Só não seremos fofas

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Pela inconformidade de gênero. Pela transgressão dos padrões feitos para agradar aos homens – e às mulheres que se submetem

Por Maria Bitarello | Imagem: Laerte

Aprendi um termo novo esses dias: conformidade de gênero. Não tinha o vocabulário correto, mas a sensação, sim, claro. Há mulheres mais ou menos de acordo com o que se espera delas, assim como há homens considerados masculinos o bastante – ou não. Se sua intuição está agora te dizendo que quem tem maior conformidade de gênero só pode ser a mulher cis heterossexual, por exemplo, volte duas casas. Não necessariamente. A mulher trans pode ser muito mais lady. Conformidade de gênero, segundo aprendi, não tem a ver com orientação sexual nem com identidade de gênero, mas sim com o que se espera do comportamento social do seu gênero. Ou seja, quão feminina ou masculino é você?

Eu, com certeza, não sou muito mulherzinha assim como manda o manual das donzelas. Nunca me comportei como a mocinha que minha vó talvez gostaria que eu tivesse sido. Olho em volta e vejo outras mulheres bem mais de acordo com as normas femininas, da vestimenta ao tom de voz. Pelo menos no Brasil. Somos uma legião de mulheres atuando fora da zona (bem estreita) de comportamentos ditos apropriados. Fora disso já fica um pouco desconfortável. Meio sapatão, muito independente, pouco delicada. Personalidade demais. Preocupação de menos com a aprovação masculina. Um crime que não costuma passar impune.

Não sei você, mas eu tenho mais acessórios de acampamento do que sapatos. Mais instrumentos musicais do que bolsas. Mais livros do que qualquer outra coisa. Joguei futebol, tocava guitarra, faço fotografias. Gostava de subir nas coisas, me meter em encrenca, andar de bicicleta, patins, roubar frutas do vizinho. As brincadeiras das outras meninas de apartamento da minha geração me pareciam de um tédio inenarrável. Ser esposa, cuidar da casa, do marido, dos filhos: que saco. Eu precisava correr e criar, suar e me arriscar, igual um cachorro, pra não pirar. Me diziam que eu não tinha modos. Daí eu cresci e só piorou. Gosto de viajar sozinha. Falo palavrão. Sento de pernas abertas. Nunca fui sustentada por um cônjuge. E segundo meu mapa astral, nunca serei.

Claro que #nãotáfácilpraninguém, mas a vida de uma menina é diferente da de um menino. Ela é bem mais recheada de nãos e de “tem que”. Não pode voltar pra casa essa hora à pé, tem que casar, não deve viajar sozinha, tem que construir família, não vai dormir lá na casa do menino, tem que deixar o marido ser o centro das atenções, não pode ficar com essa unha roída horrorosa. Mesmo desconfiadíssima desse esquema suspeito, minha vez também chegou. Hora de virar mulher. Os peitos crescem, os meninos te olham diferente, você menstrua e já pode engravidar. O “você agora já é mocinha” carrega significados múltiplos. Não pode dar pra qualquer um, mas também não pode ficar pra titia. Tem que trabalhar e correr atrás do seu, mas não demais, senão homem nenhum vai querer ficar com você. Um inferno.

TEXTO-MEIO

Mas viajar liberta. Viajando descobri que nem sempre é assim, como é aqui. Que em alguns lugares é pior. Em muitos, aliás. Mas que em alguns também é melhor. Descobri que cada cultura tem seus próprios códigos sobre o que é ou não feminino ou masculino o bastante. Que o desajuste em um lugar pode não significar nada demais em outro. Que na Europa, por exemplo, sou tipo mulherzinha padrão latina – feminina, barroca –, algo que aqui eu jamais seria. Viajando, aqui e alhures, também conheci mulheres maravilhosas que me mostraram outros caminhos possíveis, que afirmam a existência de uma outra mulher. Uma que arrisca desrespeitar os padrões que estão aí pra agradar aos homens – e às mulheres que só pensam em agradar aos homens.

Ser mulher traz uma bagagem kármica só sua. E karma tem o que vem com a gente e o que a gente gera pra próxima vi(n)da. Eu sou sagitariana e tenho um otimismo incurável de que tudo vai melhorar. Se não na macropolítica – porque tá tudo um horror –, na micro: em mim, em você, no cotidiano, no tudão. Sei lá, acho que evolução é inevitável. Confio nisso. E que certas coisas demoram uma vida toda pra gente entender. Tenho uma tia que diz que ser mulher é um estado evolutivo e espiritual mais avançado do que ser homem. Eu acho maravilhoso ser mulher, mas não é pros fracos, não. Segundo a filosofia barata e doméstica dessa minha tia, se você é mulher nessa vida, é porque já veio antes como homem e já andou pra frente. Eu gosto dessa ideia. Assim, na próxima encarnação, quem sabe, poderemos ser árvores. Seremos flores. Pedras. Água. Só não seremos fofas.

TEXTO-FIM
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Maria Bitarello

Maria Bitarello trabalha como escritora, jornalista, tradutora e é mestre em Literatura Brasileira e Portuguesa pela UCLA. Só sei que foi assim (2014) é seu primeiro livro e outros trabalhos seus estão no blog ioncemetagirl.com

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