Mulher no cinema, um retrato fora de foco

170111_Os passaros The Birds Alfred Hitchcock filme

Tipy Hedren em “Os Pássaros”, de Alfred Hitchcock

Histéricas, traiçoeiras, frígidas ou mães coragem: representação do feminino nas telas é preconceituosa e desigual — e nem Hitchcock escapa. É que mulheres não decidem o que vai para as telas

Por Beth Sá Freire

A primeira vez que me dei conta da má representação do feminino no cinema foi no Festival de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand, na França, em 2001, a primeira das quinze vezes em que estive naquele festival.

Lembro de minha sensação ao findarem os 90 filmes de curta-metragem daquela mostra internacional, oito dias depois do seu início. Como eram as mulheres apresentadas naqueles filmes? Desequilibradas, histéricas, inúteis, gritonas, sofridas, traiçoeiras, frígidas ou mães coragem – e tudo levado ao extremo. Tantos filmes, e não me identifiquei com qualquer daquelas mulheres!

No ano seguinte, 2002, já mais afeita aos modos e maneiras de se construir um festival, fui checar no catálogo do evento a composição dos comitês de seleção, pessoas designadas pelos eventos para decidir o que você vai ver ou deixar de ver. Surpresa: não havia uma mulher sequer entre as dez pessoas que compunham o comitê.

TEXTO-MEIO

Hoje, passados mais de quinze anos e depois de muita insistência de outras mulheres que, como eu, frequentam aquele festival, finalmente admitiram duas mulheres no comitê internacional.

O Festival de Clermont-Ferrand abre este texto, que vou chamar de desabafo.

Recentemente, na Mostra Cinema de Invenção do CineSesc, uma retrospectiva de obras de autores consagrados dos anos 70 como Bressane, Reichenbach, Ivan Cardoso, Carlos Ebert, entre outros, me diverti com a linguagem de uns e a tosquice de muitos. Mas sai chocada com a maneira como as mulheres foram apresentadas em um deles, Império do Desejo. Criaturas sem alma, sem vontade, com elas tudo se podia fazer. Ludibriá-las, maltratá-las e desprezá-las. Sai do cinema com vontade de vomitar, sentindo-me muito humilhada.

Aquela noite foi de insônia, lembrando histórias em que somos retratadas como ridículas, sem fibra e sem coragem, sempre aos gritinhos.

Lembrando, então: Hitchcock adorava as mulheres, mas só até a página 2. Gostava mesmo era de expô-las: Grace Kelly, Kim Novak, Shirley Maclaine, Tippy Heddren – lindas, mas apalermadas. Colavam-se às paredes, aos gritos, enquanto o namorado apanhava. Ou enquanto as salvava. Vem a visão de Os Pássaros, quando as aves invadem a casa por todos os cantos e a mocinha e a mãe do mocinho apenas choram e gritam.

Nos westerns nem é preciso falar, inclusive porque para as mulheres sobravam apenas frases banais, tipo “good bye, I´ll wait for you”, ou simplesmente “yes”. Isso quando não tinham suas bocas tapadas pelos beijos mal dados dos cowboys, que sempre partiam.

Há exceções, é claro! Há Bette Davis alertando que a boazinha do All About Eve (A Malvada) era uma peste. Há Sophia Loren em Una Giornatta Particolare (Um Dia muito Especial), recusando-se a descer à rua, junto com Mastroianni, para ver o encontro dos nazifascistas Hitler e Mussolini, que desfilavam em glória. São muitas as heroínas no cinema. Mas, comparadas ao número de homens, não dá nem para começo.

A diferença dos gêneros no cinema é de tal maneira interiorizada que, mesmo eu, me pego às vezes distraída para tratar da questão. Alguns meses atrás estava com minha colega, Anne, montando a programação de curtas para o nosso festival. Tínhamos uma lista de cem filmes vistos e aprovados por nosso comitê, mas o limite era de 65 para programar e exibir. Anne chamou a minha atenção: são todos bons, vamos tentar um equilíbrio entre realizadoras e realizadores. Àquela altura eu passava alto e batido sobre esse ponto. Como dizem os franceses, ça va sans dire, tão naturalmente. Sim, temos que prestar atenção, é preciso tentar equilibrar as forças.

No Festival de Curtas de São Paulo, realizado em agosto, celebramos uma ótima parceria com as cineastas que integram o Coletivo Vermelha. Elas nos propuseram trazer a Ellen Tejle, programadora e diretora da sala de cinema Bio Rio, em Estocolmo, na Suécia, para falar de igualdade de gênero, racismo e sexismo no audiovisual, questão com que ela trabalha há anos.

O encontro com o público feminino do festival foi muito rico e os números apresentados pela Ellen Tejle nos deixaram impressionadas: a primeira pesquisa sobre o tema já tem 40 anos, e o resultado é quase idêntico ao de um estudo atual. Ou seja, a questão da mulher e de sua presença no cinema permanece quase inalterada.

Acabo com uma saudação cheia de respeito às nossas cineastas – fotógrafas, diretoras de arte, montadoras, sonoplastas, técnicas de iluminação, continuístas, figurinistas, roteiristas, produtoras e diretoras. Os nomes são muitos, e listo apenas três para que representem o meu afeto e admiração. Adélia Sampaio, Ana Maria Magalhães e Helena Ignês, muito obrigada a vocês.

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