Previdência: o apocalipse é agora!

Defensores da proposta do governo juram que envelhecimento da população tornará sistema insustentável em 2050. Mas não enxergam o óbvio: política econômica atual antecipa para já a catástrofe que, segundo eles, viria em trinta anos…


Por David Deccache

Os economistas que defendem a reforma na previdência apontam a “mudança na razão de dependência” como um dos principais argumentos em prol da reforma.

O que eles querem dizer com isso?

No regime de repartição, as pessoas em idade de trabalho produzem o estoque de riqueza que depois é repartido com os idosos e as crianças, que não trabalham. Dito isso, os defensores da reforma alegam que hoje temos 12 pessoas em idade ativa para cada 6 aposentados e crianças (dependentes). Já em 2050, teríamos apenas 8 pessoas em idade ativa para “sustentar” os mesmos 6 idosos e crianças. Logo, eles parecem se preocupar muito com esta proporção e tentam fazer com que as pessoas se aposentem mais tarde e ganhem menos para “aliviar” a situação dos trabalhadores do futuro.

O problema desta análise é que nem todo mundo que está em idade ativa está produzindo riqueza, pois há uma coisa chamada de desemprego e subutilização da força de trabalho* (que eles curiosamente desconsideram na análise). Também há pessoas que estão em setores de baixíssima produtividade, que geram pouca riqueza, como é o caso dos setores de serviços pouco sofisticados e que tende a crescer com o nosso processo de desindustrialização precoce (que possui forte correlação com a informalidade).

Na verdade, hoje já temos um cenário muito parecido com o apocalipse que eles projetam para 2050 por conta da subutilização dos trabalhadores e da informalidade: dada o nossa altíssima taxa de subutilização da força de trabalho disponível, apenas 9 pessoas trabalham para produzir a riqueza que deve ser redistribuída para os 6 inativos. E se considerarmos a informalidade, teríamos apenas 5 trabalhadores formais para 6 dependentes.

A catástrofe que eles projetam para 2050 está acontecendo neste exato momento e nada tem a ver com um suposto alto número de aposentados, muito pelo contrário, pois estamos vivendo um dos melhores momentos da história do chamado bônus demográfico1.

Se eles consideram que esta baixa proporção entre dependentes e trabalhadores é algo a ser resolvido, nós concordamos. E vamos além: é algo para ser corrigido desde já. Temos que elaborar um programa de garantia do emprego que coloque os 27,6 milhões de brasileiros subutilizados para produzir riqueza, ao passo que devemos buscar formas de reverter o processo de precarização e informalidade que assola o país. Também temos que reverter o processo de desindustrialização, que torna o trabalhador menos produtivo do que pode ser (a indústria, que em 1980 representava 27% do nosso PIB, em 2000 caiu para 19%, em 2015 recuou até os 11,4% e, segundo algumas previsões, em 2030 responderá por menos de 9% do PIB).

Já para o futuro, em 2050, não podemos deixar que 4 das 8 potenciais pessoas com capacidade de produzir para os 6 dependentes continuem subutilizados. E como fazer isso? criando mecanismos de garantia do emprego desde já.

1O bônus demográfico é resultado da redução da taxa de fecundidade (as famílias têm menos filhos) e da diminuição da mortalidade em uma população.

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