R$ 1.000 para “hostilizar” Ciro? Brasil inventa os mercenários do escracho

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Reprodução/Facebook

Caso envolvendo militantes de direita deve servir para refletir sobre prática, ainda que não remunerada, aceita por setores da esquerda; é hora de se discutir os escrachos

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Os mercenários são soldados específicos. Lutam não pelo amor a uma nação, a uma causa. Mas especificamente por dinheiro. Possuem milênios de história. Do antigo Egito à Síria contemporânea. Não são universalmente aceitos: um cidadão austríaco que optar pela atividade perderá automaticamente a cidadania. Maquiavel não era simpático a eles: preferia as tropas próprias. Motivo: eram um risco mesmo em caso de vitória.

E eis que o fascismo brasileiro inventa os mercenários do escracho. Continuar lendo

Fascismo no Brasil se manifesta também por sua face machista

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Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Das ofensas de um desqualificado a Letícia Sabatella à médica que não quis atender uma mãe petista, multiplicam-se casos em que barbárie política sobra para a mulher

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O nome do cidadão que ofendeu a atriz Letícia Sabatella – e teve milhares de compartilhamentos no Facebook – não merece ser exposto. Seria alimentação de trolls. Mas o fenômeno que ele representa é mais amplo: o do machismo que emerge junto com a onda fascista de ódio e desprezo por quem se declare contra o golpe.

Não é o único caso. Relatamos aqui as agressões a mães que estavam de vermelho, acompanhadas de seus bebês. Eles fariam isso se fossem pais fortões? E a pediatra que se recusou a atender o filho de uma petista? Quantos códigos ela terá rasgado (e não somente como médica) para exercitar sua intolerância? Continuar lendo

Fascismo está nas ruas, e a imprensa é artífice ou conivente

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O nome é esse: fascismo. Por que os jornalistas se calam? Por que não pronunciam a palavra exata? Por que não divulgam a escala das agressões e ameaças?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O nome é esse: fascismo. Por que os jornalistas se calam? Por que não pronunciam a palavra exata? (Eles que não hesitam em chamar alguém de “terrorista”, “vândalo” ou “baderneiro”.) Que cursos de história nunca terão frequentado? Será possível que vamos reproduzir em um regime democrático – cada vez mais enfraquecido – a pusilanimidade que outros tiveram durante regimes autoritários plenamente definidos?

Vejamos: agressões sistemáticas e histéricas a quem vista vermelho, declare-se contra o impeachment ou a favor de um determinado partido ou liderança política. Cenas de perseguição, encurralamento, ameaças, urros. Intolerância brutal a discordâncias, como se viu ontem em relação à decisão do ministro Teori Zavascki. Provocações, como na PUC-SP, na segunda-feira, em plena aliança com forças policiais. Macartismo. Discriminações. Tentativas de linchamento. Continuar lendo

Fator PUC: um desvio calculado das provocações para o movimento estudantil

Direita torce por excessos dos manifestantes de esquerda; se não ocorrerem, que sejam inventados; ao contrário da Maria Antônia, em 1968, PM foi protagonista

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O ato pela democracia da sexta-feira tinha muitas senhoras, idosos. E foi organizado por sindicatos e movimentos sociais. Mais calejados no que se refere à organização, e em como responder a provocadores. Muitos apostamos que a polícia não reprimiria – e não reprimiu. Para onde os provocadores de direita voltariam, então, suas baterias, sem atirar no próprio pé? Claro: para o movimento estudantil. Quem nessa sociedade atordoada se importará com mais estudantes sendo reprimidos pela PM?

Configura-se, desta forma, uma estratégia calculada da extrema direita, essa aliada incondicional da derrubada de Dilma Rousseff – ao lado da imprensa graúda, de políticos que querem se livrar da Lava Jato e de setores do Judiciário. Os manifestantes que colocaram um carro de som em frente da PUC-SP, na noite de ontem, atrapalhando as aulas e provocando os estudantes (de esquerda), sabiam bem o que estavam fazendo. E não vão parar. Continuar lendo

Já são cinco os casos de mães com bebê agredidas por uso de vermelho

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Macacão da Minnie: motivo para agressão no Rio (Arquivo: Monique Ranauro)

Em SP, uma mãe recebeu uma pedrada, na altura da criança; outra foi acuada em um supermercado; no Rio, motoqueiro disse que ia dar um tiro na mãe e na bebê

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

São Paulo teve na semana passada dois casos em que as mães estavam vestidas de vermelho, com bebê no colo, e mesmo assim foram agredidas. Uma delas foi acuada. Outra viu uma pedra ser atirada na altura da criança. No Rio, mais um caso envolvendo a ira criminosa de fascistas. A diferença é que o próprio bebê era quem estava vestido de vermelho.

Dois desses casos foram relatados pela imprensa, mas isoladamente. Um pelo portal R7, outro pelo blog do Luis Nassif. Não se tornaram um tema nacional. O caso da blogueira Rafaela Freitas, em São Paulo, ainda não foi divulgado. Vejamos seu relato:
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Casos de agressão por uso de vermelho se multiplicam; por que autoridades se calam?

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Intolerância tipicamente fascista ganha vista grossa de políticos e operadores do Direito; blog reuniu dez casos, entre prováveis centenas ou milhares pelo país

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

1 Fortaleza. Sexta-feira. Produtor é vítima de agressão por usar boné vermelho. O boné era de um time americano de baseball. Mas pensaram que era do PT. O produtor Marcelo Street chegou a ouvir: “Você não é brasileiro?”

