Aquecimento global sem hermetismo

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Dois documentários — um dirigido pelo autor de Inside Job — ajudam a compreender o que está em jogo nas intricadas e as vezes herméticas negociações sobre clima

Disponível online, mas ainda sem legendas em português, Time to Choose é um documentário independente lançado em 30 de novembro, primeiro dia da 21ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, ou COP-21. O filme traz questões pertinentes e urgentes que estão em jogo na conferência. Dirigido e roteirizado por Charles Ferguson, trata da urgência de uma organização de produção mais sustentável e elenca desafios ambientais com racionalidade. As gravações aconteceram em muitos países e mencionam, entre diversos outros episodios, a crise hídrica e o racionamento de água no estado de São Paulo.

Aqui vale um grande parênteses: Charles Ferguson é um sujeito para se prestar atenção. Phd em ciência política pelo MIT, antes de fazer seu primeiro documentário, trabalhou como consultor para a Casa Branca, fundou uma empresa de softwares que foi comprada pela Microsoft, escreveu três livros sobre tecnologia da informação entre outros feitos. Seu primeiro filme, sobre o Iraque pós-guerra, foi indicado ao Oscar e ganhou prêmio especial do júri no festival Sundance de cinema. O segundo, Trabalho Interno, vencedor do Oscar de melhor documentário longa-metragem e rodou o mundo pouco tempo após o estouro dos escândalos da crise financeira de 2008. Antes de Time to Choose, Ferguson lançou um livro com o material excedente do segundo documentário e pretendia fazer um filme sobre Hillary Clinton (na sua vinda à FLIP no ano passado, em mesa com Glenn Greenwald, explicou brevemente ambos os casos).

Voltando: O lançamento do documentário soma-se às marchas mundiais pelo clima e diversos esforços da sociedade civil organizada para pressionar por acordos climáticos na COP-21 . A Conferência recebe tanta atenção porque se espera que suas discussões resultem em um novo acordo climático para conter o aquecimento global que finalmente substitua o Protocolo de QuiotoKyoto (expirado em 2012, mas estendido até que se chegue a um novo acordo), ainda que a internalização dos dispositivos deva ser realizada até 2020.

 

No ano passado, a COP-20 terminou com uma pequena concessão dos países ricos para a elaboração de um “rascunho zero” que leve em conta suas responsabilidades históricas com as emissões de gases-estufa. Para esta COP, baseada em decisões acordadas nas últimas duas, o Brasil e outros 145 países tiveram suas Contribuições Nacionalmente Determinadas Pretendidas (INDCs na sigla em inglês) analisadas pela ONU. No entanto, após a análise, os compromissos voluntários apresentados mostraram-se insuficientes para evitar a alta da temperatura. Mesmo que os países implementem todas as medidas que aprovaram, a elevação das temperaturas atingirá 2,7 ºC, o que já provocaria efeitos severos.

 

A presidente Dilma já discursou em Paris e sua fala foi vista como um reforço sólido dos compromissos estabelecidos no INDC. No entanto, especialistas (como Carlos Rittl do Observatório do Clima1 e Carlos Nomoto da WWF-Brasil2) já indicaram em entrevistas que é esperado mais do Brasil, inclusive por ter mais margem de manobra nas metas.

 

Há ainda um último porém: embora a principal estratégia do Brasil para diminuir a emissão de gases causadores do efeito estufa seja a redução do desmatamento, este não foi suficientemente reduzido. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a taxa de desmatamento não apresenta queda em sua média desde 2012. A avaliação da presidência da República, no entanto, é de que o cenário global é comparativamente positivo e que o Brasil ainda pode exercer liderança com os resultados que vem apresentando.

 

Neste momento de grandes compromissos sendo estabelecidos, toda pressão é relevante. E assim como outro documentário, If not us then who?, também lançado dia 30 e que demonstra como os povos das florestas são aliados na luta contra a mudança climática, o endosso de um ganhador de Oscar cai muito bem.

Sugestão de imagem (marcada para reutilização não comercial):

https://www.francebleu.fr/cruiser-production/2015/11/af849552-c3cb-41d8-840b-f05cda1b618c/x464x261_dpaphotostwo474848.jpg.pagespeed.ic.XIvBJJt8XH.jpg

 

1 EBC – Proposta do Brasil para COP21 poderia ser melhor, diz Observatório do Clima

http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2015-11/proposta-do-brasil-para-cop21-pode-ser-melhor-diz-observatorio-do

 

2 WWF-Brasil – COP 21: o discurso da presidente

http://www.wwf.org.br/informacoes/noticias_meio_ambiente_e_natureza/?49482

 

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Sugestão de “sobre o mesmo tema”

Para compreender a nova série de negociações climáticas – https://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/a/

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