O que são os “Laboratórios do Comum”

Grupos de pesquisa científica atravessados pelo mundo, onde há troca e construção coletivas, sem separação entre “dentro” e “fora”, e onde o saber das experiências é valorizado. Uma experiência começa a surgir, em bairro de SP

São muitos os sentidos possíveis para essa expressão. “Laboratório” e “Comum” são conceitos complexos e sob disputa.

Aqui combinadas adquirem contornos específicos graças a uma dupla articulação: cognitiva-epistêmica e ético-política.

Falar em “laboratório” significa adentrar as disputas sobre os modos, locais e formas de produção de conhecimento. Há sempre uma política dos modos de conhecer.

Falar em “Comum”, substantivo, significa assumi-lo enquanto fundamento político e ontológico. Interessa-nos tanto investigar o Comum, como produzir e organizar esse modo de conhecer (laboratório) sob a lógica do Comum. Portanto, chamamos “Laboratório do Comum” a prática dessa dupla experimentação: simultaneamente cognitiva e política. Pode-se dizer que o Laboratório do Comum é, portanto, um lugar de criação de novas comunidades políticas e epistêmicas [leia a entrevista A Política do Comum e do Protótipo].

Um laboratório é sobretudo um lugar de coinvestigação, pesquisa e experimentação. Trata-se de melhorar a qualidade das perguntas, dos modos de conhecer e das relações que precisamos constituir para conhecer algo. Inspirados na passagem do “paradigma do governo” para o “paradigma do habitar” de Amador Fernandez-Savater, gostamos de dizer que um Labortório do Comum pratica um saber-fazer habitar, em oposição ao saber-poder governar [leia o artigo Nova cultura política: o Paradigma do Habitar do Amador Fernandez-Savater].

O espaço que chamamos de laboratório não é um lugar limpinho, asséptico e onde o que se investiga pode ser separado do mundo “lá fora”.

Nosso laboratório é parte do mundo e é atravessado por ele. É um laboratório contaminado. Ao dizer que é da ordem do “Comum” significa que ele não separa o mundo entre nós (os que investigam) e os outros (sujeitos/objetos da investigação). O Comum funda portanto uma relação de copertencimento e interdependência. Investiga-se e trabalha-se sobre o Comum que nos afeta e que nos constitui enquanto uma comunidade de afetados. Nada mais distante de um Laboratório do Comum do que o chamado “trabalho de base”. Quem diz “base” funda uma geografia onde “nós” e “eles” estão separados por diversas assimetrias (conhecimento, pertencimento, consciência…).

Também não pensamos num laboratório operado pelos experts ou especialistas. Um laboratório do Comum, como descreve Antonio Lafuente, é uma prática onde o saber da experiência adquire maior dignidade e centralidade. Ao dizer que “todos somos experts em experiência” Lafuente opera uma simetrização que modifica radicalmente a relação e as hierarquias entre os participantes do laboratório. Por isso, um Laboratório do Comum não é um curso, tampouco se organiza segundo a lógica pedagógica-formativa, e muito menos deseja criar algo que vai ser aplicado ou transmitido a outras pessoas ou lugares [leia essa entrevista com Antonio Lafuente – Sentidos de um Laboratório Cidadão].

Também não se trata de produzir diagnósticos para informar uma ação de governo. O Comum é da ordem da diferença, da multiplicidade e da singularidade. Por isso, o Comum não se confunde com a produção de maiorias, de normatizações/padronizações ou a disputa por hegemonia. A distinção entre micro e macro não se aplica aqui. O Comum é transversal à micro e à macropolítica, é outra geometria, pertence à dimensão imanente da vida [leia Políticas do Comum: alianças entre o sensível e o intangível].

O Laboratório pratica uma forma de conhecer que emerge e sustenta um determinado “Comum”, dando forma a essa comunidade de praticantes, que se reúne em torno deste Comum. O Comum não é um objeto, uma essência, uma coisa. Ele é de ordem relacional, da coprodução e do inapropriável (precisa deixar de ser Comum para ser apropriável). É produzido entre todos e não é de ninguém. Mesmo o “ar” ou a “linguagem” para que seja um “Comum”, deve estar submetido a relações que o produzam enquanto um Comum. A história do capitalismo pode ser contada, de certa maneira, como uma história da crescente colonização, codificação, cercamento, expropriação e privatização do Comum, em suas diferentes expressões. E nessa história, como nos relata Silvia Federici, as mulheres sempre estiveram em posição de combate à expropriação do Comum. [FEDERICI, Silvia. Sobre o feminismo e os comuns. Acesse].

