Franz Kafka: como sair do labirinto

Profeta da sociedade de controle, escritor tcheco mostrou como paranoias, neuroses e burocracia são usadas para antecipar condutas e dissuadir a ideia de um futuro sem capitalismo — intensificadas, hoje, por redes digitais e algoritmos

Por Renan Porto | Imagem: M.C. Escher

Num artigo recente sobre o esgotamento do mundo e as condições materiais de reflexão sobre mundos possíveis na filosofia contemporânea [1], Rafael Saldanha traça muito bem uma metamorfose da percepção do tempo desde o início da modernidade até os seus atuais pontos de tensão e torção, que ainda não se sabe bem o que pode virar, mas já se anuncia como esgotamento e cancelamento do futuro.

Essa metamorfose desemboca num futuro que se apresenta agora enquanto risco a ser administrado e minimizado em sua complexidade. A relação com o futuro se orienta pela securitização máxima do presente e tudo o que se apresenta como ameaça deve ser exterminado. Enquanto a forma de experienciar o presente por parte dos sujeitos se torna um constante cálculo de investimentos e probabilidades dos resultados que se pode ter a cada ato. Se um dia houve para alguns a abundância que permite a liberdade despojada e inconsequente, hoje há para muitos a escassez que exige maior cuidado a cada aposta.

É interessante observar como pensadores do mercado vem pensando isso e há tempos já traçam estratégias para lidar com essas transformações. No seu clássico livro sobre Gestão de Pessoas (2009), Idalberto Chiavenato tem como uma forte referência o livro do sociólogo espanhol Manuel Castells, A Sociedade em Rede: A era da informação (1996). Chiavenato descreve as formas de organização das empresas correspondentes a cada contexto histórico: organizações burocratizadas e hierarquizadas, com lideranças centralizadas, no contexto da era industrial e no modelo de produção fordista; organizações departamentalizadas, com decisões distribuídas por setores, no início das sociedades pós-fordistas; por fim, organizações descentralizadas, com decisões distribuídas, não mais orientadas por regras rígidas, mas orientadas a valorizar mais os resultados positivos que os meios para alcançá-los, o que depende mais da capacidade criativa e agilidade dos funcionários que de qualquer comando prévio.

Esse modelo de gestão visa corresponder a um contexto de incertezas, mudanças constantes e muita fluidez. Portanto, ele coloca como princípios de gestão valores como flexibilidade, tolerância com a ambiguidade, criatividade e inovação. Por outro lado, para os sujeitos que trabalham para essas empresas, quando há emprego, a vida precária diante da incerteza constante é insuportável e desencadeia uma série de problemas de saúde mental, aumentando os níveis de ansiedade, depressão, baixa autoestima, insegurança etc.

Todo esse contexto se conecta ao que Deleuze chamou de sociedades de controle [2], em que o poder é exercido como antecipação de condutas possíveis, estimadas a partir de probabilidade algorítmica e estatísticas extraídas das informações acumuladas em redes digitais e mecanismos de vigilância. O modelo de governo e condução das condutas nessas sociedades passa a fazer maior uso de ferramentas da cibernética. Uma ciência que se desenvolve nos anos 50 por autores como Norbert Wiener, William Ross Ashby, John von Neumann, Frank Rosenblatt, dentre outros. A cibernética tem com focos principais a comunicação, a informação, a organização e o controle. Com canais de comunicação potentes e imediatos fazendo circular torrentes de informações e dados, maior a capacidade de predição e controle dos sistemas e das trocas de informações entre eles; suas trocas de inputs – as informações que recebem e são processadas a partir de seus códigos internos, que os diferenciam do ambiente – e outputs, as decisões tomadas depois do processamento das informações recolhidas.

Parece até meio absurdo pensar como funciona uma rede social. Você cria um espaço para as pessoas se comunicarem, se expressarem, se conhecerem etc. A própria interatividade delas é o trabalho que produz informações, dados, afetos e sociabilidades que enriquece a rede de informações e a sustenta. É uma invenção realmente inteligente. Mas meio perversa: tudo isso que é produzido aqui é explorado estatisticamente para aperfeiçoar o aplicativo, seus mecanismos de reconhecimento, busca etc. O aprimoramento do learning machine depende da extração de dados [3]. Mas não só isso, a circulação de afetos, expressões e sociabilidades é explorada também para a elaboração de brandings, marcas, identidades, que produzem valor sobre as mercadorias. Este tipo de análise vem do que autores ligados ao operaísmo italiano chamaram de capitalismo cognitivo e trabalho imaterial [4].

