Em ThuleTuvalu, as primeiras vítimas da mudança climática

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Exibido em mostra brasileira, documentário de Matthias Von Gunten expõe de forma poética tragédia de povos sem futuro no Ártico e Pacífico. Diretor pergunta: “queremos fazer algo”?

Por Vinicius Gomes

Desembarcando de um monomotor no pequeno aeroporto de Thule, no norte da Groenlândia, um jovem casal traz consigo seu filho recém-nascido. Essa é a primeira vez que Rasmus, um caçador inuit, coloca os olhos em seu neto. Ali, na imensidão branca e inóspita do Círculo Polar Ártico, o sorriso de Rasmus em ver a felicidade de sua família é logo substituída pelo característico franzir no cenho do caçador de 40 anos.

Milhares de quilômetros ao sul, em Nanumea, ilha que faz parte do país-arquipélago de Tuvalu, o pescador Patrick finalmente termina de construir a primeira canoa para seu filho mais velho. Uma vez dentro da água, na imensidão azul do Pacífico Sul, o sorriso de Patrick ao ver a felicidade da criança que quer seguir os passos do pai, é logo substituído pelos olhos semicerrados observando o horizonte infinito.

Assim como todo pai ou avô, mãe ou avó, em qualquer lugar do mundo, Rasmus e Patrick desejam um futuro melhor para sua família. Porém, diferente de outros lugares do mundo, as famílias do caçador e do pescador estão entre aquelas que já sofrem em primeira mão os efeitos perversos do aquecimento global e das mudanças climáticas: enquanto em Thule, o problema já se manifesta com o derretimento do gelo, em Tuvalu é o avanço da água com o aumento do nível do mar que ameaça engolir todo o arquipélago, como se fosse uma Atlântida do século 21.

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Em ThuleTuvalu, que esteve recentemente em exibição na 4ª Mostra de Cinema Ambiental Ecofalante, em São Paulo, o documentarista suíço Matthias von Gunten filma com maestria poética como os povos de dois lugares — tão distantes geograficamente e tão próximos pelas incertezas de seus futuros – estão sendo forçados a abandonar suas culturas e modos de vida seculares por conta do aquecimento do planeta. A situação de Thule e Tuvalu, em vias de se converter em exemplo trágico, encaixa-se perfeitamente na Teoria do Caos, com o degelo ártico sendo o “bater de asas da borboleta” e o aumento no nível do mar, ameaçando as ilhas do Pacífico Sul, sendo o “tufão” subsquente.

Von Gunten estava presente na sessão no cine Reserva Cultural, em São Paulo, em 23/3. Por ironia, falou que as filmagens ocorreram em 2012, e que, por conta do Ciclone Pan, que poucas semanas atrás atingiu diversos países no Pacífico Sul, incluindo Tuvalu, muito do que a platéia estava prestes a assistir já não existia mais. O suíço disse que não tinha muitas informações sobre a situação em Nanumea, nem mesmo o embaixador de Tuvalu nas Nações Unidas lhe respondia há dois dias . “Ele geralmente me responde em poucos horas, então imagino que eles estejam com muito trabalho”. Curiosamente, durante a roda de discussão que se seguiu após o término do filme, o suíço finalmente recebeu um e-mail de uma representante da comunidade em Nanumea. Sem se pronunciar a respeito, von Gunten leu que todas as casas na ilha haviam sido praticamente destruídas. Catorze famílias estavam vivendo em um centro comunitário, “como refugiados, sem paredes nem banheiros”. Outras 63 famílias tiveram de ficar na casa de parentes em outras ilhas tuvaluanas. Nenhuma morte foi relatada, mas hortas comunitárias foram destruídas, muitas árvores foram derrubadas e todas as estradas que davam acesso à criação de galinhas e porcos, estavam bloqueadas.

Outras Palavras conversou um pouco com o diretor sobre como foi filmar e conviver com esses povos desconhecidos por boa parte do planeta, que além de enfrentar as difíceis condições de seus ambientes – seja no inóspito frio de Thule, ou nas extremamente isoladas ilhas tropicais de Tuvalu – ainda correm o risco de ser as primeiras vítimas do aquecimento global. Seus povos, em mais uma irônica tragédia, não têm responsabilidade alguma pelo processo. Sobre o que o mundo pode fazer a respeito desses e de outros povos ameaçados pelas mudanças climáticas, o suíço nos provoca com uma reflexão: “A questão não é ‘o que se pode fazer?’. A pergunta é, simplesmente, ‘nós queremos fazer alguma coisa?’. Pois, até o momento, nós decidimos todos os dias que não queremos fazer nada”.

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Além do fato de estarem na linha de frente dos efeitos da mudança climática no planeta, o que mais você acredita que conecta os povos, tão distantes entre si, como de Thule e Tuvalu?

Isso foi algo que não havia sido previsto por mim, porque eu os conectava, primeiramente, pelo fato de que estes serem alguns dos lugares mais sensíveis e expostos aos efeitos do aquecimento global. E o meu interesse não era apenas sobre as mudanças climáticas, era muito mais nos seres humanos e em suas condições. Então, eu estava muito interessado em filmar como eles viviam, pois quando você observa como as pessoas vivem, isso lhe faz refletir sobre sua própria vida – o que é algo que eu gosto em um filme: ele te convida a uma reflexão a sua própria maneira, sem te impor nada. Então, com o tempo, eu comecei a enxergá-los [os povos de Thule e Tuvalu] sendo muito próximos um do outro, e isso se deve, principalmente a duas coisas: uma são suas histórias. Ambos começaram sua história exatamente onde estão há 2 mil anos atrás. Os inuit chegaram ao norte da Groenlandia há dois mil anos, assim como os tuvaluanos se estabeleceram naquelas ilhas – e ninguém sabe como eles chegaram lá, é um mistério. Mas uma vez lá, eles desenvolveram suas habilidades de sobrevivência em condições extremamente difíceis.

