Polêmica: em defesa de Sérgio Buarque

A pretexto de atacar conservadorismo, Jessé de Souza investe contra intelectuais que ajudaram a construir pensamento crítico brasileiro. Ignorância? Ou simples desejo de espalhafato? 

Por Iná Camargo Costa

Este texto vai se restringir ao delineamento de um aspecto da identidade intelectual, o do desempenho linguístico, do mais recente detrator da obra de Sérgio Buarque de Holanda, seguindo o próprio exemplo deste Mestre. Inspirado em Mário de Andrade, Sérgio Buarque sempre teve muita paciência com os jovens candidatos a crítico, mesmo os que não exibissem nenhuma disposição mental para argumentar. Mas sempre exigiu de todos um mínimo de qualificação que, uma vez inalcançado, dava lugar a pronta e enérgica descompostura. Foi o caso de um candidato a crítico literário e especialista em literatura francesa que leu um verso em francês com a palavra “sol” (solo, terra, chão) e a traduziu por sol, o astro-rei, que em francês é “soleil”. Podemos imaginar a quantidade de erros em cascata produzidos por esta leitura inepta, de cujos pormenores nosso crítico poupou os seus leitores.

O que poderia aparecer aqui como argumentum ad hominem, na verdade é apenas empenho em definir os termos e razões de um impossível debate. Estamos falando de um bacharel em direito pela UNB que se doutorou em sociologia por Heidelberg. Atualmente é professor na Universidade Federal do ABC, mas já foi presidente do IPEA nos anos de 2015 e 2016. Seu autor mais apreciado e estudado é Max Weber, sendo também adepto sem restrições da teoria sociológica de Pierre Bourdieu (inclusive no quesito interpretação de Max Weber). Declara-se, sem rodeios, anticomunista e antissocialista por adesão ao assim chamado capitalismo regulamentado, que conheceu pessoalmente quando de seu doutorado, nos anos de 1980, na então República Federal da Alemanha, em Heidelberg [1]. Declara-se impressionado com o capitalismo regulamentado pelo fato do seguro-saúde de um reles bolsista (não seria da Fundação Konrad Adenauer?) de pós-graduação  ter direito de atendimento pelo mesmo médico do presidente da Mercedes-Benz! Finalmente, o detrator da “inteligência brasileira” se apoia, em tópicos de filosofia e metafísica, no teólogo canadense Charles Taylor. Todas estas informações estão disponíveis no livro A elite do atraso, sua mais recente publicação. Mas uma interpretação minimamente informada já esclarece um tópico omitido: trata-se de adepto do atualmente chamado comunitarismo, que em política equivale a um centrismo radical (nem liberal nem marxista), atualiza a Doutrina Social da Igreja lançada no fim do século XIX com a encíclica Rerum Novarum (1891) e recentemente foi re-re-re-requentada pela Centesimo anno (1991) de João Paulo II. A marca central deste discurso dito centrista é dedicação (discursiva) total aos pobres, miseráveis, excluídos, etc., que nosso autor promoveu (ou degradou) a ralé dos novos escravos no caso Brasil.

Originalmente este trabalho pretendia ser apenas uma exposição didática do conceito de “homem cordial”, metodicamente treslido desde quando o livro Raízes do Brasil foi publicado em 1936, a começar pelos intelectuais católicos do tipo Tristão de Ataíde e Cassiano Ricardo. Mas um show de intelectualidade cordial protagonizado por autor e leitores do livro A elite do atraso, no carnaval de 2018, motivou a mudança de planos. Explico-me: o desfile da Escola de Samba Paraíso do Tuiuti produziu da parte deles uma resposta típica de quem não conhece ou não gosta de carnaval, nem sabe como se produz um desfile, mas leu o livro. Imediatamente surgiu entre eles a lenda urbana de que o carnavalesco da Tuiuti se baseara nele, que entretanto foi publicado em setembro de 2017. Seu autor, nitidamente envaidecido pela reação de seu fã-clube, aderiu sem qualquer precaução à tese e tratou de dar entrevistas a respeito, sem esconder que promovia a própria obra. Mas bastaria que algum daqueles entusiasmados se desse ao trabalho de consultar o site da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (LIESA) para verificar que o título não consta da bibliografia que acompanha a sinopse do enredo da Tuiuti, ou que algum conhecedor do mundo do samba os avisasse que em setembro, quando o livro saiu, o desfile já estava em fase de finalização, com coreografias em ensaios finais, as alegorias quase prontas, todas as fantasias definidas, bem como a sequência das alas e das alegorias e assim por diante. Diante deste espetáculo constrangedor, aceitamos o risco de produzir um simples esboço de caracterização do autor daquele livro. A fonte de todas as informações que seguem, não custa repetir, é o próprio livro.

O curioso desempenho linguístico do detrator da inteligência brasileira em geral vai do lugar-comum ao chocante. Neste último caso, encontra-se a exumação sem o menor senso crítico de parte da expressão extremamente grosseira criada pelo jornalista Nelson Rodrigues – complexo de vira-lata –, promovendo-a a conceito também impensado em se tratando de autoproclamado defensor dos nossos fracos e oprimidos. Não lhe ocorreu nem por um minuto que, sem falar no sentido original – vira-lata designa cachorros sem “pedigree” –, quando referida a pessoas e teorias, a palavra tem um evidente conteúdo racista? Enquanto o jornalista carioca (assumidamente preconceituoso do chapéu aos sapatos) designava uma espécie de complexo de inferioridade relacionado ao futebol (depois da célebre derrota de 1950 para a seleção do Uruguai), o nosso diatribista, com o adjetivo e seus derivados como “vira-latice” e “vira-latismo”, tenta dar foro de discurso científico a uma expressão que até o racista Nina Rodrigues repeliria horrorizado.

De matriz mais profunda e verdadeiramente popular é o emprego insistente do adjetivo “fajuto” que, embora nossos dicionários apresentem como de etimologia ignorada, tem grande possibilidade de ser uma importação do lunfardo argentino. Basta conhecer as acepções de “falluto” (pronuncia-se fajuto): falso, desleal, hipócrita, pérfido, traidor e desonesto, para estabelecer os laços fonético e semântico de família. Segundo os dicionários da língua portuguesa, a palavra significa simplesmente mal feito, mas como consequência pode significar falso ou, pior, falsificado (no caso de alguma bebida), como no lunfardo. Se era de falsificação que o autor queria falar, por que não empregou as palavras comuns do discurso científico: falacioso, falaz (mentiroso), simplesmente falso, ou mesmo falsificado? O emprego de palavras como “fajuto” é forte indicativo da definição de um público leitor: aquele mesmo que foi tão duramente criticado, a saber, a classe média que, conforme caracterizada no livro, é igualmente grosseira e superficialmente alfabetizada, além de odiar os pobres sem sentimento de culpa. Se nossa hipótese etimológica estiver correta, eis que estamos diante de um caso de burla involuntária: a desqualificação do trabalho intelectual em termos conhecidos por uma certa classe média que odeia pobres e no entanto, por simples ignorância, fala a língua do submundo do tango e da prostituição portenhos… (eis uma situação bem divertida para apreciadores de um gênero que também se caracterizou como “burlón y compadrito”…).

TEXTO-MEIO

E já que resvalamos para o terreno da galhofa, não custa destacar mais uma desatenção linguística do nosso cientista social, especialmente preocupado com o “estado atual dos conhecimentos científicos”. Em seu livro (que cobra de Raymundo Faoro atenção para “filigranas conceituais” e se apresenta como empenhado no combate a “ideias velhas”) topamos com o emprego da expressão “o sol nasce” por mais de uma vez. Se nos lembrarmos de que até a Igreja Católica já reconheceu que estava errada na condenação do heliocentrismo de Galileu (é verdade que só em 1992), está mais do que na hora de encontrar expressão mais adequada do que esta, de teor geocêntrico, para designar fenômenos naturais como alvorecer, luz do dia e outros, mesmo por parte de escritores católicos.

