2015 – Mais um ano de naturalização da violência policial

Paraná29abril

Agressão a professores em Curitiba (Foto: José Gabriel Tramontin / Lente Quente)

Tortura, chacinas, grupos de extermínio, execução de crianças, repressão a protestos; show de horrores da PM ganha noticiário, mas de forma dispersa, sem coesão

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

As chacinas ainda ganham algum destaque na imprensa – em ciclos. Em 2015, a matança em Osasco em Barueri foi uma das principais notícias de segurança publica, ao lado da tradicional truculência em manifestações de estudantes, professores e movimentos sociais. Esta, disfarçada em “confronto”. De um modo geral, porém, a sociedade brasileira segue assimilando a violência policial. Sem que ela apareça – apesar da ampla escala – nas retrospectivas televisivas ou impressas de fim de ano.

Esta sequência diz muito sobre o que aconteceu em Osasco:

14/08 (Osasco, Barueri, SP): Série de ataques deixa ao menos 18 mortos e 6 feridos na Grande SP

27/08 (Osasco): Adolescente morre em hospital e é a 19ª vítima de chacina na Grande SP (Letícia tinha 15 anos.)

28/10 (Osasco e Barueri): PMs queriam vingança e mataram 23 inocentes na Grande SP, diz secretário

07/11 (Osasco): Principal testemunha de chacinas é assassinada a tiros na Grande SP

Detalhe: as balas de Osasco eram públicas: Balas da chacina foram compradas pela PM, PF e Exército.

Nem todas as chacinas pelo Brasil tiveram a mesma repercussão:

18/04 (Belém): Promotoria acusa 13 policiais após chacina que matou 11 em Belém

26/07 (Manaus): Morte de PM pode ser a causa da chacina que matou 37 em Manaus

26/07 (Salvador): Sentença-relâmpago na Bahia absolve policiais por mortes do Cabula

12/11 (Fortaleza): Após morte de PM, 12 são assassinados em Fortaleza durante a madrugada

Este é o país dos grupos de extermínio. Distribuídos em todas as Unidades da Federação, são formados por policiais e configuram uma peça-chave para se entender as chacinas. Em Salvador, promotores e parentes dos mortos na chacina do Cabula estavam ameaçados, como mostra esta notícia: Memorial instalado no Cabula lembra os 12 mortos em ação da PM na Bahia.

Como desbaratar esses grupos e enfrentar esse massacre? A imprensa pouco se pergunta. O canadense Graham Willis esclarece: Policial que denuncia colega matador arrisca o pescoço, diz pesquisador. E Osasco confirma sua tese: Apuração de chacina em SP expõe testemunhas que delataram PMs.

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Homenagem aos mortos na chacina de Osasco e Barueri (SP)

PELO PAÍS, EXECUÇÕES

As execuções de poucas pessoas por vez não motivam, de um modo geral, notícias em sequência no noticiário. É feito o registro (mesmo que o motivo seja fútil, que o crime policial seja bárbaro) e não se fala mais nisso. Vejamos alguns casos:

10/07 (Sumaré, SP): PMs da Rota são presos após atentado contra jovem e tiroteio com outros policiais

17/07 (Palhoça, SC): PM decide expulsar policial acusado de matar o surfista Ricardinho em SC

03/09 (Porto Alegre): ‘Ele se rendeu e o policial atirou’, diz irmã de jovem morto em Porto Alegre

21/12 (Recife): PM confunde celular com arma e mata jovem no Derby

Observem as próximas vítimas. Um esquizofrênico, um morador de rua, um frentista (e não um empresário, um fazendeiro, uma socialite):

25/07 (Florianópolis): Durante internação compulsória, PM mata paciente com esquizofrenia em SC

12/08 (São José do Rio Preto, SP): MP-SP denuncia PM por morte de morador de rua

11/11 (Fortaleza): MP afirma que mais pessoas estão envolvidas no desaparecimento de frentista no Ceará

O corpo do frentista ainda não foi encontrado. É um caso similar ao do pedreiro Amarildo, que entrou em uma viatura no Rio, em 2013, e não foi mais visto. Mas não teve a mesma repercussão na imprensa – nem a grande nem a alternativa.  #OndeEstáJoãoPaulo?

No Amazonas, um comandante não se constrange em admitir uma orientação inconstitucional, como se o país tivesse aprovado a pena de morte, e sem julgamento: (As mortes por policiais são de direita?)

28/10 (Manaus): Oficial da PM do Amazonas diz que mandou policiais matarem criminosos

Em agosto teve morte de sem-teto no Maranhão, administrado pelo PCdoB: (Mas não se trata de um governo de esquerda?)

