SP sem água, 12 a 16/11 – Para blindar Alckmin, o eterno apelo a São Pedro…

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Enquanto governador deixa de planejar recuperação de mananciais, mídia insiste que causa da crise é da falta de chuva. E o santo, ainda que não responsável, será nossa única esperança…

Por Camila Pavanelli de Lorenzi | Imagem: Pompeo Batoni, “São Pedro”, século XVIII

15 e 16/11/14

– O diretor da Sabesp Paulo Massato disse que faltará água em São Paulo em 2015 e 2016, caso continue chovendo pouco (http://bit.ly/1q3ffsq). De lambuja, vai faltar energia também.

– Esse diretor é o mesmo que, naquele áudio que vazou de uma reunião da Sabesp, afirmou que a empresa teria de dar férias para 8,8 milhões pessoas em 2015 (número de consumidores atendidos pela Sabesp) (http://bit.ly/1wl1O8O).

– Não custa lembrar: estamos em novembro, está chovendo menos do que a média histórica (http://bit.ly/113EZZm) e o nível dos principais sistemas que abastecem a RMSP está caindo (http://bit.ly/11gyraa).

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– Para não esquecer:

– (1) Enquanto alguns cavam buraco para obter água para cozinhar (http://bit.ly/1qIlmg8), outros compram água mineral para seus lulus da pomerânia (http://bit.ly/1sVEI2m).

– (2) Se em um bairro os bombeiros não encontram água no hidrante para apagar um incêndio (http://glo.bo/1xM5kbs), em outro uma pessoa provavelmente jogará fora 35 mil litros de água de sua piscina, por não ter como doá-los (http://bit.ly/1sZtVmR).

***

– Enquanto isso, o jornal O Estado de S. Paulo afirma em editorial (http://bit.ly/1xvnYpq) que a ministra do Planejamento fez uma afirmação que “não corresponde à verdade”, pois criticou a ausência de obras de longo prazo na proposta apresentada por Alckmin ao governo federal. Lembremos que ONGs especialistas no tema criticaram a proposta do pacote de obras (http://on.fb.me/1wZ5aNL) por não incluírem qualquer iniciativa de recuperação e proteção de mananciais (isso sim seria pensar no futuro); mas, para , pensar no futuro (i.e. no longo prazo) significa propor obras que ficarão prontas em 3 anos.

–  O editorial também desaprova uma fala da Ministra do Meio Ambiente, para quem a situação em São Paulo é “crítica”. Sim, pois como sabemos, a situação não é crítica e sim magnífica: afinal, não falta água em São Paulo (http://bit.ly/1ACEhCY).

– Além disso, o editorial critica a criação de um “grupo de trabalho para estudar o problema”, pois segundo o jornal “grupos de trabalho” não levam a nada.

– Quer dizer: para O Estado, não pode estudar o problema; aliás, não pode nem mesmo dizer que um problema, já que afirmar que a situação em São Paulo é “crítica” (termo, aliás, altamente eufemístico para descrever o que se passa no estado) é “deixar de lado o tom conciliador”.

– Para o jornal, o governador de São Paulo é mesmo um injustiçado: o presidente da ANA “atacou novamente, com a agressividade habitual”. Dizer que é necessário um dilúvio para que o nível do Cantareira volte ao normal configura, para O Estado de S. Paulo, uma agressividade inaceitável – ainda que rigorosamente a mesma coisa venha sendo dita há tempos pela própria presidente da Sabesp (http://glo.bo/1vwOEoN) (http://bit.ly/1otZ6Lw).

– O jornal acusa ainda o presidente da ANA de “disseminar o pânico na população, como afirmou com razão o governo paulista. Tratar coisas sérias, pelo menos no que se refere à crise hídrica de São Paulo, em tom de galhofa, com chocante irresponsabilidade, totalmente incompatível com o cargo que ocupa, virou hábito para Andreu.”

– Aqui eu só tenho uma coisa a dizer: “tratar coisas sérias em tom de galhofa, com chocante irresponsabilidade, totalmente incompatível com o cargo que ocupa” é afirmar que não falta água em São Paulo e que o abastecimento está garantido em 2015 (http://bit.ly/1BEP6VL) quando um dos diretores da empresa responsável precisamente por garantir esse abastecimento afirma que, tudo continuando como está, a água faltará não apenas em 2015 como também em 2016.

