Arte, urdidura da cidade

Rota da Cultura propõe travessia: levar pessoas, principalmente adolescentes, da Zona Norte de SP, para visitas em diversos pontos culturais na metrópole. Com produção criativa após encontro, projeto ata laços entre centro e periferia

As cidades são, por definição, espaços interconectados, unidos por laços de solidariedade a um destino comum. Talvez por isso mesmo as próprias cidades criam vetores anticitadinos, barreiras visíveis ou invisíveis, físicas ou simbólicas, que atuam no sentido contrário, rompendo ligações, dificultando acessos. Na sua radicalidade, a cidade produz democracia, mas a realidade mostra que pode haver um sequestro, estrangulando a potência citadina por meio da criação de bolsões de isolamento.   

São Paulo é uma imagem desse paradoxo, a cidade que parece viabilizar uma reunião de coisas tão díspares, e que ao mesmo tempo, por diversos barreiras, bloqueia inúmeros contatos. Aqui, o traçado das águas, os grandes rios e as represas, faz coincidir algumas dessas barreiras simbólicas e físicas. O rio Tietê, por exemplo, traça uma espécie de fosso entre a cidade e o “lado de lá”. E há uma infinidade de fatores que impedem uma pessoa de atravessar a ponte e chegar até a “cidade”: falta dinheiro, tempo, ou mesmo vínculos que levem a compreender o sentido dessa pequena mas simbólica travessia. 

Essa introdução mais conceitual permite entender o significado de um projeto como o Rota da Cultura. Em síntese, ele é bastante simples: trata-se de levar pessoas que vivem no Parque Vila Maria – sobretudo pré-adolescentes e adolescentes, mas também adultos e idosos – para visitar espaços da cultura que compõem a malha da cidade. Mas antes de cada visita há uma preparação e, depois, um encontro de elaboração criativa. Ou seja, há uma sensibilização para o encontro, a vivência desse encontro, e ao final uma espécie de incorporação, de tomada de consciência pela produção criativa daquilo que ficou dessa experiência. Quer dizer, não se trata exatamente de apreender, mas de inventar ativamente um novo vínculo. É aqui que a subjetividade de cada um e cada uma enuncia a fala final, realizando, talvez, o início de um diálogo. 

No terraço do Sesc Paulista, ver a cidade de cima: para vários participantes, esta perspectiva se abriu pela primeira vez.

Concebido pela produtora cultural Patrícia Ceschi, diretora da Aymberê Produções, em parceria com a artista-educadora Patrícia Marchesoni, o projeto trabalha nessa transposição de barreiras. A barreira econômica é sem dúvida importante, pois se existe ônibus e metrô que cruza a ponte, para muita gente os R$ 8,60 que se gastaria para ir e voltar são muito valiosos para muitos gastos essenciais. A barreira cultural também, pois quando a gente não imagina que pode encontrar algo realmente significativo ao final de uma travessia, aí é que fica difícil de dar o primeiro passo. E esse tipo de impedimento só se elimina com um trabalho cuidadoso e competente de arte-educação e produção cultural. 

Ao longo do primeiro semestre deste ano, o projeto levou dezenas de jovens para conhecer a Pinacoteca do Estado, o Beco do Batman, o Museu Afro-Brasil e um conjunto de espaços que deram lugar a um questionamento sobre arquitetura e cidade: o Sesc Paulista, Casa do Japão, Casa das Rosas e Centro Cultural São Paulo. Foram dezenas de pessoas que se dispuseram a se sensibilizar e realizar esta viagem à sua própria cidade, entrando em contato assim com universos culturais múltiplos cujas portas de entrada se encontram nos espaços de cultura visitados. Dentre as realizações artísticas de elaboração, algumas deixarão marcas mais permanentes, como os muros que foram grafitados pelos participantes do projeto em duas escolas públicas da região e mais a Casa de Cultura da Vila Guilherme, parceira do projeto. 

O Rota da Cultura é incentivado pelo ProAC da Secretaria de Cultura Estado de São Paulo, e tem patrocínio de uma grande empresa de transporte, com sede na região. A promessa é que deve prosseguir em novas edições, tematizando outras linguagens – como a poesia e as artes do espetáculo, como o teatro, a dança e a ópera. Veremos que conexões se formarão, neste trabalho delicado e cuidadoso de traçar linhas de novos possíveis e atar laços de uma urbanidade virtual que responda mais radicalmente pelo nome de cidade. 

Chegar junto e olhar do outro lado das linhas divisórias da cultura e da arte: movimentos pequenos que costuram aberturas e interconexões.

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