Sobre aliens, fascismo e o Cthulhu à brasileira

Por décadas, foi semeado no imaginário popular que a dominação e a barbárie viriam dos céus, com naves e monstros espaciais, como o imaginado por Lovecraft. Mas a ameaça real é terrena; tem rosto e nome — e, por isso, pode ser derrotada

Desde os primórdios o ser humano tem interesse e medo em sua relação com o “outro”, o que vem mudando com o tempo é a definição do outro e como nós lidamos com esse medo natural do desconhecido. Bom pontuar que, inclusive, a palavra alien significa “do outro” em latim – ou seja, a outridade está presente na própria etimologia do termo. Mas passando propriamente para o medo do outro, podemos começar a investigação.

Vê-se, com certo grau de clareza, que a alteridade (ou “outridade”) acaba por ser essencial à constituição de quem nós somos, uma vez que a noção de limite é crucial para a própria definição do ente. Ou seja, partindo desse pressuposto o “outro” ou os “outros”, querendo ou não, sempre estiveram presentes conosco, nem que meramente dentro de uma perspectiva filosófico-ontológica. Por que, então, essa pulsão negativa que vemos quase que diariamente contra aquilo que vem de fora, ainda que em nosso favor? Cito, como exemplo mais óbvio, as vacinas – incontestavelmente, pelo menos na comunidade científica, importantes na prevenção da pandemia que já ceifou a vida de mais de 465 mil vidas brasileiras. É possível que esse medo do que é estrangeiro dite os rumos de nossas vidas, mesmo quando racionalmente sabemos que estamos tomando decisões baseadas em ainda mais que preconceitos e vieses?

Explico melhor. O ser humano possui basicamente dois modos de processamento das informações, como bem exposto por Kahneman em seu livro Rápido e devagar. De forma extremamente resumida, podemos dizer que para decisões cotidianas, de menor importância em tese, o ser humano desenvolve uma heurística própria – acionando esse modo rápido de pensamento – o que nos leva a fazer uso dos nossos medos e preconceitos para diminuir o tempo e a energia na tomada de decisões. Esse modo de pensamento se contrapõe a outro, bem mais vagaroso, esse calcado na racionalidade e no pensar taciturno propriamente ditos.

Certo, e o que isso tem a ver com os fascistas? Bom, chegaremos lá.

Antes, permita-me o retorno aos aliens em sentido estrito de ficção científica, e não lato como venho fazendo até agora no texto. Abordemos então o temível Cthulhu (pronuncia-se, na medida do que a voz humana consegue – pois o próprio Lovecraft confessou ter criado um nome impronunciável – “Khlûl’-hloo”), criado pela mente do gênio de ficção científica H.P. Lovecraft na década de 1928, mas que de tão importante ainda remanesce no imaginário quase um século depois.

Cthulhu tem cabeça de polvo, pode voar com suas asas de morcego e tem garras nas extremidades de seus membros, isso para não falar em suas proporções gigantescas. É dito que o mero olhar de relance pode fazer um ser humano perder a sanidade devido ao grau de malignidade que é exalado do conjunto da obra.

Qualquer pessoa em pleno gozo de suas faculdades mentais me confirmaria que a chance de um ataque do temível morcegão-polvo com garras é mínima, no entanto, o fato de suas histórias ainda assustarem muitos indivíduos, mesmo nos tempos atuais, nos mostra que ainda há uma certa bruma que revolve o tema e que deixa a possibilidade da existência da entidade alienígena em aberto. De outro lado, os fascistas estão aí, dia após dia, no comando de nossas instituições, nos governando diuturnamente com sua agenda de necropolítica que faria até mesmo o criador do termo (o camaronês Achile Mbembe) corar devido ao tamanho das atrocidades que são perpetradas em terrae brasilis.

Acredito que o leitor mais atento já tenha entendido onde quero chegar com o texto. Falo agora com o leitor mais disperso mesmo, que deve estar a se perguntar o que essa criatura medonha descrita (Cthulhu) tem a ver com os fascistas atuais tirando o fato de espalhar terror e morte. Explico, leitor. Por séculos o ser humano mostrou seu pavor por seres extraterrestres, imaginando que estes viriam ao planeta para dominar-nos e subjugar-nos. A pergunta que faço é: já não fazemos isso? Ou melhor, os fascistas já não nos degradam a cada dia, brincando com as nossas vidas como se fossem apenas uma estatística, pedindo para “olharmos o lado bom” dos recuperados, como se as vidas dos que se foram, devido decerto à doença, mas também por culpa das ações desassisadas e omissões grotescas do governo atual, não valessem nada?

Aliás, e correndo o risco de extrapolar o tema específico deste artigo, já não nos subjugamos a nós mesmos? Claro, de forma sofisticada e avançada, pois, como diria Byung Chul-Han, vivemos dentro do paradoxo da liberdade: somos mais livres do que nunca, mas usamos o nosso tempo livre para nos autoexplorarmos – como já pontuei nesse texto sobre salário emocional. Ou seja, esse contexto de dominação já ocorre, até mesmo a nível interno, nos dias de hoje – então por que temos medo do alien?

Veja-se, os fascistas são mais perigosos que os próprios aliens na medida em que os fascistas já tentam nos dominar e acabam por conseguir às vezes. Com efeito, desde a ascensão do governo do genocida presidente Bolsonaro temos uma situação em que os direitos fundamentais são violados diariamente, a ideologia que prega a anti-ideologia (como se tal façanha fosse possível) saiu das salas enclausuradas e tomou a grande mídia, a Amazônia dá seu último e dolorido respiro, as minorias lutam para tentar manter um mínimo de existência digna e não conseguem e assistimos ao genocídio indígena patrocinado pelas instituições formais e sua desídia calculada, isso tudo para não falar da montanha de mortos advindos da desastrosa gestão da pandemia do coronavírus.

Ou seja, devemos de fato temer o quase impronunciável Cthulhu? Será que já não temos o nosso Cthulhu “à brasileira” – sentado sem fazer nada na cadeira principal no Palácio do Planalto ou brincando de motoca no Rio de Janeiro enquanto os índices de covid não param de subir?

Ainda nessa linha de cultura pop e política, vale citar trecho da música Uprising (tradução livre: Levante) da banda britânica Muse, que, em um clipe que evoca a ideia de uma invasão alienígena, sugere que a única solução é o protesto popular:

“They will not force us
And they will stop degrading us
And they will not control us
We will be victorious, so come on”

(Eles não vão nos forçar
E eles vão parar de nos degradar
E eles não vão nos controlar
Nós seremos vitoriosos, então vamos [à luta])

Aliás, o álbum inteiro do qual essa música foi extraída The Resistance (“A Resistência”) pode ser inserido, de alguma forma, na ideia de contexto de um mundo distópico, sendo certo que muitos entendem que a banda faz referências explícitas à obra orwelliana, mais precipuamente o livro 1984. No mais, o que pode se ver da música escolhida, é que ela narra um protesto mesmo, a ideia de não deixar as coisas do jeito que estão e de lutar pelos direitos, uma vez que estes são conquistados e não dados.

Seguindo a linha do quanto exposto pela banda Muse, e mesmo com um vírus mortal à solta, o povo decidiu não se calar e ir às ruas protestar por seus direitos, pedindo por vacinas e pela saída do genocida do governo. A adesão foi massiva, com milhões de pessoas indo às ruas por todo o Brasil, com um uníssono tácito comum: o presidente é mais perigoso que o vírus.

Enquanto isso, a mídia tradicional, mesmo com o levante da população, segue noticiando acontecimentos menores, em detrimento da manifestação popular havida em plena pandemia para tentar de alguma forma resistir ao ataque aos direitos fundamentais que acontece diariamente, como bem exposto aqui. Não por outro motivo esse texto é veiculado na chamada mídia alternativa, uma vez que não há espaço para reflexão fora do script na mídia tradicional.

Atualmente morrem mais de mil pessoas por dia no Brasil (há quase quatro meses seguidos) e vemos os governantes, inclusive aqueles que se dizem pautados pela ciência, falar em flexibilização. Do estábulo, notícias de que a Copa América será sediada no Brasil são anunciadas com a euforia que somente os asininos podem ter em tempos como os de hoje.

Lovecraft pensou no alien com nome impronunciável e que cometia atrocidades pronunciáveis. No Brasil sabemos soletrar o nome de nosso monstro com certa facilidade, mas suas atrocidades são tantas e tão graves que não conseguem ser nominadas e pronunciadas em sua inteireza.

Cthulhu não faria tanto.

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