O território das novas revoluções

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Quando juventude das quebradas comunicar-se sem intermediários, as estruturas cedem, garante Celso Athayde: “Porque só há opressão quando há omissos”

Entrevista a Inês Castilho | Imagem: Ratão Diniz


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Em meio a críticas e esperanças, pensadores e ativistas debatem como superar crise da representação e reinventar democracia.

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Leia também, nesta série, as entrevistas com Fernando Meirelles,  Ricardo AbramovayEduardo Viveiros de Castro e Drica Guzzi.

“Quem não estiver feliz tem que levantar o dedo, ainda que seja o dedo médio”, dispara o produtor cultural Celso Athayde, um dos fundadores da Central Única das Favelas, a CUFA, no Rio de Janeiro, ao convocar a juventude moradora das favelas a assumir seu próprio destino. “Só existe uma forma de fazer revolução social no país: é esses jovens que sofrem o impacto da desigualdade social assumirem o protagonismo da mudança. Não existe para sempre um opressor e um oprimido, só haverá opressor se houver omissos” – diz ele, em mais um diálogo da série “Outra Política”, realizado no âmbito do estudo “Política Cidadã”, que o Instituto Ideafix produziu para o IDS (Instituto Democracia e Sustentabilidade).

Autor, com o rapper MV Bill, do livro Falcão-Meninos do Tráfico, que deu origem a um documentário; e de Cabeça de Porco, este em parceria com MV Bill e o antropólogo Luiz Eduardo Soares, ex-secretário nacional de Segurança Pública – Athayde revela seu entusiasmo diante das possibilidades abertas à juventude das quebradas pela comunicação via redes sociais (como frisou Drica Guzzi em sua entrevista).

“Não tem como desconsiderar que as redes sociais vieram para ficar e para dividir um espaço significativo com as mídias formais”, sustenta Celso. “Quanto mais as pessoas conseguem operar essas máquinas, mais próximas das informações, mais perto da revolução elas ficam, mais chances de ser livres terão.” Ao dizer isso, recorda a necessidade de engrossar a luta por banda larga de qualidade, junto com educação de qualidade (como defendeu o antropólogo Viveiros de Castro em outra de nossas conversas).

As novas formas de comunicação livram os jovens da manipulação da grande mídia: da imagem negativa que ela imprime às favelas ou, por ocultamento, da imagem que não traz, da sociabilidade amorosa: “O amor está nas escolas, nos presídios, no trabalho. Contudo, parte da sociedade monstrifica esses seres humanos territorialmente distantes – as tais comunidades. Os noticiários deixam a impressão de que tudo está perdido, as relações estão dilaceradas.”

Celso se declara admirador do MST, Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, sobretudo pela audácia com que ele luta por aquilo em que acredita. “A democracia plena só vai existir quando as pessoas tiverem os mesmos direitos e as mesmas oportunidades”, diz ele. “Somos a sexta economia mundial e temos milhares de pessoas vivendo abaixo do limite da pobreza.”

A CUFA, instituição de que é secretário geral, vem compartilhando com outros países e estados brasileiros a experiência acumulada em condições difíceis: excelência em superação e solidariedade, maestria em dar nó em pingo d’água – afinal, o Brasil é líder planetário em desigualdade. “A ideia de que os países desenvolvidos não têm problemas porque são ricos não é verdadeira. Existem problemas em todo lugar, seja porque os pobres mundiais migram em grande escala para esses países ou por outra razão.”

Vivemos uma encruzilhada, escreveu Immanuel Wallerstein: “o sistema-mundo capitalista vive uma bifurcação, em que a ação coletiva da humanidade determinará que tipo de ordem mundial teremos no futuro, para o bem ou para o mal.”

A encruzilhada, na umbanda, é um ponto de força utilizado para o descarrego de energias negativas. À semelhança das cachoeiras e praias emana vibrações energéticas especiais. Está propícia, portanto, ao exorcismo das forças do atraso da desigualdade mundial, que mantêm os países desenvolvidos, com 20% da população global, consumindo 80% dos recursos naturais. A seguir, a entrevista. (Inês Castilho)

Como você percebe a participação política do brasileiro?

