Cachaça, musa maldita

Na obra de Guimarães Rosa, a cachaça como elemento essencial da cultura do Grande Sertão

“Outras Palavras” convida para encontros sobre Literatura Brasileira e a bebida nacional mais típica. Ela mistura-se com nossa cultura – por isso, o pensamento colonizado a desdenha

Por Maurício Ayer


MAIS:
Literatura Brasileira e Cachaça

> Em 3/3, às 16h, José Lins do Rego – Por dentro do engenho
R$ 88 (R$ 44, para participantes de
 Outros Quinhentos) — Cachaça e petiscos inclusos
Inscrições aqui: https://goo.gl/QFxs7V

A cachaça está na história do Brasil há pelo menos quatro séculos e, no entanto, ainda há muito o que aprender sobre ela. Pode-se inverter essa proposição e entender que, se a cachaça participa da vida do povo brasileiro há tanto tempo, é bem possível que ela possa nos ensinar muita coisa sobre nossa cultura, nossa história, nossas subjetividades. Pensando nisso, resolvi me dedicar a pesquisar como a cachaça aparece na literatura brasileira e refletir sobre o que ela revela. Ao mesmo tempo, degustar algumas das melhores cachaças produzidas hoje em dia, com a convicção de que o paladar ensina muito e em um nível que outros sentidos não alcançam.

Certamente, pagamos um preço por não conhecer bem a história da cachaça. Por exemplo, há quem afirme que o Brasil viveu um ciclo econômico da bebida, entre a crise do açúcar após 1654 – quando os holandeses, expulsos de Pernambuco, vão se instalar e produzir açúcar no Caribe – e o início da exploração do ouro em Minas Gerais, já no alvorecer do século 18. Nesse período, a cachaça ajudou muito a segurar economicamente os engenhos, por ser produto muito valorizado nessa era de grandes navegações. Mas quem aprendeu isso na escola? Será que o problema é falar de uma bebida alcoólica para crianças? Mas será que, ao falar de sua cultura e história para as crianças, os italianos e franceses omitem o vinho; os japoneses, o saquê; os escoceses, o whisky?

Será que ainda é um tabu falar seriamente de cachaça? Lembrando que seriedade não é tristeza; falar sério é falar com consistência, procurando fundamentos, dados, análise. E para isso não é preciso deixar de lado a alegria, o afeto, o humor que, fatalmente, participam do universo da cachaça.

Enquanto isso, muitas são as lendas – quando não mentiras deslavadas – a respeito da cachaça. Ao circular, distorcem e falseiam a compreensão sobre nossa cultura. Quem nunca recebeu pelo Whatsapp ou Facebook a história de que a cachaça seria uma invenção acidental de escravos, que teriam deixado azedar o melaço da cana e, para fugir do castigo do feitor, tentaram fazer açúcar no tachão assim mesmo? O resultado teria sido produzirem cachaça, que evaporou, condensou nas telhas e pingou lá de cima – por isso, a “pinga” – nas costas desses trabalhadores compulsórios, fazendo arder as feridas abertas em castigos físicos prévios – por isso “aguardente”. Essa bobagem não tem pé nem cabeça, não tem qualquer fundamento histórico nem técnico, restando tão somente um certo substrato ideológico.

TEXTO-MEIO

Que substrato? O de que cachaça, por ter sido durante um período associada às pessoas miseráveis, seria coisa de escravos, como uma maneira de depreciá-la; também que os escravos criam coisas por acidente – ainda assim geniais, veja só. É certo que os negros escravizados e, depois, trabalhadores livres participaram da evolução da cachaça, mas não é essa a questão: a lenda reafirma a ideia de que as nossas melhores coisas fossem fruto do puro acaso, nós brasileiros seríamos algo assim como geniais incompetentes. Ressoa a velha anedota de que o Brasil surgiu de um erro – suas boas coisas não podem ser fruto de um projeto deliberado, inteligente, criativo, empreendedor, em função de forças históricas que as tornaram possíveis e, até, necessárias.  

Rever ponto a ponto essa lenda urbana nos devolve um pouco à lucidez (às vezes é bom, mesmo quando o assunto é giribita). A primeira questão, claro, é que não se cria um destilado assim por acidente, ainda mais quando a tecnologia da destilação era uma coisa dominada pelos europeus e árabes muitos séculos antes de os portugueses toparem com as Américas. Eles mesmos já produziam seus destilados. Tinham a bagaceira, feita a partir da fermentação do bagaço da uva usada para produzir vinho (processo semelhante ao da grappa italiana), e a chamada aguardente vínica, a partir da fermentação de um vinho doce (processo parecido com o do cognac francês).

Um fermentado pode ser descoberto por acaso e depois aprimorado, mas um destilado não. A produção deste requer equipamento especializado: um destilador – um deles é o alambique, por exemplo –, cuja origem remonta à Grécia antiga, mas que permaneceu conhecido entre árabes e alquimistas ao longo da Idade Média. Várias bebidas destiladas foram criadas antes do século 16, como o whisky e a vodca, e são portanto mais antigas que o próprio Brasil. Então, dentre todas as incertezas que temos a respeito da origem da cachaça, podemos excluir uma: a cachaça não foi produzida por acaso, mas sim fruto de um ato intencional e deliberado pelos portugueses, usando alambiques – de barro? de metal? – trazidos em navios da Europa. Sem alambique, o álcool evapora e dispersa no ar. É evidente, não? Mas muita gente propaga a historinha pelas redes sociais.

Aí vêm as lendas sobre as palavras que nomeiam essa bebida. O próprio nome cachaça é de origem controversa. Não se sabe ao certo em que momento surgiu e passou a ser usado para denominar o destilado brasileiro. Há registros, ainda no século 18, de que nomeava a espuma do caldo de cana fermentado, nada muito elogioso… Segundo o antropólogo e folclorista Luiz da Câmara Cascudo, no seu Prelúdio da Cachaça e na História da Alimentação no Brasil, a palavra designava o vinho de borras já no século 16, mas, embora usada em Portugal, tinha origem espanhola e por isso havia alguma resistência a ela, pois soava estrangeirismo.

Vamos ao que diz a historinha mequetrefe, pois ela vai nos levar a um ponto interessante nessa convergência de conhecimento entre literatura brasileira e cachaça. A começar, aguardente: é uma palavra antiquíssima! De origem latina: acqua ardens, a água que queima, a água que contém o fogo – numa mágica fusão de elementos alquímicos opostos. Trago aqui um trecho citado por Câmara Cascudo:

O erudito A. da Silva Mello, [no livro] Alimentação, Instinto, Cultura […] ensina: ‘Os próprios vinhos concentrados, citados por velhos autores gregos, não deviam ser mais ricos em álcool, porque sua maior concentração era obtida à custa de aquecimento, de calor, que fazia evaporar boa parte do álcool, substância muito volátil. Foi somente no século 8 que Marco Graeco conseguiu obter uma bebida concentrada, por ele denominada acqua-ardens, e que provinha da destilação do vinho. Mas tal descoberta deve ter tido pouca repercussão, pois não foi senão pelo século 13 que começou seu uso a se generalizar, então sob o nome de acqua-vitae e espírito de vinho’.

Vitae, “da vida”, substituiu ardens, ou o ardor, o fogo. A “água da vida” seria então a água que traz a chama acesa, capaz de intensificar a vida, animar – dar alma, espírito. Sabe-se que a palavra “whisky” tem esse mesmo significado na origem: água da vida. Então a primeira denominação da cachaça é aguardente, porque já havia a aguardente em Portugal, a bagaceira; cachaça passou a ser a “aguardente da terra”, por oposição à “aguardente do reino” (ou “de fora”).

Pinga é uma palavra muito posterior, também de origem não totalmente identificada como sinônimo de cachaça. Fala-se que deve-se ao fato de, no alambique, o líquido destilado “pinga”. Poderia ser, mas a imagem tampouco é muito precisa, pois no alambique o destilado escorre, não pinga. E não é raro alguém, em conversa de bar, fazer uma distinção de qualidade da seguinte ordem: “Isso é cachaça de verdade, não aquelas coisas que vendem em bar, aquilo lá é pinga”. Nessa oposição, a palavra pinga serve para designar bebidas de produção industrial, que não usam alambique mas sim os chamados destiladores de coluna – ou colunas de destilação. E aí, como é que fica a história de que pinga tem esse nome porque o alambique pinga, se agora a gente chama de pinga justamente aquilo que não é feito em alambique? Tem alguma coisa que não fecha.

Para chegar logo ao ponto, gostaria de trazer um caso literário. Num romance intitulado Maurício ou Os paulistas em São João del Rei, de 1877, do final Romantismo brasileiro, o escritor mineiro Bernardo Soares descreve uma cena em que as pessoas entram em uma casa para tomar “uma pinga”:

“– Brucho!?? esta bem?… entrem que está fazendo frio… tomemos uma pinga e conversemos de portas a dentro… hoje em dia os negocios não estão de se facilitar…” (p.180)

A seguir, percebe-se que, ao contrário do que hoje poderíamos supor, a partir de nosso vocabulário de hoje, não é cachaça o que estão tomando, mas sim um “vinho zurrapa”.

Entrárão os emboabas, que erão quatro, e mar cotando broa fria com vinho zurrapa, conversavão sobre o caso.” (p.181)

Vinho zurrapa” não seria mais uma denominação de cachaça? Não, é um vinho vaabundo mesmo. Isso se confirma mais adiante no mesmo livro, pois numa expedição na mata um português leva um cantil com “agoardente”.

“– Se ainda temos caminhada como esta, que até aqui temos aguentado, ah! meu bugre velho, furo-te esses olhinhos de vibora! – rosnou outro arrojando aos olhos do bugre um resto de agoardente, que acabava de beber.” (p.267)

Então o que se percebe é que a “pinga” neste livro designa “um copo”, um gole – ou seja, uma quantidade, sem especificar a bebida. Pode-se então supor, como hipótese, que em um período da história se entrava em uma venda para pedir “uma pinga” e que, como a aguardente era o padrão, essa pinga era de cachaça. A “pinga de cachaça” teria evoluído para pinga apenas, querendo dizer cachaça. Como quem diz “vou tomar dois dedinhos”. Pode-se afirmar isso com certeza? Ainda não, mas temos uma boa hipótese. Cabe pesquisar e confirmar.

A citação de Bernardo Guimarães é um exemplo que mostra como a literatura pode ensinar sobre cachaça. Por certo que há muito mais sentidos implicados nos trechos citados. De fato, cada livro propõe muitas descobertas nesse cruzamento entre literatura e cachaça.

Guimarães Rosa, por exemplo. Ao longo de toda a sua obra, a cachaça aparece, por ser “personagem” de uma sociedade, de uma paisagem, seja como parte da hospitalidade do sertanejo, seja como produto que circula entre vaqueiros e tropeiros. Mas aí nos deparamos com uma história como “Meu tio, o Iauaretê”, em que a cachaça tem um papel central. Serve, aliás, para nos fazer repensar simbolicamente o encontro fundador de brancos e índios, que se repete tragicamente no decorrer da história do Brasil – cite-se o episódio emblemático do Anhanguera, o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, que teria queimado aguardente diante dos índios para mostrar-se como um poderoso mago capaz de pôr fogo em água. Mas Guimarães Rosa vai muito além, e cose referências da tradição cultural europeia ao mesmo tempo em que cria uma panela de fermentação e destilação de uma nova língua; ao ponto de ser considerado este texto, segundo Haroldo de Campos, aquele em que o autor mineiro levou mais longe sua experimentação com a linguagem.

Ou se falarmos de Jorge Amado – não falta cachaça no cais do porto da Bahia, ou em Ilhéus ou por toda parte onde ele situou suas histórias, e isso obviamente aparece nos textos. Mas em um livro como A morte e a morte de Quincas Berro D’água, a cachaça assume um papel simbólico totalmente distinto. Ali a aguardente renasce como água da vida, elemento que participa da abertura dos portais entre a vida e a morte, evidentemente não sem evocar a tradição das religiões afrobrasileiras, em que a cachaça é ofertada a Exu, que abre aos homens os caminhos para o plano dos orixás.

É assim que esta pesquisa dos cruzamentos entre Literatura Brasileira e Cachaça está acontecendo há alguns anos – e sem hora para acabar, pois há um universo imenso a ser percorrido. Foram selecionados 11 autores, de maneira até um tanto arbitrária, pois há dezenas de outros e de obras que poderiam ser abordados e que deverão sê-lo no futuro. Esta é, digamos, a primeira temporada de uma longa viagem lítero-cachacística.

Cada região do Brasil produziu grandes autores, o que faz de nossa literatura uma das mais ricas e diversas do mundo. Nesse aspecto, o paralelo com a própria cachaça é evidente. Nenhum destilado do planeta é tão diversificado como a nossa aguardente, fruto dos distintos processos históricos de ocupação do território e de uma relação profícua com a natureza local. Assim, a aguardente que surge nos engenhos de Pernambuco e Bahia no século 17 não é a mesma que se formou pelos caminhos do ouro no século 18, ou mesmo aquela que os tropeiros levaram ao sul do país e que depois adquire novas peculiaridades com a influência de imigrantes italianos e alemães.

Ao longo da história, a cachaça desdobrou-se em uma multiplicidade de estilos, com o uso de dezenas de madeiras de envelhecimento na confecção de seus tonéis, de modo que sua diversidade só tem paralelo no mundo dos fermentados, como o vinho e a cerveja. Ao abordar a literatura de autores tão diferentes quanto José Lins do Rego e Mário de Andrade, Cecília Meireles e Antonio Callado, temos um bom pretexto para conhecer cachaças que possam ser evocadas por essas leituras, e apreciadas em sua especificidade.

É bom lembrar que, nos últimos 30 anos, e com muita intensidade nos anos recentes, a cachaça vem passando por uma verdadeira revolução. Muitas marcas e rótulos novos surgem, aprimorando sua qualidade e inovando na produção, na apresentação e no serviço. Pode-se dizer que hoje a cachaça é muito diferente do que era pouco tempo atrás – está melhor, ainda mais diversa, mais altiva, mais consciente de seus processos. 

Aliás, há toda uma cena da coquetelaria brasileira em ebulição, na qual a cachaça vem sendo francamente revalorizada. Além, claro, de sommeliers e sommelières, pesquisadores e pesquisadoras, especialistas de diversas áreas, que têm dado uma contribuição enorme em várias frentes. Então, uma das ideias desses encontros é também que se possa conhecer uma amostra da produção contemporânea de cachaça, entendendo o “contemporâneo” como a convivência entre tradição e inovação, entre produtores consagrados, antigos, e os novos que chegam injetando oxigênio e inventividade nesse universo. 

Como serão os encontros? Acho que o trecho a seguir de José Lins do Rego, o primeiro dos autores da série, dá uma ideia do que vamos ter:

Na destilação, como nas farmácias do interior, os moradores se encontravam em conversa. O estribeiro, alguém que viesse em visita ou a negócio, o destilador João Miguel, e a palestra pegava, devagar, no manso, sem uma palavra mais alta, mas com gargalhadas de estrondo. João Miguel era branco, sabia ler e tinha com ele sempre as histórias de Antônio Silvino, lendo para os outros. – José Lins do Rego, Banguê.

Gostaria que os nossos encontros acontecessem como essa reunião informal ao lado do alambique que o escritor paraibano descreveu. Pessoas que se encontram pelo prazer de conversar, compartilhar leituras e histórias, e rir juntas, tudo em torno da cachaça.

Não será preciso ler os romances antes de cada encontro, embora, claro, quem tiver feito essas leituras poderá aproveitar mais. Vamos ler trechos das obras, com destaque para aquelas em que aparece a cachaça, e conversar a respeito para entender esses trechos em perspectiva, saboreando a poética de cada autor, mas também os possíveis desdobramentos simbólicos de cada obra. Para quem ainda não leu, o encontro funciona como uma introdução; para quem já leu, é uma apreciação especial a partir de certa perspectiva.

E vamos degustar cachaças, pelo menos duas que possam evocar conexões com o autor ou a obra em questão, e às vezes mais uma “infiltrada”, trazendo um tempero de outra região, com outras características.