Se não fosse pouco produzirmos tanto sem ganhar nada, toda essa carga de dados e informações que produzimos também é usada para aperfeiçoar o controle, monitoramento e vigilância sobre nós mesmos. Assim produzimos a polícia mais perversa possível na mesma medida que pensamos agir contra ela. Isso é o que o Nick Land chama de feedback positivo do capitalismo. Essa capacidade do sistema se auto-aprimorar absorvendo e aprendendo com as cargas negativas que ele mesmo suscita [5].

O uso de ferramentas cibernéticas como por exemplo as redes neurais, que são usadas para o reconhecimento facial em sistemas de vigilância, a gestão algorítmica, a extração de dados dos usuários da internet, dentre outras coisas, permite aos governos uma gestão social e política também baseada na fluidez, tentando dirimir a imprevisibilidade e os riscos. Essas transformações nas formas de governar, apesar do uso de ferramentas tão recentes, podem ser observadas do que pesquisas como as de Michel Foucault já vinham mostrando desde os anos 70. Em seu livro Vigiar e Punir (1975), Foucault mostra transformações nos modos de regulação social que não passam mais pela rigidez da norma, mas sim pela modulação dos processos sociais em sua própria instabilidade. Ele observa como o exercício do poder deixa de requerer o contato imediato com o corpo para discipliná-lo e passa agir como uma forma de investimento sobre as condutas possíveis, no que as subjetividades podem vir a ser, agindo positivamente na produção das formas subjetivas.

Além de todos os casos que o direito considera como excepcionais, como o uso explícito da violência pelo Estado para conter a entropia social, mas que constituem a normalidade das práticas do estado há muito tempo – como argumenta Denise Ferreira da Silva [6], o Estado precisa da violência para fazer valer a norma que em si mesma não tem eficácia alguma –, foram desenvolvidas nas últimas décadas um conjunto de práticas de governo que passam pelo uso de novas tecnologias de poder para gerir o corpo social em sua própria instabilidade.

Mas, curiosamente, Deleuze disse que o profeta das sociedades de controle era Franz Kafka, que escreveu nas décadas de 10 e 20 do século XX!

Percebo principalmente três traços na obra de Kafka que se conectam diretamente a essa discussão: 1) através das suas personagens, Kafka cartografa formas de subjetividades neuróticas, paranoicas e esquizofrênicas. Nas sociedades de controle, essas três características não são desvios ou meras patologias, mas formas de subjetivação que constituem a normalidade neoliberal. 2) É muito comum que as personagens de Kafka fiquem sempre pensando suas possíveis condutas e relações como se estivessem num jogo de xadrez, ou melhor, de go, em que não há regras tão bem definidas para orientar as condutas. O personagem K no romance O Castelo é um ótimo exemplo disso. 3) Principalmente nos seus romances, onde o funcionamento das instituições é investigado sob um ponto de vista literário, Kafka mostra também uma atividade esquizofrênica, involuntária e não intencional de personagens que escapam a todo momento do que são programados a realizar. O funcionamento das instituições não segue as regras jurídicas, mas se configura a partir dos hábitos que se formam nas relações cotidianas do trabalho, os pequenos desvios, adaptações e jogos de interesses.

No sexto capítulo de seu famoso livro Capitalist Realism (2009), Mark Fisher toma Kafka como referência para analisar o que chamou de “stalinismo de mercado”. Fisher diz que no mercado neoliberal a gritante ineficiência, baixa qualidade e disfuncionalidade das empresas deve ser a todo momento maquiada por uma aparência dura e exigente de eficiência, prestatividade, automatismo e rigor. Fisher destaca que essa presença de uma forma stalinista no mercado capitalista não seria um desvio do “verdadeiro espírito do capitalismo”, mas uma dimensão do stalinismo que foi inibida por causa de sua relação com um projeto social, que era o socialismo. Essa dimensão stalinista só pode emergir na cultura capitalista porque nela as imagens ganharam uma força autônoma. Por isso, diz Fisher, o valor gerado nas bolsas de valores depende mais das imagens performáticas da empresa do que o que ela realmente faz. Parodiando Marx, Fisher diz: “No capitalismo, tudo o que é solido se desmancha em relações públicas”.

