O poço fundo das eleições 2018

A tendência é passarmos outros anos calcados no ódio, no flerte com golpes, na burrice enraizada e na proposta fascista surfando na onda da oposição ao governo

A tendência é passarmos outros anos calcados no ódio, no flerte com golpes, na burrice enraizada e na proposta fascista surfando na onda da oposição ao governo

Por Roberto Andrés

Até onde a vista alcança, o futuro é um poço fundo cheio de alçapões, tipo aquelas bonecas russas: segundo turno polarizado com metade do país no colo de um defensor de ditaduras.

Resolvi dar uma olhada para trás, relembrar como chegamos até aqui. Como não achei os dados filtrados assim, criei uma planilha com a intenção de voto no primeiro turno em Bolsonaro, Ciro, Lula, Marina e Aécio/Alckmin, além da rejeição do governo, desde 2015. Tudo pelo Datafolha, para ficar com um instituto só e evitar diferenças metodológicas.

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Em dezembro de 2015, Eduardo Cunha tinha acabado de dar prosseguimento a um pedido de impeachment de Dilma Rousseff. Bolsonaro tinha 3% de intenções de votos, em 5º lugar nas pesquisas. Aécio liderava, com 26%. Lula e Marina empatados com 19%. A reprovação do governo Dilma era enorme: 65%.

Abatido sucessivamente pela Lava Jato, Aécio seguiu em queda livre até maio de 2017, quando foi degolado de vez pela divulgação de conversas delinquentes com Joesley Batista. Alckmin passou então a ser o presidenciável, mas nunca cresceu. Foi nesse vácuo de um PSDB alvejado por denúncias de corrupção que cresceu um certo ex-capitão do exército. Talvez seja preciso olhar para o eleitor do Bolso por essa chave: a pessoa que vestia camiseta “A culpa não é minha, votei no Aécio” e que depois viu seus heróis desmoronarem chafurdados na mesma lama em que estariam “os outros”.

É de ressentimento que estamos falando, visto que esse eleitor não deixou de odiar o PT, mas se sentiu traído pela opção na qual tinha apostado. E decidiu partir pra uma solução mais radical, ainda que obviamente não menos corrupta (a nova decepção é questão de tempo, mas aí talvez as eleições já não sejam mais como conhecemos).

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Em março de 2016, às vésperas da votação do impeachment, Lula atinge seu piso, 17%. O governo Dilma batia recorde de reprovação, 69%. Marina liderava com 21%. Nesse sentido, o golpe parlamentar executado pela velha direita brasileira foi o grande turbinador eleitoral de Lula e do PT. Mesmo economistas de esquerda reconhecem que o governo Dilma1 foi um desastre na economia e que os ajustes do governo Dilma2 não levariam a um lugar melhor do que o que estamos.

Colocado como vítima de uma conspiração, e frente a um governo corrupto e uma economia patinando, Lula viu suas intenções de voto subirem mês a mês desde então. A prisão do ex-presidente, a partir de um processo frágil e desproporcional aos que sofrem outros políticos, fortaleceu ainda mais esse lugar.

É preciso reconhecer que a campanha do PT soube explorar com maestria essa situação, fazendo de um sujeito atrás das grades uma cachoeira de votos. Assim foi possível se criar uma narrativa em que o Brasil triste de hoje teria surgido a partir de 2016 e o Brasil feliz de novo remeteria aos tempos de boa economia de 2010, como se os anos de 2014 e 2015 em que o país passou por uma das maiores recessões de sua história não tivessem existido.

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A curva de crescimento de Bolsonaro segue a de Lula, naquela lógica de que os polos se fortalecem.

Marina Silva, que liderava em 2016, ficou esmagada e não soube se posicionar. Apoiou o impeachment – que era então aprovado pela maioria da população. Talvez por ressentimento com a campanha violenta que sofreu do PT em 2014; talvez por achar que poderia ter ganho político. O fato é que acabou ferida de morte entre o eleitorado progressista de classe média, restando para ela o eleitorado popular que agora migra em massa para o indicado de Lula.

Ciro Gomes veio estável nesse tempo todo, sempre com 4 a 7% de votos. Seu crescimento recente tem a ver com a boa campanha que vem fazendo, mas talvez não se sustente quando Haddad for se tornando mais conhecido (o que está sendo muito mais rápido do que se previa) e com as próprias trapalhadas de Ciro, que tem gosto em morrer pela boca.

