Tortura na Volks: Ministério Público começa a investigar

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Lúcio: 47 dias sequestrado, sem que qualquer membro de sua família fosse avisado de sua localização ou do “crime” de que era acusado

Ex-metalúrgico espancado pelo DOPS no interior da empresa, durante a ditadura, presta depoimento. Que escolherá a multinacional: abrir arquivos ou tentar obstruir apuração?

Por Gabriel Dayoub* e Cláudia Costa**

O ex-metalúrgico da Volkswagen Lúcio Bellentani (71) prestou depoimento nesta manhã no Ministério Público Federal (MPF) como testemunha na representação aberta contra a empresa por colaboração com a repressão durante a ditadura civil-militar brasileira. O depoimento de Lúcio foi o primeiro a ser colhido pelo MPF.

Bellentani começou a trabalhar na Volkswagen em setembro de 1964, na fábrica de São Bernardo do Campo. Apesar das grandes dificuldades postas pela empresa para a atuação política no ambiente de trabalho, com várias formas de intimidação dos funcionários, tornou-se militante sindical e membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

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Em 16/12/2015, Ministério Publico ouve o depoimento de Lúcio

Em 28 de julho de 1972, Lúcio foi preso dentro da empresa, enquanto trabalhava. No momento da prisão havia dois seguranças fardados da Volks, dois seguranças a paisana e três policiais do Dops, segundo o depoente. Na documentação investigada no Arquivo do Estado, entregue ao MPF, consta apenas “preso para averiguações à disposição da Ordem Social”.

“Fui levado para o Departamento Pessoal e levei socos, murros, me espancaram lá dentro”. Quando o metalúrgico foi torturado dentro do Departamento Pessoal da empresa estavam na sala o coronel Adhemar Rudge, que era chefe de segurança da Volks, seguranças da empresa e os policiais do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) que o torturaram naquele momento.

Depois do episódio, 12 outros trabalhadores da empresa foram presos. Ao chegarem ao Dops, cada um deles foi acareado com Lúcio, após uma sessão de tortura, na tentativa de que fossem reconhecidos como militantes “subversivos”.

O metalúrgico passou 47 dias sequestrado, sem que qualquer membro de sua família fosse avisado de sua localização ou do crime que era acusado de cometer. Lúcio relata que sua esposa foi várias vezes à Volkswagen para perguntar sobre a sua localização, sem nunca ter nenhuma resposta. Apenas depois de dizer à empresa que acionaria o seguro-desemprego é que foi informada que o marido estava no preso no Dops.

Bellentani conta as torturas que sofreu. “Me colocavam no pau de arara, enfiavam fio no canal do pênis, chutes e socos nas costelas”. Em uma das vezes, um dos torturadores disse que enquanto ele estava lá, a esposa o estava “corneando”. “Acertei um soco nele e apanhei muito, fiquei uma semana com os companheiros me dando comida na boca, fiquei todo roxo”, relembrou emocionado.

A representação denunciando a atuação da Volkswagen durante a ditadura foi encaminhada ao MPF Fórum de Trabalhadores e Trabalhadoras por Verdade, Justiça e Reparação e é assinada por todas as centrais sindicais, presidentes de comissões da verdade municipais, pela Comissão Estadua da Verdade – Rubens Paiva e por personalidades ligadas ao tema, como a ex-membro da Comissão Nacional da Verdade, Rosa Cardoso.

Durante as investigações promovidas pelo Fórum comprovou-se que a empresa havia montado um sistema de vigilância fortemente articulado ao Dops, com repasse de informações ao órgão que permitisse monitorar os trabalhadores e conter a organização do movimento operário.

O depoimento de Lúcio foi o primeiro a ser colhido pelo MPF e faz parte do procedimento instaurado pela instituição para avaliar as denúncias sobre a atuação da empresa. Além do Procurador Pedro Machado, responsável pelo caso, estiveram presentes Marlon Weichert, também Procurador da República, Eduardo Valério e Beatriz Helena, ambos membros do Ministério Público Estadual. Também acompanharam a entrevista dois advogados da Volkswagen, que permaneceram calados durante todo o tempo.

Com o andamento das investigações, resta à empresa decidir qual será sua postura nos próximos meses: se irá colaborar com a pesquisa, disponibilizando documentos e não obstruindo a reconstituição de um capítulo importante da ditadura civil-militar, ou se continuará com postura intransigente frente às acusações.

* Estudante de Direito e colaborador do Forum dos Trabalhadores pela Verdade, Justiça e Reparação

** Jornalista da CSP-Conlutas

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2 comentários para "Tortura na Volks: Ministério Público começa a investigar"

  1. Anders Bateva disse:

    Tem um “no” a mais nesse trecho: “o marido estava no preso no Dops”.

  2. Anders Bateva disse:

    Faltou um “l” aqui: “Comissão Estadua da Verdade”.

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