O diálogo ferrenho entre local e global

Tradição e “ocidentalização” se mesclam nos rituais do povo Owambo, da Namíbia, que troca as colinas de areia pelos bares como forma de resistência cultural

Por Flora Pereira e Natan de Aquino, do Projeto Afreaka

Se, no passado, as festas do povo Owambo eram celebradas durante as luas cheias, quando todas as meninas e meninos corriam para as colinas de areia e performavam músicas e danças, hoje o ciclo das comemorações tomou outras formas, e entre elas nada mais comum, por exemplo, do que uma ida ao bar de sexta-feira. Na África, a tradição e a ‘ocidentalização’ (ou globalização) contrastam e se mesclam.

Apesar de permearem histórias e contos populares e se perpetuarem de geração em geração, muitas das práticas tradicionais já não existem. Isso mais por causa do ritmo que exige a vida contemporânea do que por qualquer outra fábula e estereótipo. Como nas outras partes do mundo, na Namíbia, global e local estabelecem um ferrenho diálogo. E os Owambos, por constituírem 50% da população do país, bem exemplificam essa dualidade.

Se durante todo o ano o bar marca o lugar-comum, é o enraizado Festival da Marula a principal, e também a favorita celebração entre os Owambos – e, acredite, é festa para não se aguentar mais. O início do festejo é em janeiro, e começa assim que a primeira marula (fruto típico da região) madura na árvore, ato que no passado, antes da implementação do calendário ocidental, significava também a chegada do ano novo. Para o início oficial da festa, o rei deve dar o primeiro gole da primeira bebida produzida. Se ele aprovar, é dada a largada para ‘apenas’ três meses de comemoração interrupta.

Durante o período, algumas regras especiais: nenhum caso judicial pode ser julgado e ninguém pode andar armado. O motivo? As pessoas não estão em condição para tal, uma vez que a bebida alcoólica feita com a marula deixa o mais resistente dos beberrões de pernas bambas. O drink é uma versão bem mais forte do que a Amarula que conhecemos no Brasil. O ‘suco intoxicante’, como é conhecido localmente, é caseiro e produzido todos os dias durante o período da manhã para ser consumido durante a tarde, até o fim da temporada de festas.

Mas, rebobinando um pouco a fita: nenhum caso pode ser julgado? Oi? Acontece que entre os Owambos existem oito reinados, e apesar de toda a população seguir a leis da constituição atual do país – que, aliás, é presidido por um Owambo -, os cidadãos ao mesmo tempo seguem as leis de seus respectivos reinados, que possuem cada um a própria corte judicial.

O festival, por exemplo, acontece dentro do estado do povo Owambo Uukwaluudhi, governado pelo Rei Tatekulu Josia Shinkongo Ambo, que dentro de sua jurisdição é o responsável por lidar com casos civis e criminais, assim como por reforçar a ordem e as leis tradicionais, tais como cultivo de terras, heranças, colheitas, pescas e qualquer outra atividade de importância cultural para a etnia.

A apreciação de um bom prato de Pap, um purê grosso feito de mielies, espécie de milho típico do sul da África, é outro exemplo de tradição tão forte quanto o Festival da Marula. E não há concorrência que faça com que a Pap deixe de ser a comida mais apreciada entre a população local. Inclusive, um dos maiores símbolos da globalização, os fast foods da vida – que não faltam no país – foram obrigados a adaptar o cardápio incluindo a iguaria entre as suas opções.

A dualidade entre tradicional e globalizado, coesa entre os Owambos e em outras populações originais africanas, ultrapassa a ideia de passado e presente, abraçando mais pertinentemente duas discussões: a primeira seria sobre a religião, sendo a conversão ao cristianismo a razão de muitas mudanças de hábitos e costumes, como na indumentária e nas relações matrimoniais. A segunda questão é o contexto rural e urbano, uma vez que muitas tradições remetiam a uma conjuntura rural, que vai se esvaindo por todo o continente, para uma população que se concentra cada vez mais em zonas urbanas. Manter as raízes, comer pap todo o dia, dançar ao som do Festival de Marula, prestar uma visita ao Rei ou recorrer à corte do governo local são exemplos da força de uma cultura que não está desaparecendo, apenas se adaptando ao contexto contemporâneo.

 

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