hlOcdTUwVI

2 Vale uma visita aos sítios eletrônicos do AA (https://www.aa.org.br/) e do Al-Alanon (http://www.al-anon.org.br/) para conhecer os seus fundamentos e o trabalho que desenvolvem.

3O AA considera que a doença do alcoolismo não tem cura e por isso a pessoa doente está em permanente recuperação. Mesmo que pare de ingerir bebida alcóolica, não será considerada uma pessoa curada. O Al-Anon considera que o alcoolismo é uma doença de toda a família.

4 Este artigo pode ser acessado em https://www.marxists.org/portugues/trotsky/1923/vida/cap05.htm. Tema recorrente naquele país, matéria veiculada no UOL revela que “Segundo a Organização Mundial da Saúde, o consumo de álcool na Rússia caiu 43% desde 2003, graças a uma série de medidas do governo, como a proibição de venda de bebidas após as 23h, aumento do preço mínimo para o consumidor e campanhas em prol de um estilo de vida mais saudável.” Acessível em https://www.uol.com.br/nossa/noticias/redacao/2021/01/01/os-incriveis-cartazes-da-luta-fracassada-da-urss-contra-o-alcoolismo.htm?fbclid=IwAR2De2FitbYvIxcAYv5iXRfBRup-6ioGkhR46cX4NwUBYs2PQtdnLtgE3MI&cmpid=copiaecola.

5Confira “Bancada Lemann”: os políticos apoiados pelo 2º homem mais rico do Brasil em https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2019/05/22/com-trajetoria-parecida-deputados-associados-a-lemann-divergem-na-politica.htm.

6 O Brasil tem uma Política Nacional Sobre o Álcool sob a forma da Lei 6117/07 promulgada durante o governo do ex presidente Lula. Confira a lei em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/decreto/d6117.htm#:~:text=Decreto%20n%C2%BA%206117&text=DECRETO%20N%C2%BA%206.117%2C%20DE%2022,criminalidade%2C%20e%20d%C3%A1%20outras%20provid%C3%AAncias

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também:

Um comentario para "Os movimentos sociais e a questão do alcoolismo"

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *