Um arquiteto negro na São Paulo escravocrata

Escravizado até os 58, Tebas dominou a arte de entalhar pedra e foi um dos maiores nomes da construção colonial, no século XVIII. Sua presença revela influềncia negra na arquitetura brasileira. Mas sua história até hoje é esquecida

A fachada da Igreja da Ordem 3ª do Seráfico São Francisco, a primeira da direita para a esquerda, na foto, ainda está exatamente como Tebas a executou, em 1783.

Era outra São Paulo, explica o escritor e jornalista Abílio Ferreira. Estamos na esplanada da histórica Igreja da Ordem Terceira do Carmo, na região central de São Paulo, erguida em taipa de pilão no século 18. “Ali, onde está o prédio da Secretaria da Fazenda”, aponta ele, “havia um convento mais antigo ainda, de 1592. Foi demolido em 1928 para fazer esse prédio e alargar a avenida Rangel Pestana. Essa igreja que sobrou é um vestígio dos três vértices do triangulo histórico, que inclui também o convento de São Bento e o de São Francisco. E Tebas tem obras nessas três pontos do vértice”, conta Ferreira

Ferreira acaba de lançar o livro Tebas: um negro arquiteto na São Paulo escravocrata (abordagens), primeira publicação de não ficção dedicada ao construtor. Conta que devido a seu sofisticado trabalho e ao fato de ser negro e escravizado, muitos alegaram que Tebas não passou de uma lenda. Outros sugerem que ele, na verdade, era branco.

Mas os documentos históricos estudados pelo escritor comprovam: ele existiu e era muito requisitado pelas poderosas ordens religiosas de São Paulo que pagavam — e caro — pela arte de entalhar pedras desenvolvida pelo arquiteto.

O mito de Tebas

O desenho do Chafariz da Misericórdia, executado pelo artista plástico José Wasth Rodrigues
(1891-1957), a partir de foto de Augusto Militão de Azevedo, revela a função social dos chafarizes públicos da cidade de São Paulo: ponto de trabalho e encontro do povo, especialmente da população negra

Há duas versões sobre a origem do apelido de Joaquim Pinto de Oliveira: uma em referência à engenhosidade do Tebas grego, que derrotou a esfinge, e outra a uma palavra do quimbundo, catalogada no dicionário Houaiss, também usada para definir alguém com grande habilidade. “É bem mais provável que o povo do século 18 conhecesse essa palavra de sua língua ancestral do que a lenda grega do Sófocles”, especula o escritor.

O fato é que a história de um “arquiteto negro” atravessou o século 19 em narrativas populares, adquirindo status de lenda urbana. O Chafariz da Misericórdia, local de encontros, namoros e conspirações políticas em uma cidade colonial ainda sem abastecimento de água, era conhecido como “Chafariz do Tebas”, o que ajudou a perpetuar a história de seu construtor.

O primeiro registro escrito sobre Tebas aparece somente em 1899 em uma cronologia da história paulistana, elaborada pelo cronista José Jacinto Ribeiro, relatando a construção da torre da Catedral da Sé e que “Thebas foi também o construtor do Chafariz da Misericórdia. É daí que vem a frase: é um Thebas; homem que faz tudo”. Em 1935, o chefe da Seção de Documentação Histórica do Departamento Municipal de Cultura, Nuto Sant’Anna, publica um artigo na Revista do Arquivo Municipal de São Paulo intitulado Thebas: subsídios inéditos para a reconstituição da personalidade do célebre arquiteto paulistano do século XVIII.

“Ele é muito minucioso cientificamente e questiona as imprecisões dos cronistas anteriores, revelando informações adicionais como o nome completo de Tebas, obras erroneamente atribuídas a ele, mas, contraditoriamente, encerra o artigo problematizando se Tebas era mesmo um escravo, pois tinha nome completo, algo raro entre os escravizados da época”, explica Ferreira. “Além disso, Nuto Sant’Anna questiona se Tebas fez tudo que dizem que ele fez, mas adverte que uma lenda popular construída pela imaginação do povo é sempre mais interessante que figuras estéreis e frias propostas pela história”.

Em 1937, o mesmo cronista utiliza-se dessas lendas em torno do mito do arquiteto para escreve o romance Tebas, o escravo, que ganhou grande projeção na época. “Novamente, Tebas é uma figura idealizada: uma liderança que luta contra a escravidão e que ganha a alforria de um pároco depois de construir astutamente a torre da Sé”, analisa Ferreira.

Em 1974, o sambista Geraldo Filme compôs um samba-enredo em homenagem a Tebas para a Escola de Samba Paulistano da Gloria, o que, novamente, dá uma grande visibilidade ao personagem. No programa Ensaio, da TV Cultura, ele narra uma das histórias passadas pela tradição oral: que Tebas, que sempre estava sentado em frente a igreja do Carmo, fizera um acordo com um padre para construir uma a torre da Sé – pois, segundo ele conta, ninguém na época sabia como fazê-la: “eu construo a Catedral com vocês, mas o primeiro casamento lá tem que ser o meu, ela já estava de olho em uma comadre lá”, conta Filme no vídeo.

Samba-enredo de Geraldo Filme para o carnaval de 1974

“Isso tudo cria uma áurea de narrativa e lenda que ajudou a popularizar a figura de Tebas”, observa Ferreira. “Talvez Nuto Sant’Anna tenha razão ao falar de figuras frias e estéreis: o povo se apropria de certas figuras que se ficassem somente descritas pela historiografia não sairia dos muros acadêmicos. É necessário essa dimensão poética!”.

Um mestre das pedras

Igreja da Ordem Terceira do Carmo

“Essa Igreja representa um momento em que o Tebas começa a ganhar uma dimensão humana”, afiança Ferreira, adentrando a Igreja do Carmo.

Nos anos 1980, Carlos Cerqueira, pesquisador do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), analisava os arquivos dos carmelitas, guardados com esmero em um gigante cofre no centro de São Paulo. Entre os papeis centenários, ele buscava fundamentos de valor artístico e histórico para o tombamento da igreja, que sofreu inúmeras modificações ao longo de sua história.

“Cerqueira descobre que a fachada da igreja era original e que havia uma cópia do contrato de Tebas com os carmelitas para o trabalho. Ele trabalhou aqui enquanto também trabalhava na Catedral da Sé”, conta Ferreira. “Isso tira de vez o Tebas da esfera lendária e confere a ele humanidade: ele é uma pessoa que assinou documentos, que recebeu uma remuneração, que trabalhou em importantes projetos; informações sobre com quem e onde ele morava, nome da esposa e das filhas também surgem”.

Avançou-se muito na descoberta de informações sobre a vida e obra de Joaquim Pinto de Oliveira, conta o escritor, porém sabemos que muito ainda está para ser descoberto. Tanto que Ferreira planeja um livro-reportagem sobre a história das investigações sobre Tebas. Pergunto para ele o que podemos afirmar com certeza sobre esse arquiteto negro, ícone esquecido da arquitetura paulistana.

Sabe-se que Tebas nasceu em 1721, em Santos, litoral sul de São Paulo, narra Ferreira. Foi escravizado pelo português Bento de Oliveira Lima, célebre mestre de obras da região. Contou, portanto, com duas contribuições ao seu trabalho: crescer em uma região com abundância de pedras e receber importantes influências da Metrópole — como o barroco — por viver em uma zona portuária. “O mesmo barroco que influencia Aleijadinho, em Minas Gerais, vai influenciar o trabalho de Tebas, um dos principais nomes do barraco paulista”, afiança ele.

A especialidade desenvolvida por Tebas, provavelmente utilizando conhecimentos de seus ancestrais africanos, era talhar e aparelhar pedras, permitindo elaboradas ornamentações, acabamento refinado e maior durabilidade às construções, características difíceis de conseguir pela técnica da taipa de pilão.

Lima, que era mestre de obras, percebeu que seu escravo poderia ser muito rentável em uma cidade como São Paulo – que, na época, vivia um boom na construção civil promovido pelas ordens religiosas, mas que não contava com muitos construtores e arquitetos que dominassem o entalho em pedra. O fato é que, já na década de 1750, Tebas teve uma ascensão como construtor, sendo o responsável por várias obras, ganhando até o título de juiz de ofício, com a autoridade para fiscalizar as obras de alvenaria e pedra.

Em 1789 seu proprietário morre com uma dívida com o bispado da Sé: havia recebido para realizar uma obra que não executou. O arcebispo negocia com a viúva, em problemas financeiros: compra o sítio dos Limas, localizado onde hoje é o bairro do Paraíso, e combina de só pagar quando Tebas terminar a obra. A exigência do contrato é obrigar o arquiteto a fazer a edificação. A viúva também passa a depender dos trabalhos dele para se sustentar, já que estava alheia aos negócios do falecido marido. Em 1778, quando termina os trabalho na catedral da Sé, o arcebispo concede a Tebas a carta de alforria. Tebas continuaria no oficio até os 90 anos, quando morre no dia 11 de janeiro de 1811, vítima de gangrena, provavelmente causado por algum acidente de trabalho. Seu velório e sepultamento foi realizado na Igreja de São Gonçalo, onde eram enterrados os “mulatos importantes” da época.

Renovação estilística em São Paulo

Mas por que Tebas seria um arquiteto, perguntam alguns. Não seria somente um construtor bem sucedido em seu ofício? Benedito Lima de Toledo, professor emérito da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAUUSP), em entrevista concedida à revista Leituras da História, em 2012, destacou que Joaquim Pinto de Oliveira soube captar a religiosidade da época e expressá-la de maneira muito pessoal.

“Essa expressão da religiosidade é que o transformou em arquiteto e as suas obras em arte, disse Toledo, na ocasião. Pode-se dizer que Tebas foi decisivo para a constituição daquilo que Luís Saia, outro arquiteto de peso, chamou certa vez de período de ‘renovação estilística, ocorrido especialmente nas igrejas na segunda metade do século 18’”, lembra Ferreira.

Além disso, Tebas é uma amostra de como a população negra africana transplantada para o Brasil trouxe conhecimentos e tecnologias para a construção das nossas cidades (e em muitas outras áreas), fatos costumeiramente esquecidos pela história.

“Tebas não era uma exceção”, ressalta o escritor. “Houve circunstâncias favoráveis para que ganhasse notoriedade, mas ele é herdeiro dos conhecimentos técnicos trazidos pelos africanos para cá e, ao contrario do que muitos acreditam, até mesmo do IPHAN, essa ideia de nação baseada no conhecimento português está errada: há um amálgama com contribuições muito relevantes do povo indígenas e africano”.

E conclui: “ainda precisamos discutir mais a fundo a contribuição do povo africano para o Brasil – e não somente pelo fato de serem negros”.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *