Um encanto a menos em Berlim

Tacheles, centro cultural alternativo ocupado há 22 anos, é despejado pela especulação imobiliária. Artistas e grupos autônomos buscam novos caminhos – da web-arte à periferia

Por Gabriela Leite

Um símbolo da arte alternativa e das transformações de Berlim pós-queda do Muro fechou as portas no início do mês – despejado depois de 22 anos de resistência. O Kunsthaus Tacheles era centro cultural, gerido um grupo de artistas que ocupou um prédio em 1990, num momento decisivo e contraditório da história da Alemanha e do século XX. Por um lado, as elites globais comemoravam a reunificação do país, sob a égide do capitalismo, após o colapso da república oriental pró-soviética. Por outro, artistas alternativos e grupos autonomistas dos dois lados de Berlim encontravam-se pela primeira vez, ocupavam prédios abandonados (squats, quase sempre, na parte Leste da cidade) e os convertiam em espaços de produção artística e convívio. O Tacheles foi um dos marcos deste período. Sua importância foi tão grande que, depois de alguns anos, o espaço foi tombado como patrimônio histórico e acabou virando um dos pontos mais importantes do turismo alternativo da cidade. Agora, o prédio foi perdido; mas persiste o movimento que o conquistou.

A causa imediata do despejo tem a ver com a crise financeira – e revela como ela está transformando a Europa num continente mais triste. Em 1998, a instituição imobiliária Fundus Group, dona da construção, havia feito um contrato de dez anos com o grupo de artistas do Tacheles. Permitia que eles continuassem no local pagando o aluguel simbólico de €0,50 por mês. Em 2008, a empresa foi à falência, e a edificação ficou nas mãos do banco alemão HSH Nordbank, que percebeu que seria mais lucrativo tomar posse do prédio, localizado no Mitte – um bairro central de Berlim que passou por grande valorização imobiliária desde a reunificação.

A construção onde estava o espaço artístico Tacheles tem mais de cem anos e 9 mil m². Ocupa quase um quarteirão, entre duas vias famosas e movimentadas – Friedrichstraße e Oraniemburger Straße – no lado leste da cidade. Começou a ser construído em 1907 para ser uma loja de departamentos no bairro que, na época, tinha uma grande população de judeus. Com cinco andares, preserva um tipo de arquitetura que quase não existe mais na Europa: uma passagem entre duas ruas moderna, mas com aspectos clássicos e góticos. A partir dos anos 30, o governo nazista tomou lugar da loja, e o prédio chegou a ser sede da SS, tendo seu sótão transformado em cela para prisioneiros de guerra.

Uma boa parte dele resistiu à Segunda Guerra, apesar de ter ficado em ruinas. Nas décadas seguintes, situado no lado oriental do Muro, foi aos poucos se degradando. Sua primeira função artística deu-se nessa época, quando um cinema chamado Camera alocou-se no prédio e mudou significativamente sua estrutura, com a construção de uma sala de exibição e um hall. Mas o governo tinha planos diferentes para a área, e o prédio começou a ser parcialmente demolido em 1980. Planejou-se que o fim da desconstrução seria em abril de 1990. A queda da Alemanha Oriental salvou o prédio.

Logo após a derrubada do Muro, um grupo de artistas ocupou o prédio e lutou arduamente para evitar sua demolição. Transformaram-no num espaço cultural e artístico livre, com salas para exposições, ateliês, oficinas com café, cinema (no espaço em que havia sido construído anteriormente) e um grande quintal, no fundo. Suas paredes são repletas de grafites e cartazes, e ele ainda conserva vestígios de sua parcial destruição pela guerra e pelo tempo.

Mas a justiça intercedeu a favor do banco, e os últimos artistas se retiraram no último dia 4, com uma cerimônia triste que marcou o fim de um dos ícones de arte e cultura alternativos, urbanos e livres na Europa. Os antigos ocupantes, agora desalocados, estão se reorganizando. Muitos, com a gentrificação que ocorre no centro de Berlim, planejam mudar-se para bairros mais afastados, como o Neukölln, no sul da cidade. Com o desenvolvimento da região — surgimento de restaurantes, bares e lojas sofisticados — o squat acabou virando um marco histórico de algo que agora faz parte do passado, e já não combinava com a região.

Os artistas chegaram a recorrer ao prefeito da cidade, Klaus Wowereit, mas sua resposta foi dura: “Não se pode simplesmente jogar um lençol protetor por cima de toda ruina que veio da guerra ou da divisão da cidade”. Como já estamos acostumados nas cidades brasileiras (com o fechamento do cinema Belas Artes em São Paulo, por exemplo), as lógicas de mercado e especulação imobiliária prevalecem sobre a arte e a ocupação humana dos espaços.

Mas os artistas de Berlim parecem não se conformar com isso. “Para onde devemos ir agora?” lê-se hoje na fachada do prédio. Um dos caminhos já está dado: está sendo criada colaborativamente uma galeria virtual 3D (o blog onde estão postando as notícias está aqui), que irá exibir, além de exposições de obras de artistas, uma representação do antigo centro cultural, na qual será possível caminhar por seus corredores. Com a nova plataforma, preserva-se sua memória e espírito, mas é necessário continuar em busca de novos espaços de arte e resistência contra a destruição da memória da cidade em função do lucro.

Com informações de: The Local

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4 ideias sobre “Um encanto a menos em Berlim

  1. Pingback: Rômulo Gondim – Um encanto a menos em Berlim

  2. … a bandeira da cultura em todas as suas manifestações: "(…)mas é necessário continuar em busca de novos espaços de arte e resistência contra a destruição da memória da cidade em função do lucro."

  3. É um absurdo o comentário do prefeito: “Não se pode simplesmente jogar um lençol protetor por cima de toda ruina que veio da guerra ou da divisão da cidade”. Esse lugar não era apenas ruina, contava uma história, tinha vida, arte. Umas das coisas mais maravilhosas e alternativas de Berlim, é uma pena!!!!

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