A gente tem crescido e se desenvolvido, mas bem aquém do que deveríamos. Ainda há um ódio muito grande contra os políticos e da política, na classe social com que convivo. Por isso acabamos sendo dirigidos por outras camadas sociais, a dos coronéis, muito mais atentos e agressivos. As pessoas da classe fodida não têm muita crença em mudanças – o que faz com que se distanciem dessa realidade. A contribuição única acaba sendo votar, ou mesmo vender seus votos. Mas de certa maneira todos vendem ou negociam seus votos: o que difere são os preços praticados.

A própria eleição da Dilma mostrou um pouco esse crescimento. Era de um lado o poste e do outro a grande máquina da mídia – e o voto foi consciente, não de protesto como em outros momentos. Só que, no dia a dia, não se vê ânimo em relação à política formal. Prefiro crer que estamos iniciando um processo.

Quais os temas que mobilizam a sociedade, falando particularmente das classes populares?

Juventude. A gente tem acompanhado um debate muito interessante no campo do trabalho e renda, discussões sobre a massificação da mídia. A juventude do movimento negro e movimento de estudantes tem se empenhado em relação a esses temas.

As rádios comunitárias estão aumentando de maneira muito acentuada. Essa juventude está tendo a oportunidade de ter as redes sociais para se comunicar, e com isso fazer grandes intervenções. Estão se valendo delas como uma grande ferramenta: por lazer, para namorar, para fazer intervenções coletivas nas relações comerciais e políticas.

É um debate muito bom que está acontecendo. Mais que isso, está sendo uma prática diária dessas classes menos privilegiadas.

A tecnologia e as redes sociais têm um papel nos processos de mobilização política, a seu ver?

Não tem como desconsiderar que as redes sociais vieram para ficar e para dividir um espaço significativo com as mídias formais. O mundo mudou a partir disso e, necessariamente, a mobilização da juventude passa por esse desenvolvimento. Quanto mais as pessoas conseguem operar essas máquinas, mais próximas das informações, mais perto da revolução elas ficam, mais chances de ser livres terão.

Essas diversas formas de comunicação estão livrando essa juventude da lógica perversa a que a mídia formal submete as pessoas. Insisto em lembrar que são moradores das favelas – onde vivem em desvantagem social –, e que hoje criaram uma liga de empreendedores comunitários, seguro de vida grátis e muitos outros ativos para as favelas. Mais importante do que a ação é assumir o risco de tentar – isso é o que tem feito a diferença.

Fale sobre a Central Única das Favelas, a CUFA.

A CUFA começou como movimento hip hop e veio a entender que a cultura hip hop não é só os quatro elementos – o break, que é a dança; o grafite, que é arte plástica; DJ, o maestro; e rap, o canto. É mais o sentimento de transformação que essa juventude precisa ter. O MV Bill é um dos nossos fundadores, e minha maior alegria é dizer que o Bill ficou famoso e usa essa fama para viabilizar um monte de gente. Ele se transformou em um nome forte, mas que seria inútil, como ele diz, se não fosse usado para a coletividade, dar poder aos jovens. Nunca se comportou como artista, não aceita essa ilusão.

A CUFA é uma instituição de jovens de favelas, cujo déficit cultural é muito grande. Ela possibilita a jovens como eu, sem nenhum estudo, se desenvolver em várias esferas – inclusive se relacionando com instituições que sempre criticaram, e mantendo sua crítica à Rede Globo e aos governos. O fato é que não podemos acreditar que existe para sempre um opressor e um oprimido.  Precisamos crer que só haverá opressor se houver omissos. Quem não estiver feliz tem que levantar o dedo, ainda que seja o dedo médio. O sistema somos todos nós juntos, a CUFA entendeu isso.

É uma instituição de jovens que diziam que todo mundo é opressor. Só que, ao dizer isso, esses jovens se colocavam automaticamente na condição de oprimidos. Sair do lugar do oprimido e se relacionar com aqueles que, em tese, são os opressores – essa era a grande encruzilhada. Parar de acusar as pessoas de playboy por terem acesso à coisa pública ou possuírem bens – mas valer-se também dos próprios direitos, a partir do conhecimento. Transformar suas relações, desenvolver-se e integrar-se socialmente, ganhar corpo e sentar-se à mesa onde se decide o seu futuro. É fácil? Não, não é. Mas a CUFA tem conseguido mostrar que impossível também não é.

