Hegemonismo, doença senil da esquerda

O candidato petista é tutelado pelo temor da perda da hegemonia; o eleitor do campo progressista, tutelado pelo temor da real ameaça fascista

Por Fran Alavina

O avanço da corrida presidencial e a chegada de uma disputa aberta no seio do campo progressista (Haddad versus Ciro) revela o labirinto que o PT montou para si mesmo e, por conseguinte, para boa parte da esquerda nestas eleições. A indecisão, muitas vezes precoce, que é possível observar nas dúvidas entre os eleitores que não sabem para quem deve ir o dito voto útil — se Ciro ou Haddad — é já uma expressão dos meandros deste labirinto.

De fato, esta precocidade do famigerado “voto útil” já revela por si só a pobreza das condições atuais da vida política nacional. Ela revela ainda que os eleitores — falo aqui do campo progressista — estão, por antecipação, dispostos a abandonar seu candidato preferido, em favor de uma decisão secamente pragmática. Se do outro lado o ódio parece ser o afeto político mais forte, do lado de cá o temor é o afeto político da vez. Acuados em suas próprias convicções, aqueles que não se consideram reacionários, se veem obrigados a fazer de sua escolha um não escolha, posto que já aceitam não votar em quem querem de fato — mas naquele em que a condição obriga por necessidade que lhes ultrapassa. Vê-se, pois, que já não se trata de resistência ao golpe, pois a resistência nunca se move pelo temor. Aí já se encontra uma primeira derrota que as forças protofascistas nos impõem. Nossa possível vitória não será uma vitória completa, já iniciamos perdendo.

Do vislumbre desta conjuntura, ainda no ano passado nasceu aquela aspiração, quase ingênua, diga-se de passagem, de uma coalização que unisse todas as forças que se consideram à esquerda no campo político. Ingênua, uma vez que esta unidade sempre anunciada como urgente, nunca se realiza. E, agora, além de não se realizar pode mesmo chegar ao fratricídio.

Observando com certo cuidado os caminhos que nos trouxeram até aqui, pode-se afirmar que a unidade do campo progressista não se realizou por uma série de fatores, um dos principais, além dos interesses personalistas, foi o problema de com quem ficaria o lugar de comando dessa pretensa unidade à esquerda. Na medida em que as forças são diferentes em tamanho, mas equivalentes em importância, se abriria uma disputa pela hegemonia. Cálculo político dos mais simples: o que se ganharia e o que se perderia; quem se enfraqueceria e quem se fortaleceria com esta unidade. Diante dos números desse cálculo, o PT, por antecipação, e nem por um instante, pensou em abandonar o posto hegemônico. Uma certa arrogância de que se vê capaz de seguir sozinho e que se considera naturalmente a cabeça desta unidade.

O PT julgou que perder a hegemonia — e o lugar privilegiado de fala em nome da esquerda — equivaleria a enfraquecer a justa e devida defesa de Lula contra os mecanismos persecutórios que o levaram ao cárcere físico. O temor da perda da hegemonia leva então o PT a uma de suas contradições mais visíveis: a oscilação ente o discurso purista e o discurso do especialista de esquerda da realpolitik.

Agor, que, pela primeira vez em mais de uma década, a burocracia petista se vê instada a disputar com um concorrente real os votos do campo progressista e da centro-esquerda, a máquina partidária começa a apelar uma vez mais para o discurso purista e da legitimidade de fala e ação. A crítica de que Ciro Gomes não é um legitimo candidato da esquerda será usada à exaustão pelos petistas mais imunes a uma autocrítica. Todavia, se contra o discurso purista, apresentarmos as associações contraditórias do PT (Haddad abraçado com Eunício Oliveira no Ceará e com Renan Filho em Alagoas, para ficarmos nos exemplos mais próximos em que o PT anula seu próprio discurso do golpe) nossos amigos petistas dirão, sem medo de serem felizes, que são necessidades da realpolitik, governabilidade e todo aquele rosário de escusas que já conhecemos. Ora, se isto retira toda e qualquer aspiração purista e de autenticidade que o petismo reclama para si, cai por terra a justificação da hegemonia. Em outras palavras, pode o petismo atirar pedras em Ciro, pela escolha de sua vice, ou por seu irmão Cid Gomes também estar no mesmo palanque que Eunício Oliveira?

A manutenção da hegemonia se expressa, ainda, na incapacidade da burocracia petista em realizar uma crítica sincera dos seus erros. Como a autocrítica não é feita, pelo medo da perda da hegemonia, o partido não é capaz de nos apontar nada de novo.

A cereja do bolo desta incapacidade atávica em que o petismo se meteu está no mote da campanha: O Brasil feliz de novo. O “de novo” esconde a incapacidade de apresentar algo realmente novo, daí o apelo ao passado recente como se o PT fosse capaz de operar novamente tudo aquilo que de bom realizou antes e tudo aquilo que poderia ter feito e não fez. É o que nos é prometido, e caso não aceitemos os questionáveis abraços de Haddad nos fiadores do impeachment, logo nos mostram ou os erros e percalços de Ciro, ou a necessidade do tal “voto útil”: numa ação quase desesperada de convencimento mecânico. Mas porque o PT assim começa a agir?

Chegamos, então, ao otimismo ingênuo e à tutela como os muros do labirinto. Como o temor é o afeto político que de fato reina entre nós, o único otimismo capaz de ser esboçado é ingênuo e até certo ponto desalentado. Ingênuo, na hipótese de que não se trata de cinismo, posto que nossas condições políticas são outras, a conciliação de antes não é mais possível de ser refeita. Para que o PT pudesse se apresentar de fato credenciado a repetir o que fez e realizar o que não fez era preciso que estivéssemos nas mesmas condições de 18 anos atrás e que o partido tivesse, de fato, apreendido com seus erros se reformulando. Porém, como esta reformulação depende de uma autocrítica sincera e esta não aconteceu por medo da perda da hegemonia, restou então propor a repetição por meio da tutela.

Como se apresenta Haddad, senão como um tutelado, ainda mais após a perda da eleição municipal. É tutelado não só pelo caráter discricionário de sua escolha, mas pelo fato de que carisma não se herda, tal como não é certo que herde os votos de Lula. Quanto mais difícil for a transferência dos votos maior será a força da tutela. Tão tutelado quanto o eleitor do campo progressista na perspectiva do tal voto útil: o candidato petista é tutelado pelo temor da perda da hegemonia; o eleitor do campo progressista tutelado pelo temor da real ameaça fascista.

Neste labirinto, uma coisa é certa, não há vencedores. A única maneira de sair dele não é dar longas voltas pelos muros até encontrar uma saída, mas colocá-lo abaixo. Como fazê-lo? A primeira ação de derrubada é não se deixar levar pelo discurso petista calcado no temor da perda da hegemonia. Se o PT perder a hegemonia no campo progressista não será o fim do mundo, mas talvez a única maneira do partido de fato se reformular, estabelecendo uma autocrítica sincera, pois lhe restará reconhecer que não é mais possível caminhar entre o discurso purista e as práticas de especialista de esquerda da realpolitik.

É evidente, que a esta altura do texto, muitos leitores dirão, já quase no ataque ao autor: “mais com uma esquerda dessa, quem precisa de direita?”. Ora, os que assim pensam já estão completamente imersos nos mecanismos da lógica hegemônica do PT, incapazes de se abriram à crítica já a desmerecem por antecipação, apelando para a lógica simplista: se fosse realmente dos nossos, se estivesse ao nosso lado não diria isso. Confundido, assim, tutela com lealdade. E antes que digam que eu sou cirista de carteirinha segue o link do texto com as minhas considerações sobre Ciro Gomes.

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14 comentários para "Hegemonismo, doença senil da esquerda"

  1. Maria Alba disse:

    Onde está o link das suas considerações sobre o Ciro Gomes?

  2. Só o PT precisa se autocriticar… como o próprio autor diz: “Com uma esquerda dessa quem precisa de direita” . Ainda bem que o autor abriu meus olhos para o fato de eu estar cego pela lógica hegemônica do Petê. Só o autor é que abriu os olhos e se libertou. Praticamente, um messias… Quem não enxerga como ele, está cegado… é muito autoritarismo travestido de humanismo…
    Com todos os defeitos do PT (e são muitos), 40 milhões saíram da miséria. Por que só o PT é perseguido pela elite? Que conciliação tão grande é essa que despertou tanto ódio das elites? Fácil ser ineficaz e criticar quem faz alguma coisa.
    Mas, para os ciristas, o PT tinha que abrir mão de toda a construção de décadas de sua base para ungir Ciro, um cara que optou por um discurso à direita de Lula desde o começo, não aceitou ser vice, não foi a São bernardo e fala mal do PT aos 4 cantos… O PT sedento por sua hegemonia não aceitou abrir mão de seu lugar de fala e barrou Madre Ciro de Calcutá, uma figura que merece receber tudo que a militância petista construiu…

  3. Cosette disse:

    O choro é livre! Haddad 13 Lindberg 131 Chico 500 Márcia Tiburi 13 Wadih Damous 1322 Gilberto Palmares 13455

  4. Wania Barreto disse:

    Análise esclarecedora num momento tão confuso .

  5. Lourival Almeida de Aguiar disse:

    O artigo parece profundo mas não é! Confunde mais ainda o que tenta esclarecer…

  6. Terezinha de Oliveira Gonzaga disse:

    Como nós mulheres feministas , que a 45 anos estamos lutando por democracia, onde o nosso papel garantiu a derrubada da ditadura militar e/civil , e atualmente conseguimos uma unidade pouco vista para #eleNão e #NemoSeuVice, sempre votamos útil, pois nunca tivemos um /a candidata que propusesse uma pauta que garantisse a libertação das mulheres, portanto esta discussão atual é inoportuna, É de quem não percebeu a gravidade da ameaça que estamos vivendo. #Haddad 13, voto útil ,sim, contra a perseguição que se faz ao PT, e contra prisão política do Lula.Jogar nossa energia para não consolidar o retrocesso.

  7. Ricardo Cavalcanti-Schiel disse:

    Brilhante artigo esse do Alavina!
    É claro que os petistas vão espernear. Eles perderam a capacidade de se questionarem pela reflexão. São movidos fundamentalmente por fé cega.
    Dadas as alternativas em jogo, um futuro de obscurantismo nos aguarda. Esse é o quadro mais geral e mais devastador que se nos avizinha, para além dos voluntarismos ingênuos. É para isso que temos que nos preparar.
    Claro que eu gostaria de estar errado, mas se as nossas opções se reduzem a “ou o Bolsonaro ou o PT”, estamos ferrados. Ambos os casos não passam além do horizonte da mistificação e da patranha.

  8. Hans Alfred Trein disse:

    Seria deveras um gesto político de grandeza e humildade, o PT desistir da hegemonia partidária, evitar um confronto entre petismo X antipetismo que, mesmo Haddad ganhando as eleições, não impedirá que entremos num obscurantismo devastador, cujo elemento menos ruim será a ingovernabilidade. Alternativa é buscar uma articulação política que coloque a produtiva busca por soluções para as crises brasileiras em primeiro lugar. Nesse meio tempo, o PT poderia realizar um processo de autocrítica que certamente reforçará o campo da esquerda, para então emergir novamente com uma proposta sólida e clara daqui a quatro anos. O PT esteve 14 anos em campo, lutando como minoria, tendo que fazer alianças com uma catrefa que o traiu/golpeou pelas costas e que mergulhou o país numa das piores crises. É hora do vestiário, de rever estratégias e táticas, de analisar lances, de avaliar programas… E não se trata de sair do campo, mas de continuar com jogadores experientes e competentes, para avançar com as necessárias reformas estruturais.

  9. Rogerio Ridolfi disse:

    É triste ler um post desses. O mal da esquerda brasileira é a falta de autocritica. O PT fez parte do maior escândalo de corrupção do mundo. Nunca saberemos realmente qual o tamanho do roubo contra o povo brasileiro ocorreu nos últimos 16 anos. E o pior é chamar de neofascistas todas aquelas pessoas que não votam no PT. Quando governavam o centrão não era fascista. Agora no nordeste o Haddad esta aliado a Sarney, Renan Calheiros etc e no segundo turno, se houver, vai procurar apoio com outros golpistas. Me desculpe professor, mas seu texto é de uma pobreza extrema.

  10. Maria Luiza de C. Armando disse:

    Com menos cientistas políticos e doutorandos que têm o Rei na barriga (pois raramente não têm), estaríamos em melhor situação! Tanto prova, que redes globos e que tais adoram convidar cientistas políticos para produzir obviedades e confundir ainda mais as mentes. / Isso posto, pergunto : por que somente o PT deveria fazer autocríticas? por que somente o PT é “hegemonista”? O único partido que poderia fazer críticas dessas seria o PCdoB, pois, pelo menos aqui no RS, foi o que sempre aceitou alianças com o PT. (Por isso mesmo, esteve no Governo do estado.). / O momento de propor reflexões desse tipo não é véspera de eleição, é muito antes !/ Por outro lado, o que não tenho entendido – e nunca entenderei – é por que razão deu-se em discutir um assunto próprio a segundos turnos – alianças, etc. – quando nem se realizou ainda o primeiro! Isso me faz desconfiar muito de certas boas intenções! / Também estranho muito a ideia de “tutela” para Haddad ! Será ele um idiota, o que tem mostrado não ser? um robô? um manipulado? não tem cérebro nem luz própria? Não foi ele o responsável pelo programa petistas nestas eleições? Argumentar com sua não reeleição é algo impensável, já que significa desconhecer por completo o caráter das últimas eleições municipais! / Enfim, se desconhece ou se omite (no artigo, como, infelizmente, quase em geral, que NÃO TEMOS VIVIDO e NÃO ESTAMOS VIVENDO UMA SITUAÇÃO DE NORMALIDADE DEMOCRÁTICA ! Esqueceram (quase) todos que SOFREMOS UM GOLPE DE ESTADO em 2016 ?! E que até mesmo participar, ou não, destas eleições propôs um doloroso dilema?… Safa, senhores cientistas políticos, doutorandos, mestrandos, etc., como omitem o principal?!… NOTA 1 – Tenho cinco títulos de Pós-Graduação (para que não se pense sou contra a categoria). NOTA 2 – Não sou e nunca fui do PT, embora o tenha, sempre, apoiado. Espontaneamente, diga-se. NOTA 3 – Vivi a Ditadura e o exílio, o que, creio, me dá títulos mais importantes do que os universitários. / Quanto ao candidato que parece ser isentado de todo e qualquer defeito, declaro, alto e bom som : o que me move a não apoiá-lo em primeiro turno é, antes de mais, o fato (omitido) de que esse senhor tem pulado de partido em partido ao longo de sua vida pública. Isso, para mim, é inadmissível, pois incide em mudança constante de ideias, para não falar no polêmico e confuso termo “ideologias”. A mim, sugere tão só OPORTUNISMO, o que repudio “in totum”. De tal monta, que põe no lixo as tentativas do PT de, realisticamente, praticar a “realpolítica”. / Se votaria nele ante uma derrota de Haddad no primeiro turno? Votaria, de nariz tapado e baseada somente na necessidade do “contra”. NB – O “contra” é apenas uma “agenda negativa”, é a opção pelo “menos pior” (coisa para segundo turno ; e lamentável). / Como apoiadora de “Outras Palavras”, peço ao Antônio Martins um pouco mais de senso de oportunidade e de triagem na qualidade dos artigos aqui veiculados. *MLCA* (Porto Alegre e Brasília). ***

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