Vai, Coríntia, ser Corinthians no mundo

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O campeão é como a periferia paulistana. Cansada de guerra, sabe defender-se. Vai ao ataque, mas não abre a guarda

Por Antonio Eleílson Leite

A conquista da Copa Libertadores da América pelo Corinthians não poderia vir em melhor hora. Não era para ser no ano do centenário; o Barcelona estava lá pra não deixar a festa completa. Sobrou para o Santos levar a pior. O destino sabe o que faz. Foi a redenção da Periferia. Itaquera está em festa! E o time do Parque São Jorge contrariou a máxima de que Deus escreve certo por linhas tortas. Não. Foi tudo retinho, linear. De 1 x 0 e 1 x 1, o Corinthians chegou lá. E para se consagrar, veio a goleada triunfante: 2 x 0. Vai, Coríntia!

Santista que sou, habituado à conquistas e glórias – a maior parte delas do passado, é verdade –, estava certo da vitória corintiana. Este time nos dá, primeiro, a segurança de que não vai perder; vencer, depende das circunstâncias. Mas atento aos erros do adversário, o Corinthians sempre acha um jeito de ganhar. E assim a Titelogia se impôs. A teoria do futebol prático. Nada mais prático do que uma teoria, já disse alguém. Vai, Coríntia!

TEXTO-MEIO

O Corinthians é como a periferia paulistana. Cansada de guerra, o que mais sabe é se defender. Quando vai ao ataque, não abre a guarda. Põe a cara pra fora e volta rápido, se junta aos companheiros: 50 mil manos, um bando de loucos, que formam um bloco sólido e coeso na defesa do território. Subverteram a tática da padaria: atacar em massa e defender em bolo. Criou-se a tática da confeitaria: um bolo caudaloso e consistente na retaguarda e um gol, apenas um gol, como a cereja da guloseima. Vai, Coríntia!

Tite é um caretão. Gaúcho de Caxias, sujeito conservador e religioso, parece um padre. Sua indumentária é muito semelhante à batina de um sacerdote católico. Na quarta-feira do título, estava todo de preto. Sujeito chato, não faz preleção, faz pregação. Adora livro de auto-ajuda e convida o Padre Marcelo para celebrar missa na concentração. Mas o cara sabe das coisas. Isso, agora ninguém pode negar. Entrou para o panteão dos técnicos consagrados: Murici, Luxemburgo e Felipão. Vai, Coríntia!

Mas o cara é o Emerson. Esse é malandro e bom de bola. Carioca, cresceu no morro. Para ele, pressão é medo de bala. Olhou para o zagueiro portenho e disse: “em rosto que mamãe beijou, vagabundo nenhum bate”. E o Caruso teve que engolir a marra do experiente atacante corintiano de 33 anos, apenas um a menos que o “velho” Riquelme que, andando em campo, sentiu inveja do pique do veterano do time alvinegro no segundo gol. Vai, Coríntia!

Dizem que o Corinthians é uma religião. É mais que isso. É fundamentalismo islâmico xiita. Tem muita gente que se diz religiosa e se omite numa conduta não praticante. O corintiano não tem dessas, não. É fanatismo renitente. O bom é que eles não fazem proselitismo. Respeitam a crença alheia. Corintiano não é convertido, já nasce corintiano. A informação genética tá lá no DNA. Aquele espermatozoide único, entre milhões, que carrega a missão de fecundar, grita (pode ver no microscópio), ao acoplar-se ao útero: Vai, Coríntia!

E o Corinthians enfim, representa a consagração da periferia. Em 2014, a periferia estará no centro do mundo na abertura da Copa, no Itaquerão, graças ao Corinthians e ao Lula, seu mais ilustre torcedor. O mundo em Itaquera e Itaquera no mundo. Depois de Ferréz, Sergio Vaz, Buzo, Criolo, Emicida, Quinteto em Branco e Preto e Racionais, vem o esquadrão do Parque São Jorge ganhar o planeta. E o Corinthians deixou de ser o time da Zona Leste. Vai para Tóquio e vai desbancar o Chelsea que já não tem mais o Drogbá, príncipe africano que colocou os ingleses na final. Ele foi para o Oriente ganhar dinheiro no fim de carreira – como fará o Riquelme. Então, vai, Corintia! Vai ser Corinthians no mundo.


Antonio Eleilson Leite é historiador, programador cultural e coordenador do Programa de Cultura da ONG Ação Educativa

 

Edições anteriores da coluna:

O Sarau do Binho e a resistência cultural pós-mitos
Crônica do poeta sem bar. Ou como culturas das periferias já não dependem dos botecos, nem de mistificações da classe média…
5 de Junho de 2012

Quinze anos de literatura e resistência
Criativo em vários gêneros e empreendedor pela cultura periférica, Ferréz prepara romance surpreendente, que confirmará sua condição de grande escritor

Literaturas da periferia: o desafio da estética
Como Cultura ressignificou, em dez anos, os subúrbios. Por que movimento precisa mostrar que sua importância vai muito além do social
16 de Abril de 2012

O Ex-excluído: manifesto de um poeta suburbano
Livro de Germano Gonçalves revela escrita visceral e urgente de autor que, influenciado por Raul e Leminski, canta periferia pré-hip-pop
5 de março de 2012

> Leia também as 35 edições de Cultura Periférica, a seção que Antonio Eleilson Leite publicou, entre outubro de 2007 e dezembro de 2008, no Caderno Brasil do Le Monde Diplomatique.

Jardim Santo André na Galeria Vermelho
Um espaço badalado das artes de São Paulo reproduz os grafites que estão mudando a paisagem de um dos bairros mais violentos do ABC. Retrato de um país secularmente desigual — onde, no entanto, a periferia cobra seus direitos, e se expressa cada vez mais por meio da criação simbólica

22 de dezembro de 2008

 

A nova arte da Cooperifa
Ela veio para ficar. A primeira Mostra Cultural da Cooperifa reunirá guerreiros e guerreiras fortemente armados com canetas, cadernos e livros. Trava-se uma luta incansável contra a ignorância,mediocridade, conformismo, tristeza e as pobrezas material e espiritual que insistem em saquear a quebrada
14 de novembro de 2008

Na Primavera, a leitura supera o marketing
Alternativa à Bienal, mostra de editoras independentes relembra que livros são, acima de tudo, espaço para idéias, inteligência e utopia. Evento abre espaço para iniciativas que não se submetem ao mercado, e combina exposição de obras com programação cultural – onde tem espaço a arte periférica
27 de setembro de 2008

Linha de Passe: um gol de letra e um gol-contra
Em seu novo filme, Walter Salles e Daniela Thomas constroem uma história brasileira que debate, com profundidade e sutileza, a existência e os dramas humanos. Mas o cacoete de associar periferia a infelicidade dá à obra um tom de chavão e frustra a própria intenção de esperança do diretor
22 de setembro de 2008

Cooperifa: leia o livro, veja o filme e ouça o disco
Série de obras artísticas celebra os saraus que ajudaram a construir o conceito de cultura periférica — e o mundo de iniciativas que está surgindo a partir deles. Trabalhos ressaltam opinião da jornalista Eliane Brum: “A Cooperifa é um abalo sísmico a partir de uma esquina de quebrada”
11 de setembro de 2008

Na Bienal do Livro, um roteiro alternativo
Debate sobre literatura periférica e um punhado de editoras, universitárias e semi-artesanais, valem a visita. Aí persiste o encanto de uma feira que foi indispensável — mas chega aos 40 anos um tanto decadente e deselegante. Talvez por apostar no gigantismo, e se render à lógica de mercado
22 de agosto de 2008

Gilberto Gil: LadoA e LadoB
Único artista a dirigir o ministério da Cultura até hoje, ele foi também o primeiro ministro a traçar políticas públicas efetivas para a produção simbólica. Valorizou a diversidade e a autonomia. Faltou assegurar recursos condizentes, e evitar que fossem canalizados para o marketing empresarial
6 de agosto de 2008

O Hip Hop nunca foi tão pop
Vinte e cinco anos depois de despontar no Brasil, a cultura hip-hop está bombando como nunca. Ligou-se ao showbizz, mas é capaz de manter, mesmo assim, seus princípios e essência. É claramente periférica. Dez eventos a celebram, a partir deste fim de semana, em São Paulo
26 de julho de 2008

“Meu bairro era pobre, mas ficava bem bonito metido num luar”
Mídia tradicional multiplica referências a Machado e a Rosa, rendendo-lhes homenagens previsíveis e banais. Coluna destaca outro centenário: o de Solano Trindade. Poeta, dramaturgo, ator e artista plástico, ele cantou a dignidade, as lutas, amores e dores dos negros e dos que vivem do trabalho
8 de julho de 2008

Um passo à frente e você já não está mais no mesmo lugar
Escola Pernambucana de Circo organiza, em festa, seu centro de arte-educação. Ao invés de adotar postura “profissionalizante”, iniciativa busca emancipar. Por isso, aposta na qualidade artística, técnica e cultural de seu trabalho, e foge do conceito de “arte para pobre”
17 de junho de 2008