– Para concluir com “fecho de ouro”, para usar uma expressão do próprio editorial, o último parágrafo retoma um dos grandes Clássicos da Crise Hídrica™. Vamos lá, repitam comigo, todo mundo junto (mas sem pânico, por favor):

A

CULPA

É

DE

SÃO

PEDRO

***

– P.S. Um poço artesiano em São Paulo atualmente está na casa de R$50 mil (http://bit.ly/1sW34cm). Podemos esperar para breve um editorial d’O Estado de S. Paulo afirmando que a culpa pela falta d’água é dos consumidores que não perfuraram seu próprio poço.

– P.P.S. Nada muito diferente, aliás, do que já disse o Secretário de Recursos Hídricos de São Paulo, para quem a falta d’água é responsabilidade do povo que não tem caixa d’água em casa (http://bit.ly/1A4HEl0).

14/11/14

– No boletim de 18 e 19/10 (http://bit.ly/1GYHCwP), eu me perguntava o que aconteceria depois do segundo turno, já que depois do primeiro todas as regiões da cidade de São Paulo passaram a registrar problemas no abastecimento (http://bit.ly/1rucERU). Passado o segundo turno, tivemos o seguinte:

– Alckmin enfim se reuniu com Dilma para discutir a crise (http://bit.ly/10SPbEi) – e propôs obras que não resolvem o problema, de acordo com quem entende do assunto (http://bit.ly/1EBlip0);

– Reajuste da tarifa acima do previsto em dezembro (http://bit.ly/1GYJ02H).

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– Não surpreendentemente, o lucro da Sabesp caiu 81% no terceiro trimestre em comparação com o mesmo período do ano anterior (http://glo.bo/1yGhocu). E a gente achava que só a OGX prometera aos acionistas um produto (no caso, petróleo) que não tinha para oferecer.

– Mas sejamos justos: a Sabesp não iludiu seus acionistas, alertando-os em abril deste ano para o impacto da estiagem nos resultados da empresa (http://bit.ly/1uvpPbf) (http://bit.ly/1yGjuJn).

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– O Cantareira ficou estável hoje (http://bit.ly/1BsGmSw);

– Por outro lado (e com muito menos destaque na imprensa), caiu o nível dos sistemas Alto Tietê, Guarapiranga, Alto Cotia e Rio Claro (http://bit.ly/1ixYbCW);

– Por fim, um apelo às redações deste Brasil: plmdds parem de reciclar matérias sobre “aplicativos que ensinam a economizar água” (http://bit.ly/1BsCpgv) (http://glo.bo/1pZ335j). Quando inventarem um aplicativo que ensina governantes a preservar mananciais, aí sim vocês mandam um repórter fazer uma matéria nova, por favor.

13/11/14

– Palavras da procuradora responsável pela área de abastecimento no MPF/SP: “Estamos a depender do retorno das chuvas. Mas essa aposta levará ao esgotamento do Cantareira, deixando à própria sorte 14 milhões de pessoas” (http://bit.ly/1vawTM5)

– Palavras do presidente da ANA: “Qual a solução para essa situação [falta de água na Cantareira]? Chuva. (…) A maior região econômica do país está refém das chuvas.” O presidente da ANA lembrou ainda que as obras propostas por Alckmin ao governo federal levarão de um a dois anos para serem concluídas e começar a produzir efeitos. (http://bit.ly/113EZZm)

– Ou seja: se não foi São Pedro quem provocou esta crise, agora – agora, já, para o mês que vem, para o início do próximo ano – não há obra mágica que resolva: agora, paulistas, só São Pedro salva.

***

– Considerarei mais detidamente três textos publicados entre ontem e hoje, cuja leitura recomendo na íntegra: (1) “O Brasil é uma dádiva da Amazônia”, do Diego Viana (http://bit.ly/1EBlip0); (2) a crítica da Aliança pela Água às propostas discutidas por Alckmin e Dilma (http://on.fb.me/1wZ5aNL); (3) a carta da ANA ao DAEE sobre a proposta de uso da segunda cota do volume morto (http://bit.ly/1znBRDX).