13/08 (São Luís): PM atira e mata manifestante durante desocupação de prédio em São Luís

PROFESSORES? ‘BALA DE BORRACHA’

O vídeo do Porta dos Fundos em que o comediante Fábio Porchat encarna um policial com uma solução pronta para manifestações – “bala de borracha” – apenas imita a realidade. O caso mais emblemático do ano foi a repressão aos professores no Paraná.

Mas já no dia 10 de janeiro a escritora Eliane Brum retratava a ação da polícia paulista: Meu ‘confronto’ com a polícia de Alckmin. O mesmo fez Vanessa Barbara, no mesmo dia: Colunista do Estadão relata repressão policial durante protesto contra aumento da tarifa do transporte público em SP.

Era a senha para um ano violento contra estudantes e professores em São Paulo:

16/01 (São Paulo): Policiais disparam spray de pimenta em jovem desmaiada em protesto

23/01 (São Paulo): Quarto ato do MPL é marcado por mais repressão da PM em São Paulo

09/10 (São Paulo): Protesto contra fechamento de escolas em SP tem prisões arbitrárias e violência policial

11/12 (São Paulo): PM invade teatro em São Paulo para agredir estudantes

Mas também contra moradores de rua, sem-teto e até foliões:

17/02 (São Paulo): PM usa bombas de gás em confronto com foliões na Vila Madalena

18/03 (São Paulo): Suplicy diz que interveio em ação de PMs por ver agressão deliberada

04/05 (São Paulo): Sem-teto é baleado por policial militar durante churrasco no centro de São Paulo

As balas de borracha fizeram mais um cego em São Paulo, em outubro. Um adolescente de 15 anos. Durante os protestos de 2013, o fotógrafo Sérgio Andrade Silva foi atingido por uma bala de borracha e também ficou cego.

22/10 (São Paulo): Jovem fica cego após PM atirar com bala de borracha em SP, diz família

IMPRENSA E LINGUAGEM

A violência contra professores em Curitiba, em abril, ganhou diferentes abordagens da imprensa. O espanhol El País foi direto ao ponto:

29/04 (Curitiba): PM reprime protesto de professores em Curitiba e mais de 200 se ferem

O Estadão viu “confronto”: Confronto entre PM e professores no PR deixa cerca de 200 feridos

03/05 (Curitiba): Repressão da PM a protesto foi mais truculenta que em 88, dizem professores

E não é que um coronel tinha alertado sobre os abusos no Paraná, um dia antes? Foi demitido: Coronel alertou sobre ‘abuso’ antes de ação policial no Paraná.

Em novembro foi a vez dos professores de Brasília. A notícia do G1 também fala em “confronto” com os policiais, estes movidos a bala de borracha e golpe de mata-leão. Um dos policiais falou: “Alguém mais aí vai chamar a polícia de bandido?”

28/10 (Brasília): Pelo menos quatro professores são presos durante protesto em Brasília

“MÃOS NA CABEÇA”

A polícia da capital federal ainda encontrou um tempinho para revistar estudantes em uma escola. Pública, claro. Durante a revista, estudantes com as mãos na cabeça (foto abaixo):

22/05 (Brasília): Com mãos na cabeça, alunos no DF são revistados por PMs durante aula

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As mulheres não foram poupadas, em manifestações diversas:

03/11 (Porto Alegre): Mulheres protestam após denúncia de violência policial na Feira Feminista

31/10 (São Paulo): Após questionar socorro a baleados, professora é agredida e presa por PMs de SP

Movimentos sociais, tampouco:

03/08 (Cachoeira, BA): Polícias Militares invadem com fuzil na mão o lançamento do Comitê da III Marcha Contra do Genocídio do Povo Negro

18/11 (Brasília): Policiais são presos por tiros em marcha contra racismo em Brasília

Afinal, a polícia não poupa nem quem tenha furtado repelente:

25/02 (Laguna, SC): PMs agrediram suspeito que havia furtado frascos de repelente em Laguna

E O FUTURO…

É essa polícia em pleno estado de guerra que muita gente quer ver comandando escolas. A retrospectiva de 2015, portanto, é também um aceno para tempos complicados em outros domínios. Parte do país opta pelo retrocesso puro e simples:

29/06 (Manaus): Polícia assume escola em área violenta de Manaus e impõe rotina militar

10/08: Cresce no Brasil o número de escolas básicas públicas geridas pela PM

25/08 (Maceió): Com boa colocação no Enem por Escola, colégio militar funciona como quartel

 

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2 comentários para "2015 – Mais um ano de naturalização da violência policial"

  1. obrigada pela dica vou usa em minha retrospectiva para meus 15 anos..

  2. José Maria Galhassi de Oliveira disse:

    Qual a diferença entre bandidos e assassinos fardados dos outros assassinos e bandidos? É que os bandidos e assassinos fardados são protegidos pelas autoridades brasileiras ineptas, corruptas e submissas aos interesses estrangeiros. José Maria Galhassi de Oliveira

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