Qual a contribuição da CUFA ao aprofundamento da democracia brasileira?

Acreditamos que só existe uma forma de fazer revolução social no país: é esses jovens que sofrem o impacto da desigualdade social assumirem o protagonismo da mudança. Se eles, que sofrem as grandes diferenças, não estiverem preparados ou condicionados a se preparar, a desgraça humana vai continuar. Pois quando esse monte de gente bem intencionada, de bom coração, que dá esmola e assim consegue dormir mais tranqüila – quando essas pessoas não puderem ou não quiserem mais ajudá-los, o processo de depressão vai continuar. Pois eles se transformaram em escravos dessa lógica de aceitar migalhas, ao invés de desenvolver e organizar o seu próprio destino.

Agora, pedir que as pessoas sejam fortes é fácil – já os exemplos são muito difíceis. Minha mãe sonhava que eu fosse borracheiro e minha irmã, empregada doméstica que não roubasse a patroa; não conseguia imaginar minha irmã patroa. Romper com esse sentimento é nosso maior desafio: não só dizer, mas demonstrar, conviver com os exemplos bem sucedidos. Na verdade, esse é o maior legado que podemos deixar aos nossos filhos. Não conseguimos ainda massificar essa mobilidade social.

Qual a presença da CUFA nos territórios das favelas?

Quando a CUFA assume a perspectiva de transformar esses jovens em protagonistas, de trabalhar para eles entenderem a necessidade dessa transformação, torna-se uma instituição relevante. Está hoje em 412 cidades, de 17 países – em alguns tem mais de dez bases. Nos Estados Unidos a sede é em Saint Louis, mas tem base no Brooklin [em Nova Iorque], na Califórnia… Hoje a gente sabe que são intensos os conflitos na Inglaterra, na França. É falsa a ideia de que os países desenvolvidos são ricos e não têm problemas. Existem problemas em todos os lugares, seja porque os pobres mundiais migram em grande escala para esses países ou por outra razão.

O papel da CUFA não é resolver os problemas das pessoas, mas estimulá-las a buscar suas soluções. Através de uma grande rede os problemas são resolvidos com menos traumas. A CUFA não é mais uma organização para as favelas, mas de pessoas de favelas que pregam a felicidade para todos. Queremos  avançar sem fazer disso uma plataforma de marketing, as pessoas fazem parte da CUFA por convicção.

Que trabalhos vocês desenvolvem?

O primeiro grande ativo da CUFA é: como esses jovens de favela podem desenvolver seu próprio processo de construção? Essa é a luta, por vários caminhos – por exemplo o Top CUFA Brasil, a Taça das Favelas, as Olimpíadas das Favelas, Falcão Meninos do Tráfico, o Prêmio Anu, Comunidade Segura, Jungle CUFA, Data CUFA, A Ponte. Tem o audiovisual, o esporte, o basquete de rua – uma marca nossa. O curso de qualificação profissional, feito em vários lugares, que se adapta às características locais com o objetivo de democratizar o poder e descentralizar as oportunidades.

A CUFA ganhou o Prêmio Darcy Ribeiro 2010, da Câmara dos Deputados em Brasília, por ter formado mais de 100 mil jovens no ano. Criou um projeto de audiovisual, com o conceito de que a favela já foi muito retratada e agora é a hora dela retratar o mundo. Oferece às pessoas das favelas ferramentas para que busquem as referências que quiserem. Queremos que formulem seus próprios pensamentos, e isso se dá através desses projetos e também por outros, como o Aglomerado, programa de tevê [TV Brasil], e vários programas de rádio. São meros fio condutores de um processo – não de mediação de conflitos, mas de mediação de felicidade e de paz.

A seu ver, o que caracteriza as relações das pessoas com a família, a comunidade, a sociedade?

Comunicação e lealdade. A sociabilidade é a maior característica do ser humano. Quando você se relaciona com as famílias, os grupos, as pessoas, vê que o amor está ali. O amor está nas escolas, nos presídios, no trabalho. O amor, com suas faces e formas, é o que permite às relações fluírem.

