Então é isso?! – o erótico como ponte ao incomum

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Coletânea de contos, livro de estreia de Letícia Coura atrai pela aparente despretensão das histórias – cujos personagens, porém, vivem a intensidade de transformações sutis ou dramáticas

Por Welington Andrade* | Imagem: Egon Schiele, Amantes (1913)

gotas

caem em golpes

a terra sorve

em grandes goles

chuva

que a pele não enxuga

lágrima

a caminho de uma ruga

água viva

água vulva

Alice Ruiz, Gotas

Lançamento:

Então é isso?!, de Letícia Coura

Quinta, 13/10 às 19h, em São Paulo (na Casa das Rosas)

Avenida Paulista, 37 – Metrô Brigadeiro

Compositora, cantora e atriz, mineira de nascimento, mas radicada em São Paulo desde 1991, Letícia Coura chega agora ao universo da literatura, lançando Então é isso?!, uma coletânea de dezoito contos – breves em sua maioria – nos quais ela exercita um tipo de prosa a um só tempo espontaneamente lúdica e exponencialmente lúbrica, pela qual o leitor pouco afeito a todo tipo de maneirismos formais que o chamam de inteligente e à grande avalanche de obviedades informais que o tratam como néscio rapidamente se sentirá atraído.

No último dos preceitos de seu “decálogo do perfeito contista”, Horacio Quiroga aconselha escritores a conceberem um conto como se a narrativa não tivesse interesse senão para o pequeno ambiente das personagens criadas, das quais os próprios escritores, aliás (registre-se aqui a advertência do mestre), pudessem ter sido uma. “Não há outro modo para se obter a vida no conto”, conclui o autor uruguaio. Pois bem, é dessa pequena grandeza de que, parece, se alimentam as parcimoniosas narrativas criadas por Letícia Coura, das quais ela extrai excelentes resultados a partir do uso de um grupo mínimo de elementos. Então é isso?!, como a indagação aponta em sua discreta perplexidade, flagra uma série de personagens às voltas consigo mesmas, circunscritas a pequenos ambientes narrativos fechados, esféricos, de cujo núcleo a contadora de histórias, iniciante naquele tipo de demiurgia defendido por outro mestre da narrativa breve, o argentino Julio Cortázar, não pretende deixá-los sair.

161011-entaoeissobJá no primeiro conto – “O mais que perfeito (pétala de rosa)” – o casal de protagonistas descobre um insuspeito refúgio em seus jogos eróticos, compensando a maturidade de seus corpos pela grande novidade que constitui para ambos a libertinagem da semântica francesa, o que os leva, por sua vez, a fazerem uso da língua como se esta fosse uma segunda pele, bem ao gosto de Roland Barthes. Em “Shirley”, mãe e filho dialogam como se estivessem dentro de uma pequena bolha chamada linguagem cotidiana, protegidos por cumplicidade e intimismo. Que não se sabe se irão sobreviver à visita de um agente externo. Nem tão externo assim. Pai e filho também são cúmplices em “Clô” e “Milho verde”, ligados pela atração que sentem pela mesma mulher, em tempos narrativos diferentes. “Helena” remete à boneca Olímpia de “O homem de areia”, de E.T.A. Hoffmann, mas aqui toda a densidade do fantástico é trocada pelo colorido da anedota. Um tanto amarga, diga-se de passagem, já que a protagonista é melancolicamente disputada por dois homens mergulhados em isolamento e solidão.

Em “Do conto breve e seus arredores”, Cortázar defende a ideia de que o conto não priva de intenções essenciais, recusando-se a indagar ou transmitir algum conhecimento. “A gênese do conto e do poema” – afirma o autor de Bestiário, As armas secretas, Todos os fogos o fogo e outras preciosidades da narrativa curta – “é, contudo, a mesma, nasce de um repentino estranhamento, de um deslocar-se que altera o regime ‘normal’ da consciência”. A grande qualidade das histórias de Então é isso?! reside no fato de quase todas elas se insinuarem para o leitor com um acento de despretensão muito próximo da crônica, ao mote de a vida como ela é. Entretanto, vale notar que as personagens que nelas transitam vivem algum tipo de transformação que as modifica sutil ou dramaticamente, seja por iniciativa delas mesmas, seja por intermédio da linguagem com a qual a narradora as apresenta. Daí a lubricidade ser um princípio estruturante de muitos contos. Vide “Armina”, “São João com Ipiranga” e “Carnaval é bom e ela gosta”, por exemplo.

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Em Letícia Coura,a energia libidinal do Oficina e a cadência de musicista (Foto: Maria Bitarello)

Se boa dose da sensualidade e do erotismo que impregnam as narrativas dialogam com a energia libidinal do Teatro Oficina Uzyna Uzona, no qual Letícia Coura atua desde 2001, é da experiência da autora como musicista que exalam o ritmo, a cadência e a pulsação presentes no trato que ela estabelece com a língua portuguesa. Impressiona a fluidez narrativa dessas dezoito histórias, diluídas como acontecimentos particulares, mas bastante retesadas como formas linguísticas.

Cada uma dessas ocorrências pode ser lida não somente como uma nota de rodapé da vida ordinária; mas também como uma pequena cavidade por meio da qual se pode chegar às existências excepcionais. Do ventre dessa prosa a escritora neófita Letícia Coura parece já bem entender.

* Welington Andrade é doutor em literatura brasileira pela USP, professor da Faculdade Cásper Líbero, crítico de teatro e editor da revista Cult.

 

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