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O PT é o único partido grande de fato no Brasil, com militância engajada, capilaridade, e se há poucos anos ele estava em declínio, a parlamentada de 2016 e a prisão do ex-presidente contribuíram para coesionar o partido de uma maneira que ninguém apostaria. Com o crescimento do petismo, avança também o antipetismo, e hoje o ocaso do PSDB deixou essa metade da população entregue a pessoas que falam abertamente em autogolpe, nova Constituição feita pelos amigos, em metralhar adversários.

Não parece haver nenhuma alternativa de terceira via com chances de chegar ao segundo turno. Se a vida já não era fácil para Marina em 2010 e 2014, quando disputava sozinha a segunda vaga, agora que essa disputa se dá entre três candidatos competitivos, a labuta é no limite do impossível.

Marina e Ciro precisariam estar juntos e com muito mais musculatura para fazer frente ao cenário de extrema polarização que vem aí. Não aconteceu, infelizmente – porque a possibilidade de uma terceira via faria muito bem ao país. Despolarizar ajuda a pensar e focar nos verdadeiros problemas (que são muitos e graves) que assolam o povo brasileiro.

A abertura do próximo alçapão indica que teremos uma eleição mais polarizada e mais violenta do que em 2014, com risco de eleger aqueles que podem fazer com que fiquemos algumas décadas sem conhecer eleições, liberdade individual, posts como este no facebook. Mesmo que isso não aconteça, a tendência é passarmos outros anos calcados no ódio, no flerte com golpes, na burrice enraizada e na proposta fascista surfando na onda da oposição ao governo.

 

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5 comentários para "O poço fundo das eleições 2018"

  1. Gustavo Horta disse:

    UNS VOTARÃO, EU VOLTAREI!
    Tá facinho, “FACIM” DEMAIS!
    13 – PT, 29 – PCO e 65 – PCdoB
    DE CABO A RABO – para DEPUTADOS ESTADUAL e FEDERAL, SENADORES, GOVERNADOR e PRESIDENTE DA REPÚBLICA!
    Tá facinho , “FACIM” DEMAIS!

  2. Ricardo Cavalcanti-Schiel disse:

    Eleitoralmente falando…
    …e para ficar no universo dos “dados” a que recorre nosso articulista, o Datafolha divulgou às zero horas de hoje (20/09) uma pesquisa estratificada extremamente detalhada, com projeções para um segundo turno eleitoral.
    A primeira nota significativa é que Haddad e Bolsonaro estão empatados nessa projeção, em 41%.
    A segunda nota é que Ciro bateria tanto Bolsonaro quanto Haddad no segundo turno, tanto no geral como em todos os estratos sociais (renda, escolarização, faixa etária etc).
    O que a confrontação hipotética entre Ciro e Haddad (com vantagem de 8 pontos percentuais para o primeiro) demonstra não é tão simples, formal e abstratamente a projeção de uma “reação eleitoral” ao campo progressista.
    O que ela demonstra é que o anti-petismo é suficientemente consistente para fazer Ciro tornar-se o aglutinador do voto conservador, em uma reação “útil” contra a candidatura petista.
    Por outro lado, Ciro bate Bolsonaro com 6 pontos percentuais de diferença. Sua candidatura é mais aglutinadora que a de Haddad, que se torna, assim, a mais polarizadora.
    Uma vez que a candidatura Bolsonaro é altamente tóxica e vai gerar uma polarização extremamente radicalizada no segundo turno (do tipo civilização x barbárie) — uma radicalização exponencializada daquela de 89, uma radicalização que vai colocar o campo conservador num beco moral de deslegitimação pela sua própria caricatura –, a conclusão a que se poderia chegar é que uma “saída honrosa” para os setores conservadores mais ilustrados seria a de abandonar celeremente o barco tanto de Bolsonaro quanto de Alckmin, e apostar todas as suas fichas em Ciro.
    O PDT sempre esteve aí para isso mesmo. A história desse partido o demonstra, antes que o PSB o copiasse. Acontece que Ciro não domina, nem de longe, as manhas e artimanhas do velho Brizola, o que tornaria uma eventual vitória eleitoral de Ciro o começo de mais um longo sequestro político com refém: o próprio Ciro.
    Por outro lado, parte do setor conservador pode também apostar na máxima radicalização (i.e, insistir na alternativa Bolsonaro), promovendo a sedimentação de uma militância fundamentalista para a direita, algo que ela nunca teve em grande escala, pois militância sempre foi uma espécie de capital cativo dos setores mais à esquerda. É uma alternativa.
    Na alternativa restante (a ascensão irresistível de Hadad), o horizonte político que se avizinha parece ser apenas o de um lulismo sem Lula, ou seja, apenas mais do mesmo, já que o PT há muitos anos renunciou ao trabalho político de mobilizar a partir de baixo, o que o torna refém da velha política e dos atavismos palacianos. Foi isso que propiciou o golpe e o afastamento de Dilma: os setores progressistas, por falta de trabalho político, não conseguem eleger maiorias legislativas. O PT perdeu a grande oportunidade.
    O que resta para os próximos 20 anos é apenas o horizonte de governos reféns do campo conservador, quaisquer que sejam eles.

  3. Cosette disse:

    Haddad 13 Lindbergh 131 Márcia Tiburi 13 Wadih Damous 1322 Gilberto Palmares 13455
    A classe média é muito afetada com os ataques ao PT e agora busca uma terceira via. Mas o povão vai de 13!

  4. eduardo teixeira disse:

    O cenario politico brasileiro sempre esteve dominado pela direita . Mais abertamente ou menos. Pela sua natureza de formaçao colonial fortemente controlada pela metropole e grande diversidade cultural de seu povo de dificil unificação. Os movimentos da chamada esquerda aconteceram sempre sobre forte repressão sendo suprimidos assim que se tornavam ameaçadores. Uma elite dominante oligopolizada ligada umbilicalmente aos interesses da metropole se imcunbia disto fortemente instrumentalizada para a tarefa.. O trabalhismo trouxe um vigor aos movimentos sociais nacionalistas pela extinção da esravidão e de suas formas similares de exploração da mao de obra necessarias a industrialização contemporanea formadora do novo capital patrimonial das elites. Assim o sidicalismo foi permitido como forma de acomodar as classes operarias para que apaziguadas fornececem a força de trabalho necessaria a ativação do capitalismo industrial. A organização politica sindical se tornou um efeito colateral inevitavel pela escala demografica e complexidade social dessa força de trabalho indespensavel ao sistema. Sua ascenção foi um incomodo nunca aceito pelo establishment entretanto teve que ser consentida para acomodar a interdependencia estabelecida. Atribuir ao PT um protagonismo auto propulsionado com independencia decisoria é uma falácia intelectual implantada maliciosamente nos circulos academicos com objetivo de manipular a analise critica. Em momento algum o trabalhismo teve autonomia plena não supervisionada pelas elites capitalistas. É só observar a historia . Em todos os momentos que quis se emancipar foi tolhido por atos de exeção. Da mesma forma a trajetoria do PT, apesar do fenomeno fora da curva Lula, sempre foi tutelada. Assim nos admira os comentarios sobre as possibilidades do qure ” o Lula poderia ter feito” ou sobre “os erros da Dilma”. Interessante para quem analisa das salas academicas de fora com dados das externalidades de revelaçao consentida sem conhecer as entranhas obscuras do poder real. Em que momento houve alguma liberdade efetiva em sua trajetoria ? A maquina sofisticada do imperio Anglo Americano experiente na dominação a seculos de sociedades culturalmente elaboradas a milenios e atualizada com aparato tecnologico de ponta seria driblada pela organização politica ” de varzea ” tupiniquim ? Data venia é muita ingenuidade acreditar nisso. Mais uma vez basta examinar a trajetoria percorrida e será constatado o monitoramento e controle de curso em todo processo. Salvo as imponderabilidades não previsiveis, que surpeendem criando inevitavelmente o realmente novo, o sistema de informaçoes de amplo espectro esta sendo continuamente programado para o controle. Basta observar a atuação do soft power nos focos de infiuencia da realpolitk. Na presente situação uma janela de oportunidade pode se apresentar com tres externalidades em curso sendo observadas:
    -O enfraquecimento do poder secular imperial sendo dirperso em muitas frentes simultaneas com antagonistas emergentes deteriorando sua capacidade hegemonica e consequentemente seu controle periferico
    – A formação de uma nova ordem multipolar capaz de permitir novo espaço a organização social permitindo o florescimento de politicas de arranjos regionais e multilaterais
    -A estruturação, pela experiencia dialetica vivida nesta crise nacional manifesta, de um consciencia politica ligada ao povo e ao territorio a partir dos estratos sociais de base que estão se formando nos movimentos sociais e nos centro de instrução educacionais focada na cidadania e no auto reconhecimento

  5. eduardo teixeira disse:

    Este cenario pode ser uma ocasião unica para as forças progressistas nacionais conduzidas pelo PT, que se aproveitando da quebra do sistema politico convencional local e do enfraquecimento do poder imperial da metrpole atribulada em sua propria crise, se apresentará como a unica força social com dimensão e capilaridade de base realmnente organizada

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