Para que um laboratório aconteça, algumas coisas devem estar presentes: é preciso alguma infraestrutura, é necessário que se respeitem determinados acordos e sobretudo, é preciso que se constitua um coletivo de trabalhadores capaz de elaborar uma linguagem e sentidos compartilhados. No caso de um laboratório situado (sobre um problema, um território ou uma coletividade qualquer), como é nosso caso, a constituição de um laboratório é inseparável da constituição dessa comunidade que lhe sustenta. A convocatória lançada, a partir de alguns problemas ou inquietações, tem o objetivo de interpelar e talvez convocar pessoas que se sintam afetadas por essas mesmas inquietações. Neste post listamos algumas dimensões práticas que dão forma a um Laboratório.

Além de problemas e controvérsias, num laboratório também se fabricam coisas: relações, evidências, artefatos, processos etc. Achamos importante essa passagem de uma ação exclusivamente discursiva para uma ação de composição e criação de arranjos sociotécnicos. Como fazer prosperar a produção do Comum? Um laboratório é um lugar de uma ação pragmática, transitando da reivindicação e do protesto para as ações de criação e prototipagem. Por isso, ainda que provisório, parcial e tentativo, é importante que o Laboratório se organize para “produzir” algo ao fim de um determinado percurso. É um desafio importante experimentar no aqui-agora habitar os problemas que enfrentamos. Caracterizamos essa disposição como “política do protótipo”

O “Laboratório do Comum Campos Elíseos: tecnopolíticas do fazer-bairro” inicia-se como um projeto de extensão da Unifesp. Tem, evidentemente, as marcas do acúmulo do nosso trabalho no Pimentalab e noutros espaços de atuação. Mas ele deseja ser uma plataforma aberta para adentrar em outras individuações coletivas, devir outra coisa junto aos participantes. Ele foi concebido para se desenrolar em até dois anos. Neste momento, lançamos os primeiros passos para uma primeira versão. Esperamos ir adensando nossa prática coletiva, criar mais corpo, ganhar novas capacidades para os próximos passos. Faremos encontros coletivos de investigação e atividades práticas para a criação de ações coletivas. Os desdobramentos e os resultados são indeterminados. Mas, queremos cuidar para que o processo dê forma a uma mesopolítica, uma política do “entre”, uma capacidade de produzir alianças e composições inesperadas que ampliem a potência de nossas práticas do Comum, logo, gerando mais saúde e alegria.

A convocatória para participar do Laboratório do Comum Campos Elíseos está aberta até 25 de setembro, aqui.

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Um comentario para "O que são os “Laboratórios do Comum”"

  1. Carlos Delgado disse:

    A ilustração da matéria é absolutamente perfeita:
    “Laboratórios do Comum: Perigo! Especulação em curso”.

    A ciência dos diletantes, uma vez dispensado o rigor epistemológico, não é muita coisa além de demagogia.
    Aliás, é o próprio rigor epistemológico que adverte que ciência não é mais do que uma gramática do conhecimento; ela não é conhecimento da Verdade, porque isso é coisa para as religiões.

    O problema de muitos é alimentar uma atitude religiosa frente ao conhecimento. Isso tem um nome: obscurantismo.

    É isso que alimenta o mito dessa “horizontalidade” demagógica. Afinal, pelo princípio da “horizontalidade”, a Terra pode ser simplesmente plana e chata. Sem rigor epistemológico, qualquer coisa tá valendo, e pior: como valor de Verdade.

    …Afinal, essa Verdade está legitimada pelo mito absolutizado do Comum.

    Hello!!! Novos totalitarismos à vista!… meio que no estilo Revolução Cultural Chinesa (tal como gosta de ser o totalitarismo “politicamente correto”).

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