Contudo, outra parte da sociedade monstrifica esses seres humanos territorialmente distantes – as tais comunidades. Elas são vistas a partir de noticiários nos quais as pessoas se matam – por amor ao sonho da mobilidade social. Esses noticiários deixam a impressão de que tudo está perdido, as relações dilaceradas. Acontece que, mesmo no caso das pessoas envolvidas com crack, as relações se despedaçam mas se vê o tamanho da paixão, o sofrimento das famílias na tentativa de resgatar seus entes queridos.

Algum movimento social chamou sua atenção recentemente, no Brasil ou em outros países?

O MST sempre foi uma grande referência pra mim, sobretudo pela audácia com que lutam por aquilo em que acreditam. Mas, como todos os movimentos, precisam rever certas questões. O MST entrou na mira da própria esquerda. Não quero analisá-lo por falta de propriedade, só quem está dentro da guerra sabe o tamanho da dor. Mas as críticas dizem que deixaram de ser solidários a pautas que não eram necessariamente suas, se distanciando de movimentos que sempre os apoiaram. Ao participar da pauta de outros movimentos, o MST fazia com que se apaixonassem pela sua pauta, de perto. Mas passou a caminhar só – e a ter só parte da compreensão do que representa.

É fundamental que os movimentos trabalhem em rede, não acredito em nenhum movimento que não prospere a partir da rede. Se não, passa a fazer ações que podem dar resultados pontuais, mas não mudar o padrão social em que a gente vive. Uma organização que faz a opção de caminhar sózinha não é organização social, mas uma empresa de marketing social vestida de Ong ou algo que o valha.

Pensando em tudo o que falou até aqui, você imagina novas formas de fazer política? Que valores sustentariam esse modelo?

A democracia é o melhor dos modelos, desde que plena. Reconheço que muitas vezes é sinônimo de zona, arrisco até a dizer um absurdo: a melhor democracia é aquela praticada pelas pessoas que pensam como nós. Mas democracia plena só vai existir quando as pessoas tiverem os mesmos direitos e as mesmas oportunidades. Somos a sexta economia mundial e há milhares de brasileiros vivendo abaixo do limite da pobreza. Se tem miséria, não há oportunidades iguais.

O mundo caminha para o caos. Foi importante tentar outros modelos, mas cada pessoa vai ter que achar uma forma de ser feliz socialmente, dentro do coletivo. O equilíbrio social pode se dar em um país onde existam milionários e proletariado. Ninguém precisa ser infeliz porque é proletário – você pode ter a dignidade garantida. Um país livre, democrático é aquele que permite a mobilidade social pela capacidade das pessoas, testadas a partir das oportunidades. Aí a democracia funciona para todos.

Como você vê a questão do consumo, da publicidade?

Não existe como fugir desse aguçar do consumo, quando se vive em um país capitalista. Nossa cultura é baseada na sexualidade e na perene promiscuidade, e consumir é de certa maneira manter sólidas essas referências, significa seduzir o outro o tempo todo. A publicidade joga mais lenha nessa fogueira e mantém aquecidos os mercados.

Ao mesmo tempo em que a gente critica a forma como as pessoas são induzidas a consumir, argumenta-se que é o consumo que faz a máquina girar, a partir dele é que conseguimos equilibrar a economia. Nos momentos tensos, o próprio governo pede que as pessoas consumam, para evitar do país cair em depressão.

O que vale para o capitalismo é o dinheiro – o amor é apenas um detalhe. Seu filho quer o tênis que todos estão usando. Somos escravos do consumo, assim como da sexualidade. Qual o sonho das pessoas? A mobilidade social: ter um carro bacana. Vocês querem ter uma casa bacana, querem que seus filhos estudem em uma boa escola para competir melhor no futuro. Estão preparando seus filhos para uma guerra, não só a do conhecimento, é a do consumo também.

O consumo é o que faz você ter personalidade, ter as melhores coisas, é que leva a pessoa a se sobressair nos meios sociais. Nossas relações são baseadas naquilo que se possui, desde criança – quem tem ou exibe mais posses terá mais influência, status e poder. O consumo precisa ser tão abominado quanto é desejado.

Você acha que a espiritualidade tem algum papel na vida, na felicidade das pessoas?

