Entenderia-se melhor uma CPMF para combate ao Aedes aegypti

CPMF2

Não parece uma foto de velório? (Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado)

Burocratização da política e da economia faz população ficar a anos-luz de distância dos que pedem uma contribuição emergencial para um gélido “ajuste fiscal”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Em um dia lemos uma manchete sobre o zika vírus. No outro, manchete sobre defesa da CPFM pela presidente no Congresso. Vaias. Seria ela vaiada se defendesse uma contribuição – realmente provisória – para um combate emergencial ao Aedes aegypti? Temos aí um problema de comunicação. E outro de engessamento político. A agenda oficial está pré-definida por cânones que se pretendem macroeconômicos, que, sabemos, acabam beneficiando os plutocratas de sempre.

Em outras palavras: que entusiasmo pode ser gerado ao se defender um novo imposto “para ampliar a receita fiscal”? Ou seja, para se ter um Orçamento que será distribuído de forma genérica – inclusive para o pagamento eterno e multiplicado daquelas dívidas que a própria presidente se recusou a auditar? Qual a empatia possível em relação a um discurso de emergência tecnocrática? E qual o sentido de uma contribuição “provisória” para políticas que deveriam ser permanentes?

Lembremos que a CPMF foi sugerida (como IPMF) pelo ex-ministro Adib Jatene, da Saúde, durante o governo Itamar Franco, e começou a vigorar em 1994. Logo teve seu objetivo – arrecadar verbas para a saúde – usurpado. Tornou-se mais um caixa genérico, em meio a esta ou aquela destinação mais específica. E o Tesouro – sem essas gavetas que especifiquem os gastos – não tem charme, não traz uma narrativa motivadora, que pudesse despertar a sociedade em torno de um objetivo comum.

A política foi desumanizada. Não temos empatia pela presidente mecanizada que pede a retomada do imposto e não é possível ter empatia pelos senhores não exatamente carentes que portam plaquinhas de “xô CPMF”. Vemos na mesma foto do jornal a tal plaquinha (em cores tucanas, azul e amarelo), Dilma Rousseff e, petrificadas, as imagens de Renan Calheiros e Eduardo Cunha. É como se tivéssemos uma política embalsamada. Uma economia cadavérica e jornais mumificados.

Claro que uma maior arrecadação poderia gerar “n” políticas humanizadoras, não somente para a saúde. Só que não é esse o propósito embutido nas pressões (atuais e antigas) pela retomada do imposto do cheque. O destino dessas verbas é percebido mais como algo relacionado aos rostos frios de Cunha e Calheiros – com esses olhares que assassinariam centenas de esfinges – do que a algo que motivasse um país, mobilizasse energias. Tivesse alguma cor. Ou emoção.

Economistas também não precisam ser gélidos. Mas nos acostumamos a associar a segurança econômica – em um mundo administrado por cassinos financeiros – aos rostos impenetráveis de ministros da Fazenda. É como se qualquer gesto mais brusco desses senhores tivesse o poder de arrebentar mercados, ou um país inteiro. Eles falam de modo contido, sem ênfase, para não perturbar demais os analistas, tão suscetíveis.

É como se a CPMF estivesse de novo em pauta para ajudarmos o Itaú e o Unibanco a multiplicar seus lucros bilionários. E insisto: estou aqui falando de comunicação, não de economia na ponta do lápis. Um imposto que desembocasse em um “xô, Aedes” não precisaria ter uma alíquota de 0,38%. Poderia ser bem menos. Mas talvez o país acordasse mais disposto a colaborar, e a imagem da presidente (não ela, qualquer presidente nessa situação) pudesse parecer mais humana.

Lemos no mesmo jornal que a Organização Mundial de Saúde vai criar 30 centros de estudo de zika. Ótimo. Por aqui, lemos que o governo paulista corta novamente verbas  da USP, Unesp e Unicamp. Ou seja, estamos na contramão. Um país que não prioriza saúde e educação é um país condenado a ter, como expressão institucional, gente como Cunha e Calheiros. Com algum assessor de braços cruzados atrás deles, a ilustrar uma foto que parece ter saído de um velório do século 20. Até que todos adormeçam.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também:

3 comentários para "Entenderia-se melhor uma CPMF para combate ao Aedes aegypti"

  1. Ainda temos um abismo entre o que as ruas e pessoas realmente sentem, pensam e fazem e o que os políticos que elegemos sentem, pensam e fazem. Nossa opinião nada tem de pública, ela é forjada por veículos de comunicação de massa que tem a necessidade de manutenção da dependência pela informação que geram. Sites e blog’s independentes é o futuro que permitirá que uma nova geração tenha alcance a uma informação sem os atavismos mercenários e elitistas da classe dominante e poderão auxiliar melhor na abrangência que os assuntos necessitam. Para isso precisam ser independentes também da dualidade “o meu lado” o o “seu lado” hoje polarizando opiniões contra ou a favor não à ideias ou ideais, mas à grupos aos quais se sintam incluídos. O seu espaço até aqui foge a essa realidade e por isso é fonte diária de minha consulta e quase sempre de compartilhamento nas minhas redes sociais. Força & Fé! Luz & Paz!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *