SP: crescem críticas à "Operação Sufoco"

 

Entidades da sociedade civil, Defensoria Pública e vereadores condenam ocupação do centro pela PM – e confirmam “churrascão diferenciado” do sábado

Por Fernando Knup e Bianca Rossoni

As denúncias que movimentos sociais lançaram, desde o início da semana, contra a ocupação de parte do centro de São Paulo pela Polícia Militar (PM) ganharam eco ontem (11/1). Entidades de direitos humanos, vereadores e membros da Defensoria Pública reuniram-se para analisar o que está sendo chamado de “Operação Sufoco”. Apoiado pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Vereadores, o encontro qualificou a iniciativa da prefeitura e governo do Estado como inconstitucional, por impedir a presença, no bairro da população de rua e dependentes químicos de drogas. Também definiu algumas ações conjuntas de protesto – confirmando, entre elas, o “churrascão de gente diferenciada”, que ocorrerá no sábado (14/1), às 16h.

Segundo o governo do estado as ações – cujo alvo é a área do bairro da Luz apelidada de “cracolândia” – vêm sendo planejadas em conjunto com a Prefeitura há pelo menos três meses. A estratégia inicial da operação foi descrita pela Prefeitura e pela PM durante uma coletiva realizada na semana passada. O coordenador de Políticas sobre Drogas do governo, Luiz Alberto Chaves de Oliveira sustentou que o objetivo é levar “dor e sofrimento” aos dependentes, o que os forçaria a buscar tratamento.

No decorrer da reunião de ontem, o presidente da Comissão de Direitos Humanos, vereador Jamil Murad, classificou o plano como trapalhão. “Para se pegar traficante precisa de um trabalho de inteligência, de informação. Eles não prenderam um grande traficante, mostrando que a operação foi fracassada”.

O vereador também defendeu uma ação conjunta que traga segurança, assistência à saúde e assistência social. Porém, de acordo com o defensor público Carlos Weis, que acompanha a ação na região, há um descompasso nas ações. “Estamos com cinco defensores públicos mais estagiários na Cracolândia desde quarta-feira passada e posso contar nos dedos de uma mão quantos agentes municipais de saúde, assistência social e psicologia vimos.” A previsão é de que apenas em fevereiro seja inaugurado, na rua Prates, próximo à Cracolância, um centro de saúde e atendimento a dependentes químicos.

O vereador Adriano Diogo classificou a ação da polícia com um desastre. “Ver aquelas cenas lamentáveis de uso de armamento não letal contra pessoas doentes é uma covardia, o pior é que essas pessoas não tem porta-voz”.

O padre Julio Lancelotti fez duras críticas a ação de policiais militares e dos guardas civis metropolitanos que participaram das ações até esse momento. De acordo com ele, existem ordens para que os guardas civis metropolitanos agridam e usem armas menos letais para retirar as pessoas em situação de rua do centro da cidade. “Quem faz o que esta sendo feito na Cracolândia tem a razão entorpecida, porque o que esta acontecendo lá é tortura. Causar deliberadamente dor e sofrimento para alguém é assumir o crime de tortura, a mídia mostra as ruas vazias, mas não mostra que as ruas estão sitiadas. Encontramos pessoas feridas com balas de borracha, com cacetadas.”

Na última terça-feira (10), a Secretaria da Segurança Pública informou que o efetivo da PM dobrou, são 287 policiais trabalhando, sendo 152 da Rota, tropa de elite da PM, além de policiais civis da Divisão Estadual de Narcóticos (Denarc). A segurança foi reforçada em bairros como Bom Retiro, Santa Cecília e Higienópolis para não permitir que usuários migrem para outras áreas.

No entanto, em balanço divulgado pela PM na manhã desta quinta-feira (12), desde o início da operação, todo esse contingente deslocado à Cracolândia realizou 3.441 abordagens, as quais resultaram em apenas 87 prisões, 32 delas de pessoas já julgadas. Também foram feitas 575 abordagens sociais e 898 abordagens de agentes de saúde, porém somente 72 pessoas foram encaminhadas para albergues, 34 para serviços de saúde e 47 para internação.

A truculência da PM nas abordagens resultou na mobilização de dezenas de grupos e entidades, entre elas o Coletivo Desentorpecendo a Razão (DAR), que estão chamando a população para o segundo “Churrascão da Gente Diferenciada”, uma maneira bem humorada de combater o preconceito e o racismo das elites paulistanas e, de acordo com os organizadores, mostrar para o governo que sua polícia não é bem-vinda em nossas ruas.

Vale lembrar que a primeira edição do evento foi marcada com para protestar contra os moradores de Higienópolis, que eram contrários a construção de uma estação de metrô na região, alegando que atrairia moradores de rua e usuários de drogas, que foram classificados por esses moradores de “gente diferenciada”. O segundo “Churrascão da Gente Diferenciada” acontecerá às 16 horas do próximo sábado (14), a partir das 16 horas na esquina das ruas Helvétia e Dino Bueno — bem ao lado da Estação Júlio Prestes da CPTM e da Sala São Paulo de teatro.

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7 comentários para "SP: crescem críticas à "Operação Sufoco""

  1. Marcelo M. Mazzi disse:

    O negócio da prefeitura é a próxima eleição. Precisa limpar as ruas e varrer para debaixo do tapete a sujeira social. Essa classe conservadora de São Paulo é que vai “investir” nos candidatos à prefeitura. Assim como, a Operação Sufoco, tantas outras arbitrariedades são realizadas pela prefeitura e governo do Estado.

  2. Mayke disse:

    Realmente é um grande preconceito voce ter um comércio e não poder abrir por causa de viciados na sua porta, é muito preconceito um trabalhador não poder passar na rua porque esta bloqueada, é muito preconceito uma pessoa não poder passar com bolsa, mochila, celular com medo de ser assaltada.. O maior erro é da lei onde o viciado não é obrigado a se tratar, tem que ser obrigado sim, até porque a primeira desculpa quando eles cometem algum crime é o “que não sabem o que tão fazendo”, “estão fora de si”, tem que tirar sim das ruas e dar tratamento pra todos, sem essa história de não querer, num tem isso, vai se tratar sim, e vai sair das ruas, e parar de manchar a imagem do centro da cidade

  3. Paulo disse:

    ‘Quatrocentões’ e ‘barões do café’ querem a SP que já tiveram nas mãos em tempos idos !!! Isso mostra uma mentalidade ultraconservadora, anacrônica, em pleno século 21.

  4. Lucia disse:

    Mayke, acho que a sua visão está bem entorpecida, assim como a do governo. Ninguém é contra um projeto bem-estruturado que dê uma real assistência aos dependentes, que são pessoas doentes, mas somos contra essa estratégia de vencer o mal pela dor e pelo sofrimento por uma simples razão: não funciona. Essa gente já é muito sofrida (ou você acredita que eles tinham uma casa confortável como a sua deve ter e saíram para viver num lugar como a cracolândia apenas para atrapalhar os comerciantes?), causar-lhes ainda mais sofrimento só aumenta a sua revolta, aumentando em consequência sua necessidade das drogas e a violência.
    Também não gostamos da sujeira – ninguém gosta. Também temos medo de sermos assaltados. Mas o que não dá para aceitar é uma política higienista como essa que, mais uma vez, vem pra empurrar o problema ralo abaixo ao invés de resolver as suas causas que são a falta de edução e condições básicas mínimas para a população deste país tão rico que é o Brasil.

  5. Skap disse:

    Fora PM do MUNDO!

  6. juan salazar disse:

    mas na rua prates já existe o CRATOD (Centro de Referência de Álcool e outras Drogas), lugar que funciona no modelo CAPS e oferece tratamento público e gratuito a dependentes químicos. Fiz meu aprimoramento profissional lá.

  7. Fernando disse:

    Mayke, concordo com a opinião do Padre Julio Lancelotti, eles roubam quem olha pra eles com medo e nojo… ja morei na rua guaianazes, tenho andado muito pelo bairro da luz com câmera fotográfica e gravador de som e só fui abordado por ‘nóias’ pedindo cigarro e, sinceramente, com educação!

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