No romance O Castelo, há uma situação em que K. vai ao escritório do prefeito saber sobre seu contrato enquanto agrimensor, função que ele nunca consegue desempenhar desde que chega na aldeia. A secretária do prefeito junto com os ajudantes de K. começam a revirar um armário de papéis, fazem uma bagunça na sala, nunca conseguem achar os documentos que lhe pedem para procurar, enquanto o prefeito faz um longo discurso sobre o profissionalismo, o rigor técnico e o cuidado dos funcionários do Castelo.

É muito comum encontrar na fortuna crítica de Kafka o comentário de que seus romances anteciparam as formas burocráticas que o Estado tomaria no século XX, que foram o stalinismo, nazismo e americanismo. Fisher comenta que Kafka consegue essa façanha por revelar uma dimensão do totalitarismo que não pode ser entendida apenas sob o modelo do comando despótico. Os intermináveis labirintos burocráticos que Kafka explora são carregados de uma certa semiótica do poder. Neles, a autoridade nunca se presentifica totalmente, mas tampouco deixa de interpelar cada situação. Há certos sinais que as personagens tentam intuir e perseguir, mas nunca levam a qualquer fonte da qual o poder emana. Fisher diz que Kafka intensifica essas situações de ambiguidade em relação ao poder.

Permitam-me uma longa citação do início do capítulo 5 d’O Castelo, onde o personagem K. vai encontrar o prefeito da aldeia e expõe bem a hipótese do parágrafo anterior:

“A relação direta com as autoridades não era, na verdade, difícil demais, pois as autoridades, por mais bem organizadas que fossem, sempre tinham de defender coisas remotas e invisíveis em nome de senhores remotos e invisíveis, ao passo que K. lutava o mais vivamente possível por coisas próximas, ou seja, por ele mesmo e, além disso, ao menos nos primeiros tempos, por vontade própria, uma vez que ele era o agressor, sem ser apenas ele que lutava por si, mas também, ao que parece, outras forças que não conhecia, mas nas quais podia crer a partir das medidas tomadas pelas autoridades. Mas por se mostrarem amplamente receptivas, em caráter prévio e em coisas menos essenciais — até agora não se tratara de nada mais que isso —, as autoridades o privavam da possibilidade de pequenas e fáceis vitórias e, com essa possibilidade, também da satisfação correspondente e da segurança bem fundada, que dela derivava, para outras lutas maiores. Em vez disso deixavam K. deslizar por toda parte que quisesse, se bem que apenas no interior da aldeia, minando-o e enfraquecendo-o com isso: aqui elas eliminavam qualquer luta que houvesse e desse modo o deslocavam para a vida extra-administrativa, totalmente sem transparência, turva, estranha”.

Em Kafka, a indecidibilidade parece estar impregnada no próprio corpo. Dou voltas e voltas numa cidade inteira e não saio do lugar. A atmosfera é claustrofóbica. Luto para me livrar dos mesmos rostos que me deixam saturados de exposição, mas nunca me livro da minha própria face. Quanto mais estou rodeado de personagens, mais impossível é a comunicação, como as garotas que rodeiam K. nas escadas do tribunal no romance O Processo. E quando a chance de tocar o que busco está diante de mim, sou incapaz de alcançá-la – como no Castelo, quando K. está prestes a ter acesso a Klamm, mas ele sempre lhe escapa.

Talvez essa doença seja a nossa e o vigor de Kafka seja fazê-la doer. Tenho a impressão de que Kafka é como um psicanalista que vai suscitando e apalpando sintomas e sofrimentos que nós temos encobertos. No Castelo ele me faz sentir que além de eu não conseguir realizar os meus ideais ascéticos, por mais que eu me esforce nunca vou chegar onde quero chegar. Quando na verdade o que quero nunca deixou de me rodear. O combate mais necessário, o ponto a se alcançar, é o que está mais próximo, mas parece inatingível.

A radicalidade com que Kafka demonstra um quadro no future em que nenhuma alternativa parece viável e tudo o que se tem como expectativa é um colapso final pode ser sintetizada nesse pequeno conto intitulado Pequena Fábula:

“’Ah’, disse o rato, ‘o mundo torna-se a cada dia mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra, que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para a qual eu corro.’ — ‘Você só precisa mudar de direção’, disse o gato e devorou-o”.

