“Recuperação” econômica segundo a Folha de S.Paulo

pipocaComo a mídia conservadora comemora o fim do emprego formal e vê, no carrinho de pipoca, um elemento estruturante para o fim da crise

Por Artur Araújo*

A Folha de S.Paulo, cumprindo seu papel histórico de arauto da modernidade fashion e excludente, nos entusiasmou no último domingão (7/1).

No texto de sua primeira página, narra com fervor: “Marmitas na calçada e sanduíches na praia ajudaram quase 250 mil brasileiros a deixar o desemprego no último ano. (…) O avanço desses ambulantes correspondeu a cerca de 11% da geração de vagas de emprego informal (sic), que sustentam a melhora do índice,  no trimestre encerrado em outubro”.

Na reportagem interna, mais vibração:

“Esses trabalhadores estão por toda parte. Vendem sanduíches na praia ou bombons em porta de faculdades. Carregam caixas de isopor com marmitas na calçada de empresas no intervalo do almoço. Montam barracas pela manhã para vender café com leite em locais de grande fluxo, como portas de hospitais ou terminais de ônibus.”

É instigante imaginar o futuro dessa “economia do empreendedorismo”, com o rapaz do cachorro-quente fazendo escambo com a tia do bolo de fubá, porque demanda efetiva e monetizada, nome sofisticado para comprador com dinheiro no bolso, é detalhe ausente do modelito Frias.

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*Artur Araújo é administrador hoteleiro, consultor em gestão pública e privada e do Projeto Cresce Brasil, liderado pela Federação Nacional dos Engenheiros (FNE)

TEXTO-FIM

Agenda: Mulheres, Comunicação e Violência

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Nesta quinta, em São Paulo, um debate sobre o papel feminino num universo ainda dominado pelos homens e pelo preconceito

Por Artigo19


Mulheres de Expressão: Violência e Comunicação
Quinta-feira, 10/3, às 19h
Rua Maria Antonia, 294, São Paulo

Para discutir a condição da mulher nos meios de comunicação de hoje, a Artigo 19 e o InternetLab organizam nesta quarta-feira (10/3) o debate “Mulheres de Expressão: Violência e comunicação”. O evento ocorre a partir das 19h no Centro Universitário Maria Antonia, em São Paulo.

As convidadas Ana de Freitas (jornalista do Nexo Jornal), Gizele Martins (comunicadora comunitária da Maré), e Stephanie Ribeiro (escritora e ativista feminista negra) contarão suas experiências, dificuldades e desafios que enfrentam como mulheres que atuam no campo da comunicação. Mariana Valente e Natália Neris comentarão resultados de uma pesquisa que estão conduzindo no InternetLab sobre violência contra a mulher no ambiente online, e as respostas que o direito oferece. A mediação será de Paula Martins, diretora da Artigo 19.

Entre os principais pontos de discussão, estarão temas como a participação da mulher na velha mídia e na comunicação popular, a violência on-line e a forma como a mulher é retratada na mídia.

O debate “Mulheres de Expressão” ocorre na semana do Dia Internacional da Mulher, celebrado no dia 8 de março.

 

Pós-carnaval e Outros Quinhentos

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Num mundo em transe, duas notícias singelas, que confirmam nossa aposta em fazer jornalismo de profundidade estimulando novas formas de estar no mundo e produzir

Por Antonio Martins, editor de Outras Palavras

Saímos há pouco do túnel de cinco dias a que chamamos Carnaval. Para uns, a celebração da música, do corpo e suas alegrias – agora temperada pela multiplicação dos blocos de rua, a face lúdica do esforço para recuperar cidades para pessoas. Para outros, os prazeres da leitura, descanso e reflexão. Ao final do túnel, em qualquer caso, um ano desafiador e incerto.

O impasse civilizatório parece ampliar-se: desdobra-se em tremores financeiros; polarização política acentuada (Maurício Macri, Eduardo Cunha e Bernie Sanders são exemplos notórios); ameaças de guerra que fazem lembrar 1914. Nunca a equação proposta por Immanuel Wallerestein pareceu tão verdadeira: vivemos o colapso de um sistema-mundo. O desfecho é incerto: a nova ordem, que terminará por emergir, pode ser muito mais democrática e igualitária que a atual – ou muito mais desumanizadora e violenta. O futuro não dependerá, provavelmente, nem de atos heroicos, nem de “grandes homens”: resultará de uma miríade de fatos e atitudes – entre elas, as escolhas que fazemos na vida quotidiana. Continuar lendo

E se outro jornalismo for viável?

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Campanha de financiamento autônomo de Outras Palavras começa veloz. Novas parcerias com produtores culturais ampliam contrapartidas a quem contribui. Em meio à crise da velha mídia, parece haver esperanças

Por Antonio Martins, editor de Outras Palavras

Escrever sobre a hipótese teórica de um novo jornalismo é mobilizador – mas viver concretamente esta possibilidade é incomparável. Em sua primeira semana, os resultados da campanha para assegurar a existência e ampliação de Outras Palavras em 2016 superaram largamente nossas previsões. Entre 20 e 27 de janeiro, 159 leitores somaram-se ao programa Outros Quinhentos. Sua participação projeta entrada, ao longo do ano, de R$ 29,4 mil, e sugere que poderemos alcançar ou mesmo superar a meta fixada. Além disso, novas parcerias com produtores culturais permitem ampliar, agora, as contrapartidas a quem nos apoia. Os resultados são ainda mais expressivos porque contrastam com a crise aguda vivida pela velha mídia brasileira – apesar da farta publicidade corporativa e das benesses incessantes do governo federal.

Este ano, o programa de financiamento autônomo de Outras Palavras precisa arrecadar R$ 210 mil. O valor corresponde a 85,8% de nosso orçamento, que é público. Aberta em 20/1, a fase final do esforço estende-se até os feriados da Páscoa. Em dez semanas, precisávamos arrecadar R$ 161,7 mil. Os R$ 29,4 mil dos primeiros sete dias correspondem a 18,2% deste valor. Faltam, agora, R$ 132,3 mil. Um número expressivo (e crescente) de leitores compreende a necessidade de apoiar voluntariamente um trabalho que fazemos questão de oferecer sem catracas.


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Outros Quinhentos-2016 entra em fase decisiva

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Para manter-se autônomo e vibrante, Outras Palavras precisa arrecadar mais R$ 142,8 mil, nas próximas dez semanas. Como participar de nossa mobilização final – e receber livros em contrapartida

Pela Redação

De que modo manter, em tempos ásperos, o jornalismo de profundidade? Como cultivar uma rede de colaboradores com mais de 500 integrantes; pautar, editar e publicar mais de vinte textos analíticos a cada semana e intervir em temas internacionais e brasileiros decisivos? Qual o segredo para driblar o completo descompromisso do governo com a democratização da mídia e a previsível indiferença dos anunciantes privados?

A resposta ensaiada por Outras Palavras – o programa de sustentação autônoma Outros Quinhentosvive a partir de hoje um período decisivo. Por meio dele que, os leitores responsabilizam-se de modo voluntário, desde 2013, pela existência de nosso jornalismo de profundidade – que circula sem catracas. Nosso orçamento é público: neste ano, 244,8 mil reais. Deste total, esperamos levantar R$ 210 mil (85,8%) apelando a contribuições de quem recebe e valoriza nossos textos.

Há ótimas notícias. Nas últimas semanas ano passado, apesar do período de recesso, já obtivemos 32% desta meta: R$ 67,2 mil. Faltam, contudo, R$ 142,8 mil. Pretendemos alcançá-los nas próximas dez semanas – entre hoje e os feriados da Páscoa. É uma meta viável: Outras Palavras é visitado, todos os dias, por cerca de 15 mil pessoas; nossa rede no Facebook já ultrapassou 260 mil membros.

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Antídoto para o declínio do velho jornalismo

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Glenn Greenwald com Edward Snowden, no documentário Citizen Four, de Laura Poitras

Apuração exaustiva e detalhada; texto, imagem e áudio trabalhados com capricho; presença do contraditório; rejeição ao banal. Para vencer a crise, é preciso fazer o contrário da mídia de mercado…

Por Nilson Lage*

Pode ser que me engane – não fiz estudo de mercado e minhas referências não são atuais -, mas acredito que um veículo de mídia com politica editorial às avessas daria certo, ainda – impresso ou eletrônico.