Então esse é um ponto. O outro é a relação com a natureza. Eles conseguem sobreviver apenas por serem extremamente hábeis em ler e conversar com a natureza, em dialogar com os animais e com o clima, e se inserir nesse contexto. Então, os dois povos não apenas desenvolveram suas habilidades de sobrevivência, mas também desenvolveram uma espécie de compreensão de fazerem parte da natureza, de fazerem parte de uma coisa muito maior.

Além disso, suas vidas consistem em, basicamente, conseguir alimentos – que é algo que nós nos esquecemos. Nossa vida é sobre ser o melhor jornalista ou ser o melhor documentarista, sobre conseguir dinheiro. Então nós nos esquecemos que a vida é, em sua maior parte, sobre conseguir comida (risos). Nós não nos importamos mais com isso, nós apenas compramos [alimentos]. Inclusive, isso foi algo muito importante, pois seria muito difícil eu conseguir fazer esse filme se os dois povos vivessem de maneiras totalmente diferentes um do outro. Porque eu queria que o filme fosse apenas uma história, apesar de serem sobre dois lugares. E o fato de ambos possuírem tão similares necessidades e compreensão sobre a vida e a existência, me ajudou muito em fazer o filme como uma só história.

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Entre as muitas tragédias sobre a situação de ambos os povos, uma delas é o fato de eles não serem responsáveis por ela: sua taxa de emissão de gases estufa na atmosfera é praticamente nula, mas ao mesmo tempo, eles não aparentam culpar ninguém.

Eles não culpam, você está certo. Eles não fazem isso porque… (longa pausa) Essas pessoas são muito humildes e modestas, de certa maneira, mas ao mesmo tempo são orgulhosas. Como eu disse, eles conseguiram sobreviver em condições terrivelmente difíceis e eles têm orgulho disso. Esse é o mundo deles, essa é sua riqueza que possuem – eles sabem sobreviver com suas próprias capacidades junto à natureza.

Eles não estão em uma competição política [sobre as mudanças climáticas]: “esses são os malvados e esses são os bonzinhos” e eles não responsabilizam ninguém, especialmente os caçadores em Thule. O orgulho que eles possuem na vida é que são capazes de resolver qualquer problema que apareça em seus caminhos, pois do contrário eles morrem – e eles estão sempre prontos para morrer.

Mas culpar alguém seria, para eles, humilhante. Seria admitir que eles não são capazes de lidar com um problema. Como Lars (um caçador inuit de 71 anos), disse, “nós vemos que os animais se adaptam, então nós temos que nos adaptar também”.

E o mesmo ocorre em Tuvalu. Eles sabem o que é mudança climática, mas eles não estão em constante fluxo de informação. [Em Nanumea], eles não têm televisão, não têm jornal, possuem apenas um rádio. Então sua capacidade de ter notícias é reduzida e o estilo de vida que eles têm não é orientado por notícias. Eu não consigo viver sem notícias, mas eles não precisam. Eles precisam saber onde estão os peixes, como está o vento, se há nuvens se aproximando, e coisas assim. Essas são as “notícias” que eles precisam. Então eles não estão nessa [de responsabilizar outros] também.

Apesar das similaridades, é possível observar no filme um certo contraste: os inuit de Thule, como você disse, apenas seguem em frente não importa o que aconteça. Em Tuvalu acontece o mesmo, mas alguns deles ainda se agarram à religião, na esperança de que nada lhes aconteça, além do fato de terem um engajamento mais político junto à ONU, por exemplo para que o resto do mundo tome ações decisivas contra o aquecimento global.

A Groenlandia não é muito ativa politicamente, isso é verdade. E lá existe algo de diferente em relação a Tuvalu: suas perspectivas sobre a mudança climática são, vamos dizer, ambivalentes. Por um lado, [com o degelo] eles estão perdendo algo e eles não sabem o que esperar do futuro, por outro lado, eles têm uma chance de ficar extremamente ricos. Pois com o derretimento polar, novos recursos naturais podem se tornar acessíveis. Sim, isso pode significar muito dinheiro para o país, ou pode significar muitos problemas – se você olhar para a Nigéria, por exemplo, o petróleo, seu principal recurso natural, não tornou o país rico, apenas alguns nigerianos são ricos. E os inuit também não têm experiência com esses tipos de negociações.

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Então existe um medo sobre as mudanças climáticas, mas também existe uma certa esperança – o que não é o caso de Tuvalu. Basta ver o que aconteceu duas semanas atrás com o Ciclone Pam. (Ele para ler o e-mail que recebeu na noite anterior relatando toda a destruição que ocorreu na ilha de Nanumea). Então você vê, Patrick (um dos pescadores de Tuvalu), perdeu sua casa. Eu tenho certeza que ele irá reconstruí-la, mas quantas vezes mais ele terá de fazer isso e com que estado de espírito? Ele reconstrói sua casa, mas talvez dentro de alguns anos ou apenas semanas, eles são atingidos por outro ciclone.

É isso que está ocorrendo ali em Tuvalu, a mudança climática está acontecendo bem em cima deles. A questão é quando