Libertadores: as torcidas repudiam Bolsonaro

Na final brasileira do maior torneio de futebol das Américas, torcedores e ativistas dos finalistas – Palmeiras e Santos – rechaçam ter sua glória manchada pela presença oportunista do capitão. Leia dois manifestos aos dirigentes dos clubes

Bolsonaro não manchará a glória do Palmeiras novamente, pois não nos representa

Por Porcomunas

O dia 2 de dezembro de 2018 representou e ainda representa um ponto de ruptura na história da Sociedade Esportiva Palmeiras e de sua torcida. Não apenas enquanto instituição, posto que a gestão atual foi subserviente a interesses de parceiros comerciais, assim como a de membros de sua própria cúpula, acolhendo o presidente recém-eleito Jair Messias Bolsonaro em seu estádio, permitindo a apropriação do título brasileiro recém-conquistado como sua nova plataforma política, o que inaugurou uma era sombria na história do Brasil.

O ponto de ruptura é mais profundo e abrange o Palmeiras enquanto parte indissociável da cultura brasileira, como um espírito que transita entre ruas e esquinas, que mobiliza cidadãos não só nos quatro cantos da cidade, como também nos quatro cantos do Brasil. Ainda que esbarre no chavão, o Palmeiras é sobretudo, sim, uma ideia. Uma identidade, um pelo-quê-viver, um mecanismo de fuga ou busca, uma forma de escapar a toda a dinâmica de exploração relegada aos trabalhadores e trabalhadoras, para enfim alcançar um pertencimento coletivo, uma possibilidade de transcender em meio ao caos. O Palmeiras é parte da sabedoria da escassez do povo brasileiro, conceito outrora cunhado por Milton Santos.

A figura de Jair Bolsonaro rompe com esse fenômeno de sociabilidade, que ultrapassa, e muito, o futebol. Não apenas com o que representa o Palmeiras hoje, uma vez que a própria representação do clube foi ressignificada ao longo das décadas. Mas com a própria essência do que é o time. O Palmeiras foi fundado sob o pendão do acolhimento à diferença, pela organização e união enquanto resistência à intolerância e à miséria. E por meio desse acordo de sobrevivência, imigrantes operários encontraram uma fresta por entre os tantos muros levantados para, enfim, construir encantamento. Encantamento por meio do futebol.

Não somos ortodoxos a ponto de crer que esse espírito sobreviva integralmente à percepção que se tem do que é Palmeiras hoje, e quem são seus representantes – os reais proprietários de um clube, seus torcedores. Mas fazemos questão de lembrar. Porque a criação do Palmeiras e seu posterior desenvolvimento não são como a fundação de qualquer clube por aí, em que meia dúzia de pessoas (ou melhor, pelo menos onze) se juntam para jogar bola. O Palmeiras nasceu sob um signo, sob um propósito. O primeiro Palmeiras, que sequer Palmeiras se chamava, surgiu por uma demanda de trabalhadores imigrantes que encontraram no Brasil um árduo, mas ainda lar.

A presença de Jair Bolsonaro em um momento de glória do clube representa, portanto, um bloqueio desses valores cultivados ao longo de décadas, ainda que inconscientemente. Bolsonaro, um genocida, é prioritariamente anti-vida. Através de sua necropolítica, mostra-se há tempos como ferrenho inimigo dos trabalhadores, opositor tácito dos imigrantes (de países pobres é claro; como fora a Itália no princípio do último século), rejeitador de toda e qualquer diferença, um aprisionador da criatividade e do encantamento. Bolsonaro transpira ódio, rancor, tortura e desigualdade. Enquanto um projeto de ditador incompetente e desqualificado, é refém com prazer do mercado, que subjuga as massas trabalhadoras à profunda miséria, enquanto seus principais agentes se agarram mais aos lucros do que aos próprios filhos. E como em 1914, a grande massa palmeirense segue como uma firme massa de trabalhadores, de diversas cores e credos, resistentes a um Brasil de irresponsabilidade, desaforo e negligência.

O impacto foi forte, o suficiente para que as frações insatisfeitas se mobilizassem. Desde aqueles dias, diversos grupos progressistas, com ideias e ideais de esquerda, começaram a ser potencializados nas ruas, nos cochichos e nas ações palmeirenses, embora já existissem antes disso. A resistência foi formada por inconformados que buscavam resgatar a identidade plural e acolhedora do Palmeiras, e afastar a imagem, transmitida a todo o Brasil, de um clube e uma torcida coniventes com o avanço do fascismo no País. O aprofundamento do bolsonarismo foi um fantasma que observamos pela televisão, em rede nacional. Eao qual não pudemos permanecer imóveis. Em conjunto, tomamos a Avenida Paulista para combater os nazifascistas e reacionários que ali ganhavam tamanho e cumplicidade da polícia militar. Após a impotência e frustração de 2018,convertemos nossas forças em ação e desmobilizamos a força conservadora que tomava tranquilamente as ruas, ao menos por momento.

Nesse ínterim, Jair Bolsonaro, como era óbvio, não mostrou qualquer apreço ou reallealdade ao Palmeiras, declarando-se a diversos clubes e, inclusive, vestindo acamisa do nosso maior rival. Isso em nada nos abala, mas também não observamo sem comemoração. O fascismo deve ser combatido e extirpado em todos os níveis no futebol, assim como na sociedade. Recentemente, o inepto presidente se associou ao nosso rival na final da Copa Libertadores da América, o Santos FC.

Novamente entendemos como mais uma prática marketeira para tentar ampliar seu apoio popular. Em nova jogada do tipo, Bolsonaro agora pode comparecer à final da Libertadores, no Maracanã, no próximo dia 30 de janeiro, conforme se ventila.

De forma coerente a todos os nossos posicionamentos há anos, seremos resistência forte contra a presença de Jair Bolsonaro nesse jogo. Enquanto morrem milhares por dia de COVID-19 em nosso País, em meio a uma pandemia descontrolada e fomentada por seu discurso negacionista, o presidente busca novamente promover sua imagem se associando a dois dos mais tradicionais clubes do Brasil. Do nosso lado, garantimos que isso não encontrará eco. Não permitiremos que Bolsonaro novamente se escore em nossas glórias, e pior, suje-as com suas mãos cheias de sangue. Genocidas não são bem-vindos no Palmeiras. Sua figura não dialoga com nossas tradições e com nossos valores. Bolsonaro é a representação maior do que é ser anti-palmeirense. Por isso, não descansaremos enquanto sua persona permanecer associada ao clube que tanto amamos.

Manifesto dos torcedores do Santos Futebol Clube

Por Esquerda Santista

Ao Presidente do Santos Futebol Clube, digníssimo Sr Andrés Rueda Garcia.

O Santos Futebol Clube é possuidor das mais belas páginas do futebol brasileiro e Mundial.

Motivo de orgulho dos milhões de Santistas, espalhados por todos os continentes.

Nossa imagem é rica dentro e fora de campo, motivo de admiração e respeito.

Nossa camisa branca, símbolo da paz, já paralisou guerra, para que nações pudessem se encantar e respirar momentos de harmonia.

Em nosso país, a nossa torcida esteve presente nas mais justas lutas de nosso povo.

Participou da luta pela anistia ampla geral e irrestrita, bem como por eleições Diretas.

Nos mais diversos continentes somos admirados.

Mais uma vez estaremos diante de uma disputa com repercussão internacional.

No próximo dia 30 de janeiro, entraremos em Campo, para disputar a final da libertadores.

Está disputa ocorre no momento em que uma pandemia mundial atinge a todas as nações e povos.

Diante de evento de tão grande envergadura, queremos rechaçar qualquer tentativa do Sr Jair Bolsonaro , em utilizar nossa camisa e imagem, para de maneira oportunista fazer proselitismo político e fins demagógicos .

Sua imagem desastrosa não se coaduna com nossa história nem nossa camisa.

Não podemos permitir associar o Santos Futebol Clube, a um desgoverno genocida, que desrespeita a vida, que defende milícias, prega o ódio e as mais infames formas de discriminação, homofóbico, racista e distante de representar os valores e princípios humanos e civilizatórios , historicamente defendidos pelo clube.

Um desgoverno que desdenha a perda de mais de 215 mil brasileiros mortos pela Covid.

Que inerte assiste a destruição de nossa natureza e que colocou nosso país na condição de pária internacional.

Queremos que nosso Santos entre em campo com orgulho de nossa história e nossa camisa.

Sugerimos que nossos jogadores levem a campo, uma faixa em defesa da Vacina para todos os Brasileiros Já !

BOLSONARO NÃO, VACINA SIM !

GENOCIDA NÃO, VACINA SIM !

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4 comentários para "Libertadores: as torcidas repudiam Bolsonaro"

  1. Paulo disse:

    Sim, mas este movimento é muito incipiente. Infelizmente, a maior parte das torcidas continua APOIANDO e/ou não se posicionando.

  2. Arthur disse:

    Fiquei feliz com essa manifestação da torcida do Santos FC clube pelo qual torço desde criança. O Santos tem uma história rica em grandes feitos nacionais e internacionais e, além disso , muitos de seus torcedores têm participado das lutas por democracia e liberdade e, sendo assim, não pode de modo nenhum ter sua imagem usada por um facistóide e genocida a serviço de interesses dos poderosos. Fora Bozo, vacina já e estamos com o Santos sempre Santos.

  3. Cláudio disse:

    A maioria dos torcedores apoiam Bolsonaro..na verdade a esquerda faz um alarido enorme..so ver como os jogadores falam no Bolsonaro, e essa minoria torcida, não representa a maioria, que não se expõe. Mas continuam firme com o capitão. Obs: não sou politico e não tenho nada com nenhum partido politico.

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