Metrô de São Paulo: as razões do caos

Ao contrário do que se pensa às vezes, estações não estão superlotadas porque sistema se expandiu — mas porque seu crescimento está muito atrasado

Por Antonio Martins

Um pensamento preconceituoso, envolvendo mobilidade urbana, tornou-se comum em São Paulo, nos últimos anos. Costuma-se dizer que as estações do metrô estão superlotadas e caóticas devido… ao crescimento da rede. Ao chegar a regiões da periferia antes não servidas, ela teria incorporado as multidões que a sufocaram. Pobre metrópole gigante: nela, até mesmo algo racional, como o transporte público, seria inviável…

Esta concepção é rigorosamente incorreta, revela hoje uma série especial de três matérias produzidas pelo jornalista Guilherme Soares Dias e publicadas pelo Valor (1 2 3). O problema do metrô é, na verdade, o oposto. O sistema está superlotado não porque tenha crescido muito, mas porque avançou devagar demais. O congestionamento atual pode ser perfeitamente superado com a inauguração de novas linhas e estações. Esta providência desafogará as atuais, redistribuindo o tráfego.

O metrô paulistano, revelam as reportagens, estacionou após a década de 1970 (quando foram inauguradas as duas primeiras linhas). Nos últimos 18 anos, sob governo estadual do PSDB, foram estendidos apenas 27 quilômetros de trilhos, 1,5 km por ano. A malha total limita-se a 74,3 km — contra 285 km em Seul, ou 200 km na Cidade do México, onde os sistemas têm aproximadamente a mesma idade. Nem se fale dos 420 km. de Shangai (cuja primeira linha foi inaugurada apenas em 1994…)

É a rede reduzida que concentra o fluxo de passageiros em poucas linhas e estações. As reportagens dão dois exemplos. Inaugurada há pouco mais de dois anos, a linha 4 já está sobrecarregada. Um dos motivos é o atraso na extensão da linha 5, que um dia ligará a região de Santo Amaro, na periferia Sul, à avenida Paulista. Deveria estar pronta há vários anos. Inacabada, obriga quem faz o trajeto a usar (e congestionar) duas outras linhas ferroviárias: a 9 (de trens urbanos) e a 4, do metrô. Outro exemplo: a linha 4 foi aberta, em 2010, com apenas parte das estações operando. A estação Paulista tornou-se insuportável, em certos horários do dia, por concentrar, além de seus usuários naturais, os que normalmente se dirigiriam a Oscar Freire e Higienópolis, ambas inacabadas.

Os sinais de que a sobrelotação se reduz, quando a malha se expande, já começaram a aparecer. A inauguração da linha 4, por exemplo, diminuiu em 18% o número de usuários da estação Sé, e aliviou seu caos: ela deixou de ser passagem obrigatória entre as linhas 1 e 2.

Produzida nos limites da mídia tradicional, a reportagem do Valor não pôde ser crítica, como era necessário, em relação aos últimos governos de São Paulo. Ela aceita sem questionar as afirmações do Palácio dos Bandeirantes, que fala em construir 100 quilômetros de linhas, até 2018 (como se sua reeleição fosse garantida, aliás). Mantido o ritmo de expansão do metrô observado nas gestões de seu partido, o governador Geraldo Alckmin precisaria de 66 anos para alcançar tal meta…

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13 comentários para "Metrô de São Paulo: as razões do caos"

  1. É isso ai! E que tenha CPTM em Guarulhos antes do mundo acabar

  2. Vitor Leal Pinheiro disse:

    É verdade. Mas o buraco é mais embaixo. O metrô também está lotado por que tem carro demais na rua. http://nossoquintal.org/2008/10/31/onibus-lotado-culpe-o-automovel/

  3. Denis Duck disse:

    É um absurdo a cidade que mais contribui para a união e o estado não ter a contrapartida que merece. Precisamos de um governo mais competente.
    Segundo Einsten "As mentes que criaram o caos não serão as mesmas que estabelecerão a ordem".
    PPL – Partido Patria Livre criado pelo povo de carater, de coração valente e vontade para mudar!
    É o novo que vem estabelecer a ordem e o progresso!

  4. Patricia Samora disse:

    Só 66 anos pra ter um metrô decente?

  5. Mariac disse:

    Fale mais sobre o pátria livre…..

  6. Fabio Bianchi disse:

    Na comparação com outras cidades, deve-se tomar alguns cuidados. Na Cidade do México, por exemplo, o solo no qual são construídos os túneis e estações é argiloso, facilitando o avanço rápido das obras e seu barateamento. Enquanto que em São Paulo, o solo é composto basicamente por rochas, tornando o empreendimento mais demorado e custoso.
    Queria expor esse fato aqui para elucidar a questão já que o Outras Palavras está nessa série de matérias sobre transporte público. Obtive essas informações junto a geólogos com os quais estou trabalhando atualmente, em uma conversa durante o almoço… Não sei se omesmo se aplica para aas outras cidades citadas na matéria. Talvez o OP pudesse fazer uma entrevista para destacar as questões técnicas das obras do Metro.

  7. O Veículo Leve sobre Trilhos é a melhor solução para o público, mas o privado as grandes empreiteiras não.

  8. Rogério Centofanti disse:

    Há, além do que disseram, um terceiro problema: o Metrô é uma empresa de âmbito municipal, mas bancado pelo governo estadual. Nessa medida, todos os paulistas pagam pelo transporte dos paulistanos. A prefeitura de São Paulo não investe nenhum centavo nos transportes de pessoas sobre trilhos (VLT, por exemplo).

  9. Rogerio Belda disse:

    Há criticas à expansão do metrô paulista com impressão digital: reparem que investimentos em ferrovia urbana só é metrô quando ocorrem fora de São Paulo.

  10. Poesia social "Metropolitano":
    No centro do Brás tumultuado, no eixo errado
    sentido leste corrosivo, sentido centro implosivo
    o bojo no seio da menina e visível
    o olhar do mano irascível
    e do guarda corruptível.
    O negão com a careca bem brilhosa
    uma mulher que passa bem cheirosa
    um senhor com ar de prosa
    e o cara que fala baixinho: “Gostosa!”
    Um casal do lado só na pegação
    e o rapaz alto com o teto na mão
    a jovem que cochila com André Vianco em vão
    e a senhora com cara de piedade
    pede lugar a mulher de pouca idade.
    A moça de óculos em pensamentos vagando
    e a loira oxigenada tagarelando.
    Formigueiro locomotiva
    cada um com suas conexões
    todos seguem o mesmo sentido
    das formigas urbanóides sem sentido.
    Herculano Novaes
    http://herculanonovaes.blogspot.com

  11. Rafael Cardoso disse:

    Achei interessante a colocação acima sobre as diferenças de solo. O que acontece é que comparações em nada ajudam, não são frutíferas. O que se deve fazer é analisar o porquê de haver tamanha estagnação, e projetar soluções para mudar isso, o que já está sendo feito. Querendo ou não, sendo lerdo ou não, São Paulo agora ao menos tem um projeto de expansão real das linhas de Metrô, o que não houve em momento nenhum nas décadas passadas.
    E se eu não me engano, a Companhia do Metrô de São Paulo é uma empresa do Estado de São Paulo, não do Município, e mesmo que fosse municipal, seria ilógico achar que um dia a prefeitura teria dinheiro para arcar com algo do tipo, nem adianta perder tempo com isso. Mesmo o Estado de São Paulo não consegue direito, sendo necessário PPP’s e financiamentos do BID e BNDES (que são insuficientes ainda).
    Enfim, o caos da mobilidade é tamanho, que se houvesse fluência no sistema de transporte coletivo, os ganhos em matéria de produtividade/trabalhador, economia na área de saúde pública, e tal seriam tamanhos, que a arrecadação e da cidade que mais contribui pro PIB Estadual aumentaria de forma a potencializar a verba pro Estado todo. Afinal, investir na Infra estrutura de São Paulo, com o metrô, rodoanel e ferroanel, VLT’s e tal, daria mais versatilidade pro Estado, já que a maioria de sua riqueza, querendo ou não, tem a Cidade de São Paulo como caminho, seja rumo a Santos, seja como mercado consumidor.

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