Indício de pouco interesse por literatura, nosso autor usa sem saber a expressão “escravos de todas as cores” criada por seu inimigo-mor – Sérgio Buarque de Holanda – no prólogo de uma peça para teatro de revista chamada Antinous. A intenção naquele trabalho era indicar que, ao contrário do discurso oficial, a escravidão persistia no Brasil dos anos de 1920 e não se restringia mais aos negros. A diferença é que o trabalho de Sérgio Buarque era um experimento literário modernista (publicado na revista Estética, da qual era um dos editores).

Pela insistência em usar palavras como demonizar, sacralizar, divinizar, satanizar e conexas do léxico cristão (católico), o autor dá consistência à hipótese de sua adesão irrestrita à doutrina social da Igreja, já referida. Esta hipótese também se fortalece na explicitação exaustivamente insistente do interesse (promovido a sociológico) pelos excluídos, desvalidos, etc., que no discurso da Centesimus annus já tinha sido promovida a “opção preferencial pelos pobres”. A novidade no livro é a sua promoção a única e original explicação para os males atuais do Brasil enquanto “permanência da escravidão” em formas ainda mais perversas (o Autor diria satânicas) do que as do tempo da escravidão propriamente dita, por não ser reconhecida como tal.

Até aqui tratamos de explicitar alguns aspectos do desempenho linguístico do nosso autor, mas talvez as omissões sejam ainda mais eloquentes para a caracterização do seu perfil intelectual. Muitas vezes o que não é dito ajuda a compreender inconsequências, contradições e petições de princípio, entre outras inconsistências verificáveis no que está escrito.

De todas as omissões, a mais clamorosa – em se tratando de bacharel em direito – é a supressão (afirmada várias vezes) do Estado português na condução dos negócios da colônia brasileira por métodos necessariamente patrimonialistas, na medida em que os patriarcas, de que Gilberto Freyre tratou e que aqui se instalaram, estavam a serviço do rei, o detentor do patrimônio colonial como um todo. Uma vez suprimida esta determinação maior, ficam sem esclarecimento as razões da adoção do trabalho escravo – primeiro dos nativos e depois dos africanos –, impensável sem a monocultura adotada por decisão do rei, como se a escravidão tivesse surgido do nada e no entanto ela é promovida a única explicação legítima para os nossos males.

Uma consequência da supressão do Estado português na definição dos nossos negócios coloniais, é a concomitante supressão do papel da Igreja, que abençoou e promoveu de modo empenhadíssimo genocídios e escravidões (chegando a definir nativos e africanos como não-gente), para não dizer nada de sua efetiva participação em todos os demais crimes da colonização, incluindo o tráfico de nativos da América do Sul para as Antilhas e de africanos para o Brasil (São Paulo de Luanda era um entreposto de embarque de africanos escravizados sob o controle dos jesuítas).

Uma terceira consequência da omissão do papel do Estado na configuração do Brasil contemporâneo leva nosso autor (um bacharel em direito!) a simplesmente ignorar uma das funções do Ministério Público tal como definida na Constituição “cidadã” (Art. 129, III): promover o inquérito civil e a ação civil pública, para a proteção do patrimônio público e social. Desta função decorre que a investigação de atos de corrupção, que impliquem danos ao patrimônio público, seja por parte de agentes públicos, seja por parte de agentes privados, é dever daqueles funcionários públicos, constitucionalmente definido, e seguramente não depende de adesão a esta ou aquela teoria de explicação do país, como quer o nosso autor em tom ezequiélico, que só faltou chamar a Universidade de São Paulo de prostituta de estrada [2], responsabilizando-a até mesmo por alimentar o discurso da grande mídia em sua campanha antipetista e antipobres de um modo geral. E, dada a sua insistência em vincular Sérgio Buarque e Raymundo Faoro ao papel desprezível que atribui à USP na produção da “justificativa ideológica” para o conservadorismo das elites brasileiras, não custa nada lembrar que, quando escreveu Raízes do Brasil, Sérgio Buarque ainda morava e era professor no Rio de Janeiro e que, quando escreveu Os donos do poder, o gaúcho Raymundo Faoro também morava no Rio. (Mas estes são apenas detalhes geográficos sem maior importância).

