⏯️ Para compreender em profundidade a China

Diego Pautasso, que estuda o país há 15 anos, sugere caminhos para enxergá-lo sem estereótipos. Uma pista: ele é muito mais complexo e contraditório do que supõem os que se informam pela máquina de propaganda ocidental

Entrevista a Antonio Martins

Toda a mídia ocidental falava da China, com avidez, no início de 2020. Quando a eclosão de uma epidemia de covid-19 atingiu a região de Wuhan e matou, em poucas semanas, 3,8 mil pessoas, os preconceitos vieram à tona. Então ainda vendem-se morcegos vivos, num país que se orgulha de sua modernidade? Por que morreu tanta gente? Os chineses vão provocar a desaceleração da economia global? Será necessário, para conter o alastramento da doença, impor um lock-down absoluto, por onze semanas?

Em pouco tempo, porém, o interesse se esvaiu. O lock-down terminou já em 8 de abril. Em toda a China, com 1,43 bilhão de habitantes, morreram de covid seis vezes menos pessoas (4634) que apenas em Nova York (24.136), embora a população seja 170 vezes maior. No início de junho, quando um pequeno surto ressurgiu em Wuhan, seus 11 milhões de habitantes foram testados, em apenas dez dias. E agora, quando o Ocidente vive um novo inferno de pré-colapso de hospitais e explosão de mortes, os chineses caminham tranquilamente por suas cidades e, já sem máscaras, fazem planos de futuro. À máquina de propaganda ocidental, cabe, portanto, relegá-los de novo à obscuridade.

Na última quinta-feira (10/11), Outras Palavras iniciou um esforço mais intenso de compreender em profundidade a China. Inaugura-o uma entrevista com o cientista político e geógrafo Diego Pautasso. Autor de China e Rússia no pós-Guerra Fria (Editora Juruá) e de dezenas de artigos sobre o antigo “Império do Centro”, Pautasso observa o país a partir de dois ângulos que nos interessam especialmente: o desafio à ordem geopolítica comandada por Washington e a busca de alternativas ao neoliberalismo.

Ao longo de uma hora, conversamos sobre o novo Plano Quinquenal que acaba de ser aprovado num encontro do Partido Comunista; a liderança de Xi Jinping e seu significado, no complexo jogo político do PCC; o pragmatismo chinês nas relações internacionais, que leva o país (ao contrário do que fazia a União Soviética no imediato pós-revolução) a desejar relações estáveis com governos conservadores e grandes corporações em todo o mundo.

Entraram também no diálogo a Nova Rota da Seda, por meio da qual Pequim utiliza seu imenso excedente econômico para lançar investimentos em todo o mundo, e expandir sua influência política. A busca, pela China, de uma nova arquitetura financeira global, livre da ditadura do dólar. O controle do sistema bancário pelo Estado e a adoção, há tempos, de políticas de emissão de moeda muito semelhantes às preconizadas pela Teoria Monetária Moderna. Os planos de substituição das energias fósseis e replantio de florestas originais. A aliança estratégica, no cenário internacional, com a Rússia.

Ao longo da entrevista, transpareceu algo que pode soar estranho, para o público acostumado com a visão estereotipada da mídia. Embora o sentido de sua ação internacional seja cada vez mais nítido (e, para alguns, desafiador), a China é extremamente complexa, heterogênea e contraditória. Nos 61 desde a vitória da revolução liderada por Mao Tse-tung, passou por fases de coletivização econômica radical; de liberalização profunda; de tentativas de síntese entre estas posições. A mesma complexidade mantém-se no presente. No próprio interior do Partido Comunista, convivem correntes neoliberais e uma instigante Nova
Esquerda, cujas reflexões vale a pena conhecer em mais profundidade no Ocidente.

A entrevista é, esperamos, o início de um diálogo mais amplo. Pautasso é uma estudioso e admirador de Domenico Losurdo. Por isso, algumas diferenças de perspectiva sobre o cenário internacional – e, nele, os possíveis papéis da China – ficam claros no diálogo. Não era o caso, evidentemente, de explorar, no tempo limitado da conversa, estas divergências. Tratava-se de ouvir Pautasso e resgatar suas importantíssimas contribuições.

É um prazer compartilhá-las com nossos leitores, no vídeo acima. E é, vale repetir, apenas o começo. A China entrará em nossa pauta de informação e reflexões com intensidade crescente, a partir de agora.

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