As eleições e os cinco anos da Marcha das Mulheres Negras

Na véspera do 20 de Novembro, mais dois assassinatos brutais. Mas a luta antirracista persiste e se fortalece. Um sinal é o avanço das candidatas negras, em todo o país. Eleitas, elas irão muito além das “pautas identitárias”

Novembro de 2015: em mobilização histórica, 100 mil mulheres negras denunciam o racismo estrutural no Brasil. Em Brasília, 50 mil marcharam contra o patriarcado

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Pela ocupação, tomada de posse, destruição das estruturas racistas e sexistas e pelo Bem Viver!

Devido à pandemia da Covid-19, as Eleições 2020 calharam de acontecer no mês da Consciência Negra, em que também se comemora os cinco anos da Marcha de Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver. A manifestação, que mobilizou mais de 100 mil mulheres em todos os estados e levou cerca de 50 mil a Brasília, gritou contra o genocídio da juventude negra e o racismo estrutural. Desde então, diversos fatos terríveis mantiveram o debate sobre a violência racial no centro da pauta política do país. O assassinato de Luana Barbosa em 2016, da vereadora Marielle Franco em 2018, da menina Ágatha Félix em 2019, e do menino Miguel da Silva em 2020 são casos emblemáticos que, longe de serem isolados, e muito menos raros, revelam esse nosso triste, colonial e racista Brasil.

Amanhecemos o dia 20 de Novembro com o feminicídio de uma candidata negra, Leila Arruda (PT de Curralinho/PA), e o assassinato por espancamento de um homem negro em um supermercado Carrefour, em Porto Alegre, João Alberto Silveira Freitas. A semana também foi marcada pela nomeação de um dos acusados do assassinato de Cláudia Silva Ferreira a um cargo no governo do Rio de Janeiro. Parece difícil acreditar que o povo negro deste país dê conta de seguir em frente, mas seguem, e apesar de perder algumas batalhas, têm vencido muitas lutas e nos ensinam diariamente o significado da palavra resistência.

Em 2018, a reação ao assassinato de Marielle Franco impulsionou candidaturas “semente”: o número de mulheres que se autodeclararam pretas para todos os cargos aumentou 70% em relação a 2014. Do Rio de Janeiro veio a vitória esperançosa de três ex-assessoras de Marielle eleitas deputadas estaduais, e São Paulo elegeu Erika Malunguinho, mulher trans negra, para a Assembleia Legislativa.

O processo eleitoral de 2020 revelou a persistência deste plantio, com mais de 88 mil candidatas negras, campanhas feitas desde o território, das favelas e periferias, com propostas para o direito à cidade baseadas no marco do bem viver. apoiadas pelos movimentos sociais e por articulações locais que chamaram a atenção para a necessidade de mudar a cara dos espaços de poder, a exemplo da Campanha Quero Me Ver no Poder da Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político.

Foi emocionante acompanhar, com todas as contradições do campo da esquerda, as campanhas de Benedita da Silva (PT) – aos 78 anos! –, e sua vice, enfermeira Rejane (PCdoB); de Renata Souza (PSOL), no Rio de Janeiro; Major Denice (PT) em Salvador; Áurea Carolina (PSOL) em Belo Horizonte. Não levaram nas urnas, mas levaram no processo eleitoral, provocando a branquitude acostumada aos seus lugares de poder e privilégio, dentro e fora dos partidos. Sem falar nas milhares candidatas negras a vereança! Candidaturas que tiveram que conviver com os perigos da pandemia da Covid-19 – Áurea Carolina terminou a campanha testando positivo para o novo coronavírus –, e que trabalharam enquanto o racismo operou sem trégua, na violência política na internet, nos partido, e nas ruas.

A proporção de mulheres eleitas no primeiro turno foi de 15,7%, um aumento em relação ao primeiro turno de 2016, quando foram eleitas 13,4% de mulheres para todos os cargos. Muito aquém do necessário em termos de representatividade. As prefeituras serão chefiadas por mulheres em apenas 12,1% de municípios (659), e destas, 211 (32%) são mulheres negras (pretas + pardas). Das mais de 88 mil mulheres negras candidatas, apenas 4,54% (4.026) foram eleitas (3.510 pardas e 516 pretas). As jovens negras representaram 22.193 candidaturas a vereadora, 94 a prefeita e 266 a vice-prefeita, mas foram eleitas 735, 32 e 36, respectivamente. Das 328 candidaturas coletivas que identificamos registradas no TSE, 24 foram eleitas: destas, 16 têm como nome de urna uma mulher, e 5 de uma mulher negra.

Na mídia, falam em “avanço da pauta identitária” nas Eleições 2020, reduzindo de antemão a capacidade de fazer política dos novos quadros. As mulheres negras e trans eleitas irão travar debates sobre economia e direito à cidade, impactos da mineração, orçamento, enfrentamento à Covid-19 e muitas outras pautas. Serão mandatos alvo de violências de todos os tipos, dos colegas do executivo municipal e das câmaras legislativas, dos racistas de extrema direita e grupos de interesse contrários à agenda democrática, a exemplo dos milicianos. Mandatos que encontrarão municípios fragilizados pela volta do Teto de Gastos, a baixa arrecadação e o fim do auxílio emergencial.

A carta da marcha funciona como uma orientação, é assim que as mulheres negras generosamente nos ensinam. Hoje, é obrigatório que todas e todos que se dizem democratas, antirracistas, antifas, de esquerda, ou, no mínimo, progressistas, ler com atenção o Manifesto de cinco anos da Marcha das Mulheres Negras: pela ocupação, tomada de posse, destruição das estruturas racistas e sexistas e pelo Bem Viver!

Precisamos nos qualificar para a luta antirracista. O desafio é grande e urgente, e as alianças precisam responder à altura. Marchemos ao lado dessas corajosas mulheres que, desde sempre, resistem e colocam seus corpos na luta por um Brasil mais justo e menos violento.

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