Quanto aos desmandos de uma operação como a Lava Jato, com a intenção de evitar inferências apressadas, convém dar um esclarecimento preliminar, a ser desenvolvido oportunamente: entender que os funcionários do Ministério Público e do Judiciário têm o dever constitucionalmente definido de proteger o patrimônio público dos ataques por parte dos inúmeros candidatos a seus assaltantes das esferas pública e privada, não corresponde a aceitar como legítimos (nem mesmo como legais) os atos praticados ao arrepio da lei, da justiça e dos códigos penal e de processo penal vigentes. Aliás, a maioria dos atos aplaudidos pela mídia também pode ser descrita com apoio em Sérgio Buarque: seus praticantes são funcionários que tratam o Estado como se fosse coisa sua e seus atos se transformaram em questão pessoal. Em vez de justiça, dedicam-se a uma variante nacional da vendeta, como se estivéssemos em plena Idade Média. Este tipo de anomalia no exercício das funções públicas também concorre para a caracterização do homem cordial.

Para encerrar o capítulo das omissões, que está longe de ter sido exaustivo, o autor promete mais de uma vez expor o “conceito” de escravidão e não o faz, bem como o de “estoque cultural”, ainda que este último provenha da teoria de Pierre Bourdieu e o livro se demore na exposição de outros aspectos da teoria das trocas simbólicas do sociólogo francês.

Como esta amostra já contém material suficiente para exemplificar algumas das proposições presentes no excerto do livro Raízes do Brasil que introduz a figura do “intelectual cordial”, passemos a palavra ao Mestre: “a personalidade individual dificilmente suporta ser comandada por um sistema exigente e disciplinador. É frequente, entre os brasileiros que se presumem intelectuais, a facilidade com que se alimentam, ao mesmo tempo, de doutrinas dos mais variados matizes e com que sustentam, simultaneamente, as convicções mais díspares. Basta que tais doutrinas e convicções se possam impor à imaginação por uma roupagem vistosa: palavras bonitas ou argumentos sedutores. A contradição que porventura possa existir entre elas parece-lhes tão pouco chocante, que alguns se alarmariam e se revoltariam sinceramente quando não achássemos legítima sua capacidade de aceitá-las com o mesmo entusiasmo.” (Raízes do Brasil. Capítulo 6, “Novos tempos”).

Voltaremos a estes dois assuntos (intelectual cordial e A elite do atraso) em outra oportunidade. Como diriam os nossos juízes do STF, ainda não está na hora de entrar no mérito da questão…

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[1] Não custa informar que, embora seu orçamento conte com amplos fundos públicos, a Universidade de Heidelberg é administrada por jesuítas, como a nossa PUC-Rio.

[2] Aos não familiarizados com o tom dos profetas do Antigo Testamento, apresentamos alguns excertos das invectivas de Ezequiel: “Não será como antes: os humildes serão exaltados e os exaltados serão humilhados” (21: 26); “O povo da terra pratica extorsão e comete roubos; oprime os pobres e necessitados” (22: 29); “Ela se entregou como prostituta a toda a elite dos assírios” (23: 7); “Que agora a usem como prostituta, pois isso é tudo o que ela é” (23: 43).

TEXTO-FIM
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Iná Camargo Costa

Professora aposentada da FFLCH da USP, é autora de vários ensaios e livros sobre o teatro brasileiro e reconhecida pesquisadora sobre a obra de Bertolt Brecht. Militou em vários grupos de teatro de São Paulo; é assessora da Coordenação de Cultura do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).