Primeiro, seria preciso recuperar o espanto. O mundo não é lógico nem previsível. Captar a surpresa, notar o diferente, deixar a sensibilidade pautar a pauta. A novidade não está no jornal dos outros, na redação ou no travesseiro. O jornalismo, hoje, tem hierarquia demais, reunião demais, caciques em excesso.

Segundo, permitir que o espectador/leitor se apaixone, não apaixonar-se em lugar dele. Isto significa tomar posição radical em favor da solução dos conflitos por via da razão, da contraposição de argumentos, da valorização dos fatos sobre as versões. Um dos motivos do descrédito dos veículos tem sido a promoção do baixo nível dos conflitos e a omissão do contraditório.

Terceiro, entender que a informação primária circula hoje muito rápido e é consumida logo. Mas cada fato é como uma pedra na água, gera ondas em que se pode surfar, desde que de olho aberto. Não se pode surfar se não se acha a onda.

É preciso acreditar em alguma coisa, ter horizontes definidos. Que tal a nação, o povo, “nós”? Temos necessidade enorme de confiar em nós – e a mídia atual vende desconfiança.

Tratar a informação com respeito e honestidade. Valorizar o detalhe, apurar com exatidão, não deixar furos (a Internet permite conferir dados e nomes, questionar qualquer um em qualquer lugar do mundo). Nada desculpa a imprecisão da informação e o desapreço à integridade do pensamento da fonte.

Exigir esmero na linguagem – texto, imagem, áudio. Jornalismo não é para amadores. Se não se pode oferecer muita coisa, que seja pouca, mas muito boa. Para isso, é preciso valorizar a competência e a cultura dos profissionais. A formação de quadros é parte do negócio.

Fazer isso tudo parecer fácil, simples, direto. Presunção e autorreferência são duas chatices muito comuns na mídia atual.

É bom, creio, deixar os adjetivos para as imagens – é para isso que serve principalmente o fotojornalismo.

* Nilson Lage, mestre em Comunicação e doutor em Linguística, aposentado desde 2006, trabalha como voluntário na pós-graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina. Autor de obras sobre teoria e técnica Jornalística, seus livros integram bibliografia básica para cursos de Jornalismo.

Rio experimenta o Jornalismo Gastronômico

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Curso oferecido por colaboradora de “Outras Palavras”, discutirá, em setembro, a questão alimentar, por meio de debates e estudos de caso. Em 17/9, encontro gratuito sobre o tema

No dia 17 de setembro, quinta-feira, os apaixonados por gastronomia poderão participar de uma roda de conversa, gratuita, sobre jornalismo gastronômico na Facha (Faculdades Integradas Hélio Alonso). Com o tema “De Apícius à Danúsia Bárbara: a construção do jornalismo gastronômico no Rio de Janeiro”, o debate terá apresentação da professora do curso de extensão em Jornalismo Gastronômico da Facha, Juliana Dias, com a participação da jornalista convidada Andreia Degmont, editora de mais de 200 livros neste segmento.

O encontro faz parte da II Semana de Extensão Facha, que acontecerá de 14 a 17 de setembro, e irá reunir diversos eventos gratuitos ao longo da semana, no auditório da faculdade, em Botafogo. Quem pretende dar continuidade aos estudos, e se aprofundar ainda mais no tema, pode se inscrever no curso de extensão em jornalismo gastronômico da Facha, que acontecerá também em setembro, durante quatro sábados consecutivos. A turma está prevista para começar no dia 12 e as aulas acontecerão das 9 às 14 horas, em Botafogo. Continuar lendo

Para desbanalizar a mudança climática

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Feita por jovens, com metodologia inovadora apoiada em encontros presenciais, “Viração”, quer produzir número extra sobre aquecimento global. Veja como apoiá-la, em financiamento colaborativo

A Revista Viração, projeto social da ONG Viração Educomunicação, lançou no último dia 10 de julho, a campanha de financiamento colaborativo Eu tô no clima da Viração. Quer viabilizar a produção de uma edição especial sobre um tema que é tratado com banalidade pela velha mídia, mas tem enorme relevância. O número extraordinário debaterá as mudanças climáticas e os encontros internacionais que podem enfrentá-las — desde que haja vontade política e disposição para enfrentar interesses poderosos.

Com uma tiragem de 5 mil exemplares, a nova revista terá distribuição gratuita para escolas públicas e grupos juvenis de todo o Brasil. Será produzida também de maneira coletiva: surgirá a partir de discussões de estudantes de escolas públicas e grupos de jovens.  A ideia é contribuir para a discussão acerca do novo acordo mundial sobre o clima que será discutido por 193 países na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, em Paris, em dezembro deste ano. Continuar lendo

Brasil, país de imprensa livre?

Documentário conta história do jornalista Rodrigo Neto, assassinado em 2013 em Ipatinga-MG após denunciar crimes policiais. Caso expõe realidade sinistra: nas periferias, quem revela abusos de autoridades locais ainda pode pagar com a morte

Por Artigo 19

Para abordar o envolvimento de autoridades locais em crimes contra a liberdade de expressão, a OnG Artigo 19 lança “Impunidade mata”, minidocumentário que traz a história do jornalista investigativo Rodrigo Neto, assassinado com três tiros em 2013 na cidade mineira de Ipatinga.

Rodrigo realizava cobertura policial e, segundo investigações, foi morto em decorrência de seu trabalho como repórter.  Entre as denúncias que fazia, estavam as de envolvimento de policiais em crimes conhecidos na região do Vale do Aço, onde fica Ipatinga.

O crime chocou a categoria de jornalistas e teve repercussão internacional, mobilizando autoridades de Minas Gerais e do Governo Federal. Colegas de trabalho de Rodrigo criaram o “Comitê Rodrigo Neto” para exigir que seu assassinato fosse investigado e os responsáveis pelo crime, punidos. Como consequência, dois homens chegaram a ser condenados à prisão, entre eles, um policial civil. Pessoas próximas a Rodrigo, no entanto, afirmam que nem todos os envolvidos no crime foram responsabilizados. Continuar lendo

Os velhos jornais suicidam-se no altar do Facebook?

A man is silhouetted against a video screen with an Facebook logo as he poses with an Dell laptop in this photo illustration taken in the central Bosnian town of Zenica

Ao publicarem matérias inteiras numa plataforma que mistura propositadamente informação e entretenimento, “New York Times”, “Guardian” e outros podem estar chocando o ovo da serpente

Por Bruno Torturra, em sua página no Facebook

Comercialmente talvez – nada mais que talvez – faça sentido o NYT e outros grandes veículos entrarem nessa de fornecer conteúdo direto ao Facebook. Ainda espero os detalhes das condições e fontes de receita para os jornais para fazer um juízo menos precipitado.

Mas por enquanto me parece um erro grave.

Em parte entendo a capitulação. “Una-se a eles”, diz quem entende que já não pode vencê-los. Mas ao dar ainda mais força, consolidar ainda mais essa rede social como o feixe central da troca e difusão de informação no mundo, esses veículos podem não estar entrando no time vencedor. Mas chocando o ovo da serpente.

Porque para mim a arquitetura do Facebook é a exata corrosão de muitos fundamentos jornalísticos – justamente os que instituições como NYT e Guardian deveriam preservar – em prol de uma dinâmica que dissolve as barreiras do entretenimento e do jornalismo, da mera distração e da notícia, da relevância social e dos interesses estritamente pessoais.

E isso tem efeito especialmente nefasto, me parece, no papel mais importante do jornalismo. Que não é gerar audiência ou tráfego. Mas impacto. E é justamente isso que tenho sentido ultimamente. Um acelerado processo de erosão do impacto que o jornalismo causa na sociedade. E a ascensão do ruído, da falta de contexto, do buzz e da cultura de trends e hashtags como os maiores influenciadores da opinião pública. Isso muda a forma como público entende e consome jornalismo. E tende, a curto prazo, a transformar tudo nessa palavra leve, porém perigosa: conteúdo.

Claro que o processo é bem mais complexo do que isso. Mas o Facebook é protagonista nisso. E sua estrutura não indexada, sem mecanismo de busca, compulsiva e impermeável, tende a aprofundar esse cenário.

Claro que posso – e no fundo espero – estar errado. Mas ao abraçar o Facebook como parceiro, o NYT e grande elenco podem estar cometendo um erro equivalente, digamos, ao do PT dando os braços ao PMDB. Você pode até chamá-lo de parceiro. Mas quando você olhar pro lado… eles tomaram algo que não estava no contrato: a sua alma.

Agora, pronto. Dá um like aí.

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