Plano Nacional de Cultura: realidade ou ficção?
Ministério lança documento ousado, que estabelece, pela primeira vez, política cultural para o país. Dúvida: a iniciativa será capaz de driblar a falta de recursos e a cegueira histórica do Estado em relação à produção simbólica? Coluna convida os leitores a debate e mobilização sobre o tema
7 de junho de 2008

Semeando asas na quebrada paulistana
De como a trupe teatral Pombas Urbanas, criada por um peruano, chegou a mudar o nome do Brasil, trocou os palcos pelas ruas, sofreu a perda trágica de seu criador mas reviveu, animada pela gente forte da periferia — para onde regressou e de onde não pretende se afastar
2 de junho de 2008

Humildade, dignidade e proceder
Agenda da Periferia completa um ano de publicação. Como diria Sergio Vaz, não praticamos jornalismo — “jogamos futebol de várzea no papel”. Fazê-la é exercício de persistência, crença e doação. O maior sinal de êxito é o respeito que o projeto adquriu no movimento cultural das quebradas
24 de maio de 2008

A revolução cultural dos motoboys
Um evento em São Paulo, um site inusitado e dois filmes ajudam a revelar a vida e cultura destes personagens de nossas metrópoles. Sempre oprimidos, por vezes violentos, eles vivem quase todos na periferia, são a própria metáfora do caos urbano e estão construindo uma cultura peculiar
17 de maio de 2008

Manos e Minas no horário nobre
Estréia na TV Cultura programa que aborda cena cultural da periferia com criatividade, sem espetacularização e a partir do olhar dos artistas do subúrbio. Iniciativa lembra o históricoFábrica do Som, mas revela que universo social da juventunde já não é dominado pelos brancos, nem pela classe média
10 de maio de 2008

Pequenas revoluções
Em São Paulo, mais de cem projetos culturais passam a ter financiamento público, por meio do VAI. Quase sempre propostos por jovens, e a partir das quebradas, eles revelam as raízes e o amadurecimento rápido da arte nas periferias. Também indicam uma interessante preferência pela literatura
3 de maio de 2008

A periferia na Virada e a virada da periferia
Em São Paulo, a arte vibrante das quebradas dribla o preconceito e aparece com força num dos maiores eventos culturais do país. Roteiro para o hip-hop, rap, DJs, bambas, rodas de samba, rock, punk e festivais independentes. Idéias para que uma iniciativa inovadora perdure e supere limites
26 de abril de 2008

Retratos da São Paulo indígena
Em torno de 1.500 guaranis, reunidos em quatro aldeias, habitam a maior cidade do país. A grande maioria dos que defendem os povos indígenas, na metrópole, jamais teve contato com eles. Estão na perferia, que vêem como lugar sagrado.
20 de abril de 2008

Cultura, consciência e transformação
A cada dia fica mais claro que a produção simbólica articula comunidades, produz movimento, desperta rebeldias e inventa futuros. Mas a relação entre cultura e transformação social é muito mais profunda que a vã filosofia dos que se apressam a “politizar as rodas de samba”…
12 de abril de 2008

É tudo nosso!
Quase ausente em É tudo Verdade, audiovisual produzido nas periferias brasileiras reúne obras densas, criativas e inovadoras. Festival alternativo exibe, em São Paulo, parte destes filmes e vídeos, que já começam a ser recolhidos num acervo específico
5 de abril de 2008

Arte de rua, democracia e protesto
São Paulo saúda, a partir de 27/3, o grafite. Surgido nos anos 70, e adotado pela periferia no rastro do movimento hip-hop, ele tornou-se parte da paisagem e da vida cultural da cidade. As celebrações terão colorido, humor e barulho: contra a prefeitura, que resolveu reprimir os grafiteiros
28 de março de 2008

As festas deles e as nossas
Num texto preconceituoso, jornal de São Paulo “denuncia” agito na periferia e revela: para parte da elite, papel dos pobres é trabalhar pesado. Duas festas são, no feriado, opção para quem quer celebrar direito de todos ao ócio, à cultura, à criação e aos prazeres da mente e do corpo
21 de março de 2008

Arte independente também se produz
Às margens da represa de Guarapiranga, Varal Cultural é grande mostra de arte da metrópole. Organizado todos os meses, revela rapaziada que é crítica, autogestionária, cooperativista e solidária — mas acredita em seu trabalho e não aceita receber migalhas por ele
15 de março de 2008