A seguir, uma apresentação resumida da série e de cada um dos encontros.

Sejam [email protected] [email protected]!

Encontros de Literatura Brasileira e Cachaça

Resumo

De Sul a Norte, cada região do Brasil gerou literatura e aguardente da melhor qualidade. A proposta dessa série de encontros é se colocar algumas perguntas: Como a cachaça aparece em autores e obras fundamentais da literatura brasileira? O que isso revela sobre nossa cultura e nossa história? E quais são os lugares simbólicos da caninha?

Por outro lado, será que ao conhecer melhor a cachaça a gente não entende melhor a cultura e a literatura também?

Temporada 2018: 11 autores e mais de 25 cachaças

03 de março

José Lins do Rego: Por dentro do engenho

Memorialista da zona canavieira da Paraíba, José Lins do Rego nos faz imergir na paisagem cachaço-açucareira do Nordeste, principalmente no seu Ciclo da Cana-de-Açúcar, que vai de Menino de Engenho até Usina. Já no Ciclo do Cangaço, com Cangaceiros e Fogo Morto, por exemplo, surge uma figura especial: é o aguardenteiro – o contrabandista de aguardente. Junto com os barris de cachaça, ele faz circular informações, alimentos, roupas e outros produtos entre o engenho, a cidade e o sertão dominado pelos capitães do cangaço.

Leituras: Menino de Engenho; Banguê; Fogo Morto; Cangaceiros.

Degustação: Aguardentes da Paraíba.

25 de março

Graciliano Ramos: Em Busca da Aguardente Perdida

As figuras da cachaça em Memórias do Cárcere, livro em que Graciliano Ramos relata sua vivência como preso político do governo Vargas em Alagoas, Pernambuco, Rio de Janeiro e finalmente na Colônia Correcional da Ilha Grande, são realmente surpreendentes. A cachaça aparece logo no início, encharcando noites de escrita do autor. Depois ela ressurgirá, contrabandeada para dentro das prisões, e a cada momento proporciona ao escritor alagoano uma abertura para algum tipo de liberdade – da imaginação, da memória, dos comportamentos obsessivos. Como é isso?

Degustação: Cachaças de Alagoas e Rio de Janeiro.

 

15 de abril

João Cabral de Mello Neto: A Lição do Canavial

João Cabral encontra aprendizados nas coisas. No canavial também. São vários os momentos de sua poesia em que ele observa o canavial, seu comportamento, seu movimento, sua metafísica, e coloca seus aprendizados em palavras pontiagudas como pedras. O sentido dessas destilações será nosso objeto de leitura e reflexão neste encontro.

Degustação: cachaças de Pernambuco e Paraíba.

12 de maio

Chico Buarque – Ninguém segura esse rojão

A cachaça é uma presença recorrente nas canções de Chico Buarque. Chico canta a branquinha para falar da pobreza, da dureza, da malandragem e até de economia política global. Este último é o caso da canção O Malandro, abertura da peça Ópera do Malandro e adaptação de uma canção de Kurt Weil e Bertolt Brecht: do malandro que dá um calote numa dose de cachaça, Chico analisa toda a “cadeia alimentar” dos tubarões do capitalismo mundial, quase como uma charge cantada. Mas em outras canções clássicas como Construção, Deus lhe Pague, Feijoada Completa e Meu Caro Amigo, entre muitas outras, a cachaça vem participar de crônicas densas, alegres, irônicas ou trágicas, sobre personagens do Brasil a partir do final dos anos 1960.

Degustação: cachaças de São Paulo, Minas e Rio.

16 de junho

Cecília Meireles: Cachaças Inconfidentes

No Romanceiro da Inconfidência, Cecília Meireles canta em versos a Inconfidência Mineira. Sabe-se que a cachaça foi assumida pelos inconfidentes como um símbolo nacional – em oposição ao vinho português. Acontece que a cachaça que o alferes Tiradentes tomava ainda hoje é produzida, no mesmo alambique, em Coronel Xavier Chaves.

Degustação: Cachaças das cidades históricas de Minas Gerais.

