O “uniforme para imprensa” da polícia de SP e o “BBB dos jornalistas” no Rio

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Estamos em guerra? (Foto: PSTU)

O que é pior? Jornalistas confinados na casa do Big Brother Brasil, no Rio, ou aceitando aparatos de segurança oferecidos pela PM paulista?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O que acontece com o jornalismo brasileiro? No Rio, repórteres participaram efusivamente de uma edição do Big Brother Brasil. Mais que cobrirem o entretenimento, tornam-se eles mesmos o entretenimento. Em São Paulo, representantes de diversos veículos não se acanham em aceitar um certo “uniforme de imprensa” para cobrir manifestações, oferecido pela polícia paulista.

E o troféu de aberração jornalística vai para… os repórteres paulistas. Pois eles estão entrando na notícia tanto quanto os saltitantes críticos de televisão – ainda que não tenham se dado conta disso. Do reality show ao espetáculo do espancamento.

Antes de entrar no que é mais importante, vale um esclarecimento. Não é que alguns jornalistas se inscreveram no Big Brother como participantes, como fizeram Jean Wyllys e outros, pessoalmente. Neste caso nem temos muito a ver com a decisão deles. E sim que eles participaram de uma espécie de pré-BBB, a convite do diretor. Ficaram confinados por algumas horas, sujeitos às regras do programa: “BBB dos jornalistas tem bronca no varal e cueca na piscina“.  (Abaixo, os jornalistas estão no meio da roda.)

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Foto: João Miguel Jr / TV Globo

Alguém poderá até dizer que faz parte da cobertura específica. Uma espécie de jornalismo gonzo – modalidade de reportagem participante, uma imersão – aplicada à cobertura do entretenimento.

E quando não se trata de entretenimento? Quando há balas de borracha em jogo, ou sprays de pimenta, gás lacrimogêneo? Tropa de Choque, fileiras de policiais reprimindo manifestantes violentos (não foi o caso dos dias 12 e 14), agredindo manifestantes pacíficos, pessoas que simplesmente estavam ali, na rua, naquele momento?

Jornalistas devem vestir “uniformes”, de qualquer tipo? Jornalistas devem vestir uniformes cedidos pelo comando policial, para diferenciá-los das demais pessoas?

SENHA PARA BATER

São várias as consequências disso:

1) Senha para bater. Fica a polícia liberada para reprimir todos aqueles que não estejam com o uniforme. Gravíssimo: pois a regra nunca poderá ser a de reprimir manifestantes, de um modo geral. Apenas a de coibir – e não com as atuais práticas militarizadas – aqueles que ofereçam riscos.

2) Senha para bater em repórteres independentes. Pois é evidente que a polícia não liberará crachá e oferecerá o “uniforme” para a mídia contra hegemônica, que não represente a grande imprensa. Ou seja, a polícia estará liberada a reprimir exatamente os jornalistas mais críticos à polícia.

3) Senha para bater em cidadãos comuns que estejam exercendo seu direito de fotografar, gravar, anotar. Porque é disso que se trata. A liberdade de expressão não é só para profissionais de imprensa contratados, nem para aqueles que se dispõem a fazer jornalismo. É para cada cidadão.

Em situações de guerra, observa o jornalista André Muggiati, é comum que jornalistas e Cruz Vermelha sejam identificados e respeitados. Mas não consta que estejamos em estado de guerra. (Nem que a Cruz Vermelha tenha sido chamada para amparar os feridos.)

Ou a imprensa decretou que estamos em guerra civil?

E LA NAVE VA

Impossível não lembrar da sequência do “desfile de moda eclesiástico”, do filme Roma (1972), de Federico Fellini. O cineasta italiano conseguiu debochar ao mesmo tempo do mundinho da moda e do cinismo entre os poderosos da Igreja, ao exibir roupas para diferentes climas, ambientes com pouca circulação de ar, padres ciclistas, noviças…

Ou seja, mais um pouco e a polícia paulista oferecerá um desfile de moda. E teremos coletes femininos à prova de bala, em várias cores. Capacetes fashion, para policiais descolados. No fim do desfile, jornalistas, com coletes estampados, em motivos tipográficos; capacetes diagramados, com o resumo das últimas notícias simpáticas à Secretaria de Segurança Pública.

E não será mais ridículo que a aceitação, por jornalistas, do “uniforme de imprensa”.

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