Foi Mark Fisher quem cunhou o termo “cancelamento do futuro” para caracterizar esse quadro temporal em que nos encontramos agora. O primeiro livro de Fisher, Capitalist Realism publicado em 2009, começa com o diagnóstico de que nos tornamos incapazes de imaginar um futuro radicalmente diferente do nosso presente. Essa incapacidade de imaginar qualquer alternativa possível é o que ele chamou de realismo capitalista. No último livro que estava preparando e não concluiu, Fisher elaborava o conceito de comunismo ácido [7]. Numa brincadeira semântica entre algo corrosivo e psicodélico, o comunismo ácido era não qualquer tipo de modelo já dado de sociedade, mas uma propulsão da imaginação para pensar o Fora do capitalismo. No livro anterior a esse, The Weird and the Eerie (2016) [8], Fisher explorava através de ficções científicas essa categoria do “weird”, do esquisito, como algo que era totalmente estranho aos nossos padrões empíricos.

A ideia de cancelamento do futuro é correlata ao conceito de realismo capitalista. A saída que ele estava tentando delinear para isso foi com o conceito de comunismo ácido. Mas o livro The Weird and the Eerie já vinha explorando essa trilha. O conceito de “eerie”, o insólito, tem a ver com o tipo de espectralidade com o que o poder passa a ser exercido nas sociedades de controle, produzindo realidades das quais se ausenta. Já o conceito de esquisito me parece ter uma relação muito mais direta com o comunismo ácido, pois indica uma irrupção de um Fora naquilo que nos é mais comum, tornando estranho o que é mais familiar – tal como o conceito de unheimlich do Freud, que já é usada pelo Fisher na sua tese de doutorado, Flatline Constructs (1999), mas que posteriormente ele irá diferenciar do conceito de weird na introdução do seu último livro. O esquisito parece querer intensificar essa irrupção do virtual no atual e possibilitar que consigamos enunciar e tornar atual o possível, ou seja, o futuro.

Por fim, concluo com duas citações…

A primeira é do Fisher no livro Capitalist Realism:

“A política emancipatória deve sempre destruir o semblante de uma ‘ordem natural’: deve revelar que aquilo que é apresentado como necessário e inevitável é uma mera contingência, assim como deve fazer o que antes era visto como impossível parecer possível”.

A outra, uma famosa frase de Kafka:

“A partir de certo ponto não há retorno. Esse é o ponto que é preciso alcançar”.

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Notas

1 – Esgotamento do mundo atual: as condições materiais da reflexão sobre mundos possíveis na filosofia continental contemporânea, por Rafael Saldanha, disponível em: https://periodicos.ufrn.br/principios/article/view/18078

2 – Gilles Deleuze, Post-scriptum sobre as sociedades de controle. In: Conversações. São Paulo: Editora 34, pp. 219-226.

3 – Sobre o uso da extração de dados para o aprimoramento de sistemas de inteligência artificial, ver o artigo Anatomy of an AI System, de Kate Crawford e Vladan Joler disponível em: https://anatomyof.ai/

4Matteo Pasquinelli tem um bom artigo sobre produção de valor nesse sentido, que se intitula Capitalismo maquínico e mais-valia de rede e está publicado na revista Lugar Comum, nº 39, disponível em: http://uninomade.net/lugarcomum/39/

5 – Para uma introdução ao debate aceleranionista passando por autores como Nick Land, Mark Fisher, Nick Srnicek e Alex Williams, etc, ver meu artigo Ciborgues sonham com britadeiras?, publicado na revista Lugar Comum nº 50, disponível em: http://uninomade.net/lugarcomum/50/

6 – Denise Ferreira da Silva, Ninguém: direito, racialidade e violência, disponível em: http://www.fumec.br/revistas/meritum/article/view/2492

7 – Para um comentário sobre o conceito de comunismo ácido, ver o ensaio de Matt Colquhon, que em seu mestrado pesquisou sobre a obra de Fisher: https://babilepton.wordpress.com/2018/08/25/comunismo-acido/

8 – Escrevi um ensaio sobre o livro The Weird and the Eerie, que está disponível aqui: https://txtmagazine.com.br/leituras-xenologas-xenofilia-abstrata-ou-isto-nao-me-e-estranho-por-renan-porto/

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