Está surgindo uma nova geração anticapitalista?

Nos EUA, eles aderiram ao Black Lives Matter e à campanha radical de Sanders. No Chile, Equador e Peru, insurgiram-se contra o neoliberalismo. Agora, na Europa, pesquisa revela: os muito jovens querem outra ordem econômica e política

Londres, 20/5./21 Surpreendendo os próprios organizadores, cem mil pessas — a grande maioria, muito jovem — protestam contra a matança de Israel na Palestina. Em meio à pandemia, diz Paul Mason, está surgindo a consciência de que o sistema político e econômico das elites está falido e precisa ser enterrado

Por Paul Mason, no The Guardian | Tradução: Simone Paz

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Este texto do escritor, jornalista e documentarista Paul Mason baseia-se numa pesquisa sobre a percepção política da “geração do milênio”, realizada em 30 países europeus após o choque da pandemia de covid-19. Um relato mais detalhado dos resultuados pode ser lido (em inglẽs) aqui. Alguns dos depoimentos mais representativos das opiniões dos entrevistados estão aqui.

Eles passaram por provas, testes, julgamentos e avaliações desde crianças; disseram-lhes que precisavam se destacar, competir e ter sucesso. Mas, por causa da covid-19, toda uma geração de estudantes que deixou a escola e a faculdade enfrenta um presente sombrio e um futuro incerto na Europa.

Quando o The Guardian perguntou aos jovens europeus — entre a adolescência e os pouco mais de vinte anos — como a pandemia fazia-os se sentirem, era de se esperar um excesso de frustração: empregos perdidos, amizades distanciadas à força, encontros amorosos cancelados. Mas o que surgiu foi uma crítica ao capitalismo.

Assim como seus predecessores nos levantes que se seguiram à crise de 2008, esta geração de jovens está pronta para tirar conclusões sistêmicas da maneira como as elites políticas administraram a pandemia. Eles sabem que pagarão impostos mais altos e que vão carregar dívidas pessoais maiores, além de enfrentar mais incertezas do que qualquer outra geração desde a Segunda Guerra Mundial.

Eles sabem que, para além das consequências da pandemia, terão de lidar com uma emergência climática no futuro próximo. E estão igualmente certos no fato de que não conseguem influenciar o presente político.

Tudo isto, como provavelmente veremos com a chegada do verão [do hemisfério Norte], é uma mistura explosiva. De Dublin a Cardiff, de Barcelona a Berlim, os jovens vêm respondendo à flexibilização das restrições ao bloqueio com festas imodestas, raves eletrônicas, invasões repentinas de praias, reuniões instantâneas nos clubes do bairro de diversas cidades. Onde quer que haja protestos políticos — como as duas manifestações pró-Palestina em Londres no mês passado — eles aparecem em grupos grandes, desafiadores e com muita voz.

Mas, como mostram os testemunhos, por trás dessa libertação existe uma profunda frustração. Porque, embora os mais velhos tenham suportado principalmente os riscos para a saúde física que a covid acarreta, os jovens tiveram de suportar os riscos à saúde mental. “O ano passado é como um palco de madeira que se quebrou bem ao centro, onde caí”, responde um dos entrevistados. Outro, conta que experimentou algo equivalente a uma “crise de meia-idade” aos 22 anos. A raiva e o desespero são evidentes, mas a conclusão política que muitos tiraram também é escancarada: que a sociedade é governada pelos mais velhos, e para os mais velhos.

Os jovens foram obrigados a interromper suas vidas para proteger uma geração que já viveu a dela. Se isso tivesse sido acompanhado por dinheiro, apoio e, acima de tudo, algum gesto de simpatia pela visão e cultura socialmente liberal dos menores de 24 anos, o baque poderia ter sido mais suave. Ao invés disso, eles viram suas opiniões e estilos de vida serem ridicularizados como “rebeldes” e os políticos de todos os lados prestando-se a agradar o conservadorismo social e a atender às necessidades materiais dos proprietários de imóveis, empresários e daqueles que já tinham uma carreira estável.

A geração Z já sabia que seria mais pobre do que seus pais: seus irmãos do fim do milênio já haviam aprendido essa lição após a crise de 2008. Mas o futuro, por mais sombrio que parecesse à geração que ocupou as praças em 2011, pelo menos parecia prometer uma luta certa: contra o racismo, o sexismo, a austeridade e o negacionismo climático.

Nos testemunhos, da pesquisa o centro é a incerteza. Como disse um dos entrevistados, eles estão prontos para acreditar que “o mundo pode acabar amanhã”; que a civilização pode entrar em colapso; que o sistema atual “se segura com fita adesiva e palitinhos”; que o presente é tão “imprevisível quanto monótono”.

E eles estão certos. Se comparados com os enormes riscos que enfrentamos, proporcionalmente, os esforços mundiais pela mitigação da crise climática parecem uma piada. O subtexto implícito da conferência do clima deste ano, a Cop26, é nítido para os jovens: “nós, a geração de proprietários de SUVs e que veste ternos, daremos o nosso melhor, mas dentro dos limites que as grandes empresas possam tolerar e do que os eleitores idosos possam aceitar. Estamos preparados para falhar porque não estaremos vivos na hora de viver as consequências”.

Quanto à redução do risco de novas pandemias, na maioria dos países de onde vieram as respostas, os jovens tendem a ver as ações dos governantes como incompetentes, míopes ou corruptas.

Ao olharmos para trás, todo o ciclo político desde 2008 pode ser compreendido como uma resposta à crise financeira. Na época, os jovens de dezoito anos viram seu futuro cancelado. Eles tomaram as ruas, foram atingidos por canhões de água e, em resposta, envolveram-se em movimentos políticos como o Podemos, o Syriza, o Corbynismo e a campanha de Bernie Sanders.

O choque da covid é, em muitos aspectos, maior do que o choque de 2008. Ele revelou a uma geração inteira que, quando a sujeira entra no ventilador, ninguém irá ajudá-los, e que — graças ao envelhecimento demográfico — a política estará contra eles.

Portanto, a questão é: como esses jovens reagem? Eles farão festas em todo lugar — e também protestos e distúrbios em outros lugares. E eles vão buscar alternativas políticas.

Se eu tivesse que prever para onde tudo isso vai caminhar, não apostaria na tendência em direção ao anarquismo do movimento antiglobalização inicial, mas num tipo de “bolchevismo climático” como o defendido pelo ecologista sueco Andreas Malm.

Malm diz que a social-democracia não tem uma teoria da catástrofe: o mesmo poderia ser dito do liberalismo e das políticas ecológicas mainstream. Elas não foram projetadas para ações rápidas e urgentes. Sua substituição deve ser radical, centralista e impiedosa.

Esta geração tem uma teoria da catástrofe. Eles viram como o poder centralizado pode ser exercido com eficácia; com que rapidez a injustiça pode ser feita; quão vazias são as reivindicações de legitimidade de um governo que não consegue organizar um lockdown ou uma campanha de vacinação. Se eles descobrirem um novo projeto coletivo, duvido que este seja gradual, ou que suas ambições sejam pequenas.

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