– Citarei apenas os aspectos do texto do Diego (1) (cujo disparador é a relação entre o desmatamento da Amazônia e a seca no Sul) que nos interessam mais de perto:

(a) assim como o Egito é uma dádiva do Nilo, o Brasil é uma dádiva da Amazônia;

(b) recebendo da Amazônia o presente da água, o Brasil exporta essa água para longe, dado que boa parte dos nossos produtos de exportação são commodities que demandam um imenso volume de água para serem produzidas (soja, frango, cana, carne);

(c) em 1860, a cidade do Rio de Janeiro estava em situação semelhante à cidade de São Paulo em 2014: a água estava começando a faltar. D. Pedro II ordenou então o replantio da Floresta da Tijuca, projeto que durou 13 anos;

(d) obviamente, porém, a área que precisamos reflorestar hoje é incomensuravelmente maior;

(e) obviamente, também, ninguém quer investir nisso quando é muito mais lucrativo extrair todo o sumo e depois descartar o bagaço;

(f) o desenvolvimentismo (que investe e insiste em usinas como Belo Monte e Tapajós) pressupõe um mundo que não existe mais.

– Note-se que o custo de manter o ecossistema vivo em vez de reduzi-lo a um bagaço é até baixo se comparado ao custo das obras de infra-estrutura (R$3,5bi) que Alckmin acaba de propor ao governo federal: para a Bacia do Rio Paraíba do Sul, por exemplo, o custo seria de R$4,4bi divididos entre três estados ao longo de duas décadas. Segundo a ex-presidente do Inea, de 2007 para cá foram investidos cerca de 3% dos recursos necessários. Não, eu não digitei errado: investiu-se 3 (três) por cento do previsto (http://glo.bo/1GKHmS4).

– O descaso para com o meio ambiente é uma das principais críticas da Aliança pela Água (2) ao pacote de obras que está sendo discutido por Alckmin e Dilma:

(a) as obras não traçam um plano de contingência claro e seguro que mostre como chegar a abril/2015 em níveis seguros para enfrentar o próximo período de estiagem;

(b) “não foi feita qualquer menção sobre recuperar e cuidar dos mananciais existentes (restauração florestal, ampliação de parques, pagamentos por serviços ambientais)”;

(c) em vez disso, propôs-se mais do mesmo, isto é, a construção de obras caras para *retirar* mais água (em vez de *cuidar* das nascentes e *reduzir* o consumo para diferentes tipos de usuários, incluindo agricultura e indústria).

– E por falar em extrair o sumo até que só reste o bagaço, seguem trechos da carta da ANA ao DAEE, autorizando a captação da segunda cota do volume morto (3):

(a) a ANA concordou com a captação do segundo volume morto “para evitar a descontinuidade do fornecimento de água” (i.e. para que não morramos de sede), porém mediante autorização de parcelas sucessivas;

(b) mas não podemos esquecer que, segundo o presidente da ANA, a Sabesp já vem captando o segundo volume morto do Atibainha, um dos cinco reservatórios do Sistema Cantareira (http://glo.bo/1GKHmS4);

(c) para a ANA, as retiradas têm de levar em conta que é preciso chegar a 30/04/15 (fim do período de chuvas) com 10% do volume útil do Sistema;

(d) porém, “O planejamento da operação do Sistema Cantareira, apresentado pela Sabesp e utilizado na proposta encaminhada pelo DAEE, não considerou o estabelecimento de um volume meta mínimo a ser garantido em 30 de abril de 2015. (…) A afluência média observada ao Sistema, em outubro foi de 3,96 m3/s e, nos 12 primeiros dias de novembro, é de 6,84 m3/s. São valores muito inferiores aos 15,44 m3/s e 23,72 m3/s previstos pela Sabesp no seu pior cenário, para outubro e novembro, respectivamente”;

(e) por outro lado, a ANA considerou razoável a vazão média afluente considerada pelo DAEE (7,5 m3/s) para captação do segundo volume morto em novembro.

– Por fim, vocês se lembram que a Sabesp está dando desconto para quem economiza água (http://glo.bo/1vazcil). Só que em dezembro provavelmente a tarifa irá aumentar (http://bit.ly/1EIvX3j) ¯\_(ツ)_/¯

12/11/14

– E eis que a segunda cota do volume morto começará a ser oficialmente captada em 15/11/14 (http://bit.ly/ZVKU2f – ver nota de 12/11/2014, 15:01). Digo oficialmente porque a ANA alega que a captação já começou ilegalmente (isto é, antes de ter sido autorizada) em meados de outubro (http://bit.ly/1FFL1QF); Alckmin nega (http://glo.bo/1nrCyKK).

– Mas como eu ia dizendo, oficialmente a captação começa dia 15/11; atualmente a primeira cota está em 0,3% (ver link acima). Segue um breve histórico das previsões de utilização da segunda cota do volume morto:

– Em 29/09, Alckmin afirmou que talvez nem fosse preciso utilizar a segunda cota, afinal o pior período da seca já passara (http://glo.bo/1D5zmZ0). Como vimos, precisou; Alckmin, no entanto, continua afirmando que o pior da seca já passou (http://bit.ly/1EmTlmS).

– Quatro dias antes (em 25/09), porém, o próprio Secretário de Recursos Hídricos do estado de SP afirmara que, se não chovesse, a primeira cota duraria até 21/11 (http://glo.bo/1n9wIxP). Errou por apenas seis dias, portanto.

– A presidente da Sabesp, por sua vez, disse o mesmo em 15/10: que a água acabaria em meados de novembro, caso não chovesse (http://glo.bo/1vwOEoN).

– No dia seguinte, 16/10, Alckmin afirmou que a fala da presidente da Sabesp fora deturpada, já que ainda teríamos 108 bilhões de metros cúbicos de água na segunda cota.

– Para a especialista e ativista Marussia Whatley, do projeto Água São Paulo, a captação desses 108 bilhões de metros cúbicos representa a entrada no “segundo cheque especial” do Sistema Cantareira (http://bit.ly/1u2tPPa).

– Mesmo assim, o superintendente do DAEE continua trabalhando com previsões otimistas: segundo Alceu Segamarchi Júnior, se chover 70% da média histórica, em abril o Cantareira estará em 10% de sua capacidade; se chover dentro da média, estará em 25% (http://bit.ly/ZVKU2f – ver nota de 12/11/14, 13:53).

– Esses números são diferentes de uma previsão da ANA divulgada em outubro: para a agência federal, se chover 70% da média histórica, o Cantareira chega em abril com -5% (sem ter recuperado todo o volume morto, portanto); se chover na média, chegará em abril com 37% (http://bit.ly/1rsaIcS).

– Não custa lembrar, porém, que em outubro choveu 32,49% da média histórica no Cantareira – eu mesma calculei esse percentual fazendo uma regra de três (http://bit.ly/1unsdRi).

– Além disso, disse o superintendente do DAEE: “Se chegarmos a abril [do próximo ano] com 10% [do nível do Sistema Cantareira], estaremos em uma situação confortável”. Só posso concluir, portanto, que para o superintendente vivemos uma situação confortável agora, porque essa previsão para 2015 é exatamente o que vem ocorrendo este ano: em abril de 2014, o Sistema estava a 10,7%.

– A Sabesp informa: a redução de pressão durante a noite é para sempre (http://bit.ly/1pQQhwc). A empresa vende a medida como uma estratégia racional de economia de água. O problema é que, na prática, 1) a “redução de pressão” significa falta d’água para muita gente (60% dos paulistanos segundo pesquisa da Folha; 2% segundo a Sabesp); 2) um especialista alerta que a redução de pressão pode acarretar a contaminação da água.

– Consideremos o número da Sabesp por um momento: 2% da população de São Paulo é “atingida pela redução de pressão” – eufemismo para “fica sem água”. Dois por cento – parece um numerinho tão inocente e pequenininho, não? Acontece que, no universo populacional da Grande São Paulo, dois por cento significam nada menos que QUATROCENTAS MIL PESSOAS. Quatrocentas mil pessoas com problemas no abastecimento, segundo dados oficiais da própria Sabesp.

– Para terminar (1), uma notícia excelente: a ANA está oferecendo diversos cursos online gratuitos sobre recursos hídricos. As inscrições vão até 16/11  (http://bit.ly/1sEzRTc).

– Para terminar (2), uma notícia brochante: pelo que entendi, as audências da CPI da Sabesp (http://bit.ly/1sEPaez) não serão transcritas e postadas no site da Câmara. Só as sessões ordinárias e extraordinárias da Câmara estão disponíveis no site. É uma pena, pois a transcrição dessas audiências constituiria fonte de pesquisa inestimável para quem está tentando entender o que aconteceu com a água de São Paulo.

E esse foi o boletim da semana. Pode entrar em pânico que amanhã tem mais.

TEXTO-FIM

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