A gente vê no dia a dia: o jovem que tem compromisso com a espiritualidade é mais focado, concentrado, e vive em grupos de um risco muito menor. Parecem mais felizes e levam vantagens em relação a outros jovens. Têm grupos mais sólidos e um código de ética, compromissos que transcendem a vida familiar. Os jovens que não têm contato com a espiritualidade têm suas relações sociais limitadas à família e à escola. Mas é importante saber qual é a felicidade que cada pessoa contempla – não descobri minha relação com a espiritualidade e me considero feliz e realizado. Pregar a espiritualidade é como obrigar as pessoas a acreditarem em Deus. É dizer a elas que faz parte do bom senso ser parte do consenso.

A CUFA tem um grupo de LGBT – o que cria conflitos com os grupos evangélicos da CUFA. Ao mesmo tempo em que não podemos admitir que os direitos humanos sejam violados, não podemos oprimir a orientação religiosa das pessoas – e muitas entendem que o homossexualismo é um câncer social e moral. Não é fácil conviver com isso. Tem também o conflito dos evangélicos com o candomblé. Esse debate permanente leva a instituição a se voltar mais para a discussão dos direitos humanos do que para a da sexualidade. Temos que conviver com os conflitos que existem – e tendem a se acirrar.

Procuram trabalhar com as semelhanças…

Sim, pensar no desenvolvimento social dessas pessoas, cujo futuro sempre foi planejado pelos outros. Em busca de um projeto de construção de identidade, encontramos esse: uma grande rede, administrada por poucas pessoas, mas na qual todos tivessem benefícios claros, objetivos, e independência. Esse é o maior mérito da CUFA.

Por ter vivido a vida inteira em favelas, o tráfico sempre foi uma referência para mim. O estatuto do tráfico pregava paz, justiça e liberdade. Essa paz nunca existiu; liberdade menos ainda, pois a base era a escravidão; e a justiça era baseada no entendimento de cada um. Para a CUFA, tudo o que eu não queria era isso. Mas já na criação da cúpula da CUFA começava um processo de opressão, a partir do momento em que instituiríamos quem mandava e quem obedecia. Decidimos então que o nosso modelo seria uma grande rede em que todos fossem independentes, donos dos seus espaços, mas deveriam satisfação ao coletivo. Um dia  sentaríamos para profissionalizar esse sentimento. É o que estamos fazendo agora, apoiados pela Fundação Dom Cabral: sistematizando essa loucura que criamos até aqui.

O mundo se desenvolve através de símbolos, são os heróis que nos posicionam, e não temos mais heróis. Carecemos, em todos os processos políticos, de grandes lideranças ou referências por quem a gente tenha prazer de se guiar. Houve um momento em que havia líderes mundiais amados, como Che Guevara. Pensar nos anos dourados de chumbo traz um romantismo saudável, apesar da dor…

Você viveu essa época?

Não vivi, mas o tráfico viveu, bebeu dessa fonte. A Falange Vermelha foi influenciada pelo MR8 e pela Var-Palmares, e mesmo por livros como Guerra e paz [Leon Tolstói, publicado em 1865-69]. As pessoas tinham motivos para fazer mais, para lutar. A involução tem contribuído para o esvaziamento da qualidade de tudo: a música não tem mais a qualidade de antes, as lutas não têm mais razões do que antes.

Se me perguntar se será melhor direi que sim, mas vai ser difícil dormir convencido disso. O mundo caminha para onde deveria ir – para o caos. Dizer isso é ruim, bom mesmo é dizer o contrário e ir tomar um chope. Os países-referência ruíram, quem vai apagar essa luz? Às vezes dá a impressão de que colocaram os seres humanos em uma caixinha sem porta de saída, como se fossem ratos, e eles vão vivendo, se alimentando com o que tem na caixinha, fazendo sexo, se reproduzindo. Um dia a comida vai acabar e os ratos vão se matar.

É o futuro que vê?

O mais difícil é assumir isso. Prefiro fazer como as ciganas que leem nossas mãos: todas dizem que seremos felizes. Se é verdade não sei, mas o pagamento a elas se justifica pelo apoio moral.

 

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Inês Castilho

Jornalista