2) São Paulo. Quarta-feira. Warley Alves é hostilizado por estar com um boné vermelho onde estava escrito: “Zona sul“.

3) Curitiba. Quinta-feira. Manifestantes agridem rapaz e ateiam fogo em camiseta do Che. O relato é do El País Brasil:

Em Curitiba, um casal foi agredido porque vestia camisetas vermelhas, o que provocou a ira dos manifestantes anti-Dilma, que se caracterizaram por vestir roupas verde e amarela. A camiseta do rapaz, que tinha uma imagem de Che Guevara estampada, foi arrancada do seu corpo e, depois, incendiada. O rapaz tomou socos e chutes dos presentes.
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“Parecia petista”: na Paulista, dois casos de violência fascista

Fã de Bolsonaro decretou, antes de comandar agressão no Metrô: “Se não gritar fora Lula é petista”; no Masp, dois jovens foram agredidos por “parecerem petistas”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O vídeo acima mostra um casal de amigos sendo ameaçado e agredido por uma turba. A acusação: “Parecem petistas”. A prova: ele estava com uma bicicleta vermelha. Não foi o único caso, ontem, durante a manifestação na Avenida Paulista pela derrubada de Dilma Rousseff e contra a nomeação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como ministro. No Metrô, um estudante teve de sair correndo porque não gritou “fora Lula”. “Se não gritar fora Lula é petista”, decretaram.

O vídeo fala por si só. Vejamos o relato de Klismann Matos, estudante de Geografia na USP:

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O som e a náusea – a face sonora do fascismo brasileiro, março de 2016

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“O Grito” (Edvard Munch, 1893)

E não é que agora os golpistas querem ganhar na buzina? Não somente na panela reativa, mas no barulho, no ruído militante, desestabilizador, enlouquecedor?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

E não é que agora querem ganhar na buzina? Não somente na panela reativa, mas no barulho, no ruído militante? (Enquanto um juiz vaza outros sons; vaza o áudio da presidente da República e a imprensa faz de conta que tudo se passa em termos republicanos.)

Eu andava no bairro de Perdizes, em São Paulo, quando comecei a escutar as buzinas. Estava calmo e fui ficando cada vez mais irritado – como fico quando os motoqueiros estão com os dedos na buzina particularmente irrequietos. E fiquei pensando nos sons da minha vida. Continuar lendo

Rubrofobia: fascismo brasileiro consolida sua intolerância bruta a uma cor

Eles começaram a criar asinhas em 2013 e se espalham pelo país, sob o olhar complacente da mídia, da polícia e do Ministério Público; até onde vão chegar?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O vídeo acima mostra um tipo que se multiplica: um rubrofóbico. Ele tem intolerância aos comprimentos de onda mais longos (entre os visíveis): a cor vermelha. Fica agressivo ante à possibilidade – que ele imagina muito concreta – de a bandeira brasileira ser tingida dessa forma. Nesses poucos segundos ele decide que os jovens na Esplanada dos Ministérios, todos do movimento negro, são petistas; e que, portanto (raciocina ele), devem portar alguma assinatura cromática. “A nossa bandeira nunca será vermelha”, grita. E cospe no diretor de Combate ao Racismo da União Nacional dos Estudantes (UNE), Rodger Richer. Cospe.

A cena ocorreu no domingo. E não foi a única em Brasília. Outros ativistas do movimento negro foram vítimas dessa violência específica – conjugada com o mais puro racismo. E não seria preciso mais nenhum exemplo para caracterizar a consolidação desse formato brasileiro de fascismo explícito: uniformizado (com usurpação das cores verde e amarela), uma raiva taurina de determinados oponentes (filiados a determinado partido, negros, usuários de camisetas vermelhas), um ódio espumante, a disposição à violência e à exclusão. Gente perigosa, portanto. Continuar lendo

O golpismo na época de sua reprodutibilidade técnica

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“Amarcord”, de Fellini, e os curiosos sonhos da adolescência política

À ausência de limites éticos soma-se nestes tempos sombrios certa regressão estética; dos memes às manifestações, das citações cafajestes a dancinhas cafonas

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Ninguém terá descrito melhor a face ridícula do fascismo que Federico Fellini. Como seria bom que todo mundo se recordasse de uma de suas obras-primas, “Amarcord” (1973), no que ela expressa de sarcasmo absoluto em relação aos seguidores de Benito Mussolini. Não só pelo desastre político, por aquela ética indefensável, mas pela coleção de aberrações estéticas, pela falta de noção (uniformizadora e cafona) dos que reverenciavam os símbolos patéticos do regime. Pelo culto medíocre a figuras brutas no país do Renascimento.

Outro cineasta italiano expôs, de certa forma, o componente estético desse mal estar por negação, ao exaltar a delicadeza de Sophia Loren e Marcello Mastroianni em “Um Dia Muito Especial” (1977). No momento em que ele a ensinava a dançar rumba como em um jogo de amarelinha fazia algo – assim eu imagino as intenções do diretor Ettore Scola – que a multidão fascista em marcha não se disporia a fazer. Desindividualizada, a massa estava destinada a vestir tristemente as mesmas camisas e a assistir como se estivesse diante de um grande orador à gestualidade cafajeste do Duce. Continuar lendo