Atualismo: assim percebemos o tempo no século XXI

Teoria da História afirma que a sociedade deixou de se organizar em torno da noção de futuro ou progresso — e hoje se percebe em um presente contínuo. Capitalismo nos venderia eterna busca por atualizações e temor à obsolescência

Meu nome é Valdei Araújo, sou professor do departamento de História da Universidade Federal de Ouro Preto. Atuo na área de Teoria e História da Historiografia e esse curto vídeo tem o objetivo de apresentar para vocês, de maneira simples, os argumentos principais desse nosso livro chamado Atualismo: como a ideia de atualização mudou o século XXI. Já está na segunda edição, pela editora Mil Fontes e a editora da Sociedade Brasileira de Teoria e História da Historiografia. 

O argumento do livro nasceu em torno de um debate muito forte que existe no campo de Teoria da História: a natureza do tempo presente. Uma das hipóteses mais fortes é que desde os anos 1960, 1970, a temporalidade que nós vivemos deixou se organizar em torno do futuro, da ideia de progresso, de um otimismo em relação ao progresso, de uma vontade de acelerar em direção ao progresso, para uma situação em que alguns autores chamam de presente lento e outros chamam de presentismo. Um certo colapso desse otimismo em relação ao futuro teria nos levado a ficar aprisionados no presente. Alguns autores enfatizam um presente mais autocentrado, outros enfatizam um presente que se alarga em relação ao passado — isso explicaria o interesse constante das sociedades pela História, mesmo sem a perspectiva de uma compreensão processual, evolutiva, progressiva. Haveria um interesse existencial, uma curiosidade ampla em relação ao passado. Mas o que permanece mais ou menos imóvel nesses argumentos é que o futuro seria marcado por uma interdição, estaria encurtado, bloqueado, opaco.

Nosso argumento, dentro desse debate, surgiu quando fomos buscar a origem e uso da palavra em inglês “update”, que a gente traduz como “atualização”. Para nossa surpresa, embora hoje seja um termo que perpassa todo o nosso cotidiano, quando pesquisamos em diversas bases de dados disponíveis, descobrimos que, mesmo tendo existido no dicionário há mais tempo, só ganha uma importância no vocabulário social, no cotidiano, a partir dos anos 1960. Em todas as línguas pesquisadas — espanhol, francês, inglês e português. E desde então tem ganhado mais importância.

Naturalmente, começamos a pensar sobre a palavra a partir da experiência com o celular, ao atualizar os programas, ser convidado a marcar aquele botãozinho de atualização automática. A partir da experiência com o facebook, com o whatsapp. Boa parte do livro, que eu desenvolvi com o professor Mateus Pereira, aconteceu via whatsapp, durante viagens, em 2015. A gente estava muito envolvido com o livro, e ambos estávamos no whatsapp, então uma parte do argumento se deu ali naquelas atualizações de mensagem. 

Juntamos essas duas percepções: a primeira, da reflexão contemporânea dos autores que tentam apontar essa mudança na experiência do tempo; e a segunda, a partir da pesquisa da palavra “update”, que tem um crescimento que talvez justificasse tomá-la como um sintoma dessas transformações contemporâneas do tempo. A partir daí, o argumento se divide em dois grandes blocos: o primeiro aponta para o surgimento de um conceito histórico-social, ou seja, de uma palavra que parece reunir uma parte da experiência contemporânea do tempo, a palavra “atualização”. E uma outra categoria que nós criamos, embora já exista como neologismo em inglês, a palavra “updatism”, que traduzimos para o português como “atualismo”, para caracterizar essa ideologia do tempo que se organiza em torno dos fenômenos da atualização. Principalmente certa percepção de que todos nós somos obrigados a constantemente nos atualizar, e que esse processo de atualização continuada, diferentemente da noção clássica de progresso, pode ser de algum modo terceirizado, entregue a sistemas automatizados. 

Então, se há uma dimensão utópica na experiência contemporânea do tempo (imagino que naturalmente toda utopia flerta com uma distopia), seria a ideia de que você concordaria com algum aplicativo quando ele te pergunta se você quer ou não que as atualizações se deem automaticamente, e deixaria de se preocupar com essa questão obsessiva desde a modernidade no século XIX: a obsolescência, o risco que todos corremos de, vivendo numa sociedade de constante transformação, ficar para trás, ficar desatualizado, nos tornarmos obsoletos. O atualismo, de algum modo, é a promessa de que, uma vez que você compre os serviços, sempre estará atualizado. Mas, ao mesmo tempo, você abre mão de como essa atualização vai acontecer. Porque na modernidade, a atualização é uma decisão do sujeito histórico, que decide que parte do passado merece ser atualizada e projetada em relação ao futuro, e que parte é obsoleta e merece ser esquecida. No Atualismo, essa decisão é entregue ao sistema informatizado, às estruturas sociais de produção e de atualização. 

Esse é o argumento básico do livro. Ele se desenvolve em alguns capítulos. Alguns são mais teóricos, outros mais analíticos. Analisamos autores do século XIX, algumas séries de TV como “Black Mirror”, para entender como o fenômeno do atualismo aparece na cultura popular. Analisamos, como um caso teste, o ano de 1970 no Brasil, como a palavra “atualização” era utilizada nos jornais, e acabamos fotografando um momento no qual essa palavra se torna um conceito histórico-social.

Fica o convite à leitura.

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Um comentario para "Atualismo: assim percebemos o tempo no século XXI"

  1. Terezinha Claudio disse:

    Outras Palavras…grandiosa contribuicao para nosso processo de CONHECIMENTO, gratidao imensa, vamos viralisar…parabens pela initiative!

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