14 de julho

Antonio Callado: De Palcos e Pileques

Em cena, um dramaturgo é cobrado quanto a um velho compromisso: escrever um texto que retrate o evento histórico da Revolta da Cachaça, que teve como herói um negro, para que seu velho amigo, um ator negro, possa finalmente encenar o papel principal da peça. A cachaça e sua história dão ensejo, portanto, à discussão do lugar do artista negro no teatro e cinema nacionais. Vamos ver como isso acontece e que cena é essa imaginada com um grande barril no centro do palco. O texto de A Revolta da Cachaça é dedicado ao ator Grande Otelo.

Degustação: Cachaças do interior do Rio de Janeiro e sul de Minas.

11 de agosto

João Guimarães Rosa: A Cachaça e o Labirinto da Língua-Fera

Se a presença da cachaça perpassa toda a obra de Guimarães Rosa, há uma de suas estórias que tem a cachaça como um elemento central. É “Meu tio, o Iauaretê”, publicada no livro póstumo Estas Estórias. A cachaça é a “abrideira” do labirinto da linguagem e torna as personagens suscetíveis a revelações e metamorfoses as mais surpreendentes. A estória é descrita por Haroldo de Campos como aquela em que Guimarães levou mais longe a aventura da linguagem, e é justamente neste ponto que a cachaça age, pontuando ritmicamente o textos e provocando uma crescente liberação da fala até o rugido da onça.

Degustação: Cachaças do norte de Minas Gerais.

15 de setembro

João Bosco e Aldir Blanc – Glória à cachaça

Da lírica mais louca à crônica mais pé no chão, incluindo peças inspiradas em episódios históricos, a dupla João Bosco e Aldir Blanc produziu (sobretudo) sambas em que a cachaça aparece com frequência, participando da construção de símbolos ou como elemento de humor na narrativa. Assim, de um bêbado simbolizando a “esperança equilibrista”, aos delírios alegórico-carnavalescos de boias-frias quando tomam umas biritas, da cachaça que ajuda na pescaria à sina de negros aquilombados, há todo um cancioneiro cachaceiro no repertório de uma das maiores duplas de compositores da MPB.

Degustação: cachaças de Minas Gerais e Rio de Janeiro.

20 de outubro

Jorge Amado: Cachaça, Água da Vida e da Morte

No cais do porto da Bahia de Todos os Santos circula muita cachaça. É até estranho que nas canções praieiras de Dorival Caymmi a aguardente não apareça – talvez ele não quisesse desviar o foco de suas sínteses arquetípicas, construídas no embate do homem com o mar, com trivialidades cotidianas. Jorge Amado, porém, conseguiu encontrar o lugar em que a cachaça se eleva à posição mítica das canções de seu amigo. Em A morte e a morte de Quincas Berro D’água, a cachaça adquire plenamente o estatuto de “água da vida”: ela cria um mundo de trânsito entre a vida e a morte, no qual o protagonista faz valer suas escolhas essenciais.

Degustação: Cachaças da Bahia e Espírito Santo.

10 de novembro

Mário de Andrade: Interessantíssimas Cachaças no Macunaíma

Em forma de rapsódia, Mário de Andrade compôs Macunaíma com materiais diversos da cultura brasileira, como estórias, lendas, personagens e cenas típicas. A cachaça surge como elemento importante em dois episódios bem brasileiros – como bebida ritual e companheira do matuto. E o que é que isso diz dessa obra tão multifacetada?

Degustação: Cachaças do interior de São Paulo.

8 de dezembro

Ary Barroso e amigos – Na batucada da vida

Além de seus mais famosos sambas exaltação ao Brasil e seu povo, como o quase hino nacional Aquarela do Brasil, Ary Barroso compôs canções em que a cachaça tem um papel especial. São densas descrições de personagens e situações, como em Na batucada da vida, Camisa listrada e Camisa amarela. Mas ele não está só: Assis Valente, Lupicínio Rodrigues e Noel Rosa, entre tantos outros compositores populares brasileiros, criaram um vasto cancioneiro cachaceiro, do qual vamos conhecer algumas doses.

Degustação: cachaças de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e São Paulo.

TEXTO-FIM
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