Nas quebradas, toca Raul
Um bairro da Zona Sul de São Paulo vive a 1ª Mostra Cultural Arte dos Hippies. Na periferia, a pregação do amor e liberdade faz sentido. É lá que Raul Seixas continua bombando em shows imaginários, animando coros regados a vinho barato nas portas do metrô, evocando memórias e tramando futuros
8 de março de 2008

No mundo da cultura, o centro está em toda parte
Estamos dispostos a discutir a cultura dos subúrbios; indagar se ela, além de afirmação política, está produzindo inovações estéticas. Mas não aceitamos fazê-lo a partir de uma visão hierarquizada de cultura: popular-erudita, alta-baixa. Alguns espetáculos em cartaz ajudam a abrir o bom debate
23 de fevereiro de 2008

Do tambor ao toca-discos
No momento de maior prestígio dos DJs, evento hip-hop comandado por Erry-G resgata o elo entre as pick-ups, a batida Dub da Jamaica e a percussão africana. Apresentação ressalta importância dos discos de vinil e a luta para manter única fábrica brasileira que os produz
16 de fevereiro de 2008

Pirapora, onde pulsa o samba paulista
Aqui, romeiros e sambistas, devotos e profanos lançaram sementes para o carnaval de rua, num fenômeno que entusiasmou Mário de Andrade. Aqui, o samba dos mestres (como Osvaldinho da Cuíca) vibra, e animará quatro dias de folia. Aqui, a 45 minutos do centro da metrópole
2 de fevereiro de 2008

São Paulo, 454: a periferia toma conta
Em vez de voltar ao Mercadão, conheça este ano, na festa da cidade, Espaço Maloca, Biblioteca Suburbano Convicto, Buteco do Timaia. Delicie-se no Panelafro, Saboeiro, Bar do Binho. Ignorada pela mídia, a parte de Sampa onde estão 63% dos habitantes é um mundo cultural rico, diverso e vibrante
24 de janeiro de 2008

Faça você mesmo!
Por meio da cultura, jovens das periferias brasileiras fazem uma revolução. Um panorama da produção independente nas quebradas das metrópoles: como a arte criada fora da indústria cultural subverte a mercantilização e controle do conhecimento, marca do capitalismo
14 de janeiro de 2008

2007: a profecia se fez como previsto
Há uma década, os Racionais lançavam Sobrevivendo no Inferno, seu CD-Manifesto. O rap vale mais que uma metralhadora. Os quatro pretos periféricos demarcaram um território, mostrando que as quebradas são capazes de inverter o jogo, e o ácido da poesia pode corroer o sistema
29 de dezembro de 2007

No meio de uma gente tão modesta
Milhares de pessoas reúnem-se todas as semanas nas quebradas, em torno das rodas de samba. Filho da dor, mas pai do prazer, o ritmo é o manto simbólico que anima as comunidades a valorizar o que são, multiplica pertencimentos e sugere ser livre como uma pipa nos céus da perifa
30 de novembro de 2007

A dor e a delícia de ser negro
Dia da Consciência Negra desencadeia, em São Paulo, semana completa de manifestações artísticas. Nosso roteiro destaca parte da programação, que se repete em muitas outras cidades e volta a realçar emergência, diversidade e brilho da cultura periférica
19 de novembro de 2007

Onde mora a poesia
Invariavelmente realizados em botecos, os saraus da periferia são despojados de requintes. Mas são muito rigorosos quanto aos rituais de pertencimento e ao acolhimento. Enganam-se aqueles que vêem esses encontros como algo furtivo e desprovido de rigores
13 de novembro de 2007

Todos os dias da Semana
Programação completa da Semana de Arte Moderna da Periferia
2 de novembro de 2007

O biscoito fino das quebradas
Semana de Arte Moderna da Periferia começa dia 4, em São Paulo. Programa desmente estereótipos que reduzem favela a violência, e revela produção cultural refinada, não-panfletária, capaz questionar a injustiça com a arma aguda da criação
2 de novembro de 2007

A arte que liberta não pode vir da mão que escraviza
Vem aí Semana de Arte Moderna da Periferia. Iniciativa recupera radicalidade de 1922 e da Tropicália, mas afirma, além disso, Brasil que já não se espelha nas elites, nem aceita ser subalterno a elas. Diplô abre coluna quinzenal sobre cultura periférica
17 de outubro de 2007

TEXTO-FIM
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Antonio Eleilson Leite

Antonio Eleilson Leite é historiador, programador cultural, mestrando no Programa Estudos Culturais da EACH/USP, coordenador do Programa de Cultura da ONG Ação Educativa, diretor editorial da Coleção Literatura Periférica, da Global Editora. É coordenador geral do Encontro Estéticas das Periferias e da Agenda Cultural da Periferia.