Bruno. 18 anos. Gay. Espancado até morrer, em São Paulo

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Ontem, no centro da cidade, mais um caso de violência contra homossexuais. Não, desta vez não foi suicídio

Por Patrícia Cornils | Imagem: Fernando Botero

Ele tinha 18 anos. Acabou o Ensino Médio no ano passado. Fez curso técnico, de administração. Faz duas semanas começou a trabalhar no consultório de uma dentista. Ela ficou impressionada com a inteligência do rapaz. Maria me contava sempre, falava das notas dele. Eram muito boas. Tinha passado no vestibular da Unip, queria ser arquiteto. E a mãe não entendia direito, porque “ninguém lá na vizinhança nunca quis ser arquiteto”. Ele precisava trabalhar porque Maria não ia dar conta de pagar a faculdade sozinha. Maria trabalha em minha casa, uma vez por semana, há mais de dez anos. Ela não é somente mãe do Bruno — eram amigos, se falavam três, quatro vezes por dia no celular. Faz um ou dois anos, me disse: “Pati, Bruno me contou que é gay”. “E você, Maria?” “Amo meu filho. Só tenho medo que ele sofra alguma violência.” Ontem [sábado], meia-noite, Bruno e amigos foram beber na Augusta. Cinco e meia da manhã, na Rua Herculano de Freitas, ele e três amigos foram abordados por seis ou sete pessoas. Gritaram que era assalto. Os dois amigos correram. Bruno não. Pegaram o celular dele (velho), tiraram os tênis dele (All Star, igualmente velhos). E bateram no Bruno. Na cabeça do Bruno. Até matá-lo. IML: “Traumatismo encéfalo craniano. Instrumento contundente”. Boletim de Ocorrência 737/2014, 78o. DP: “Roubo. Artigo 157. Parágrafo 3o. se da violência resulta morte”

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5 comentários para "Bruno. 18 anos. Gay. Espancado até morrer, em São Paulo"

  1. marcio ramos disse:

    … violencia pra todo lado, mais uma vitima e sempre no centro ou as mortes violentas de homossexuais na periferia ninguem fala? a minha impressão é que nas periferias, suburbios e favelas onde a comunidade se conhece melhor estes crimes não acontecem. É muito triste tudo isso.

    • Renato disse:

      Marcio, creio ser pelo fato de grande parte da galera LGBT se concentrar nessa região para curtir a noite.
      Moro na periferia na zona leste de sampa e de uns tempos pra cá, tenho percebido casais homo andando de mãos dadas e meninos “afetados” saindo na rua com roupas que em outros tempos seriam apedrejados. Confesso ter muito medo pela galerinha mais nova, afinal o povo é muito religioso (evangélicos) e por conta disso conservador, mas estou surpreso positivamente de nunca ver nenhum ataque do tipo em mais de 15 anos morando por aqui (apesar dos comentários e caras feias).
      É lamentável o que aconteceu com o Bruno. Que descubram logo os culpados e façam algo.

  2. André Ambrosio disse:

    Muitas pessoas liberam suas frustrações em atos violentos, não importando contra quem ou o que. Uma pessoa como Bruno teve a infelicidade de ser encontrado por gente desse tipo, gente que procura intencionalmente fazer mal ao próximo como forma de aplacar o complexo de inferioridade e de baixa auto-estima que lhes corrói a alma. Triste! Espero que as mães desses monstros não tenham que passar a sentir a dor que a mãe de Bruno vai carregar pelo resto de seus dias.

  3. Lucas Vianna disse:

    esse texto ficou lindo. triste, mas lindo.

  4. Ale Abdo disse:

    Ni!
    =( A moça que trabalha na minha casa uma vez por semana perdeu o marido pra violência há alguns anos, porque ele ousou enfrentar um sindicato desonesto.
    Não é fácil ser pobre, pior ainda ser pobre e ousado, levantar a cabeça por si ou pelos outros.
    …bem, seu texto já disse tudo. Sentimos com a mãe do Bruno =\
    Pode soar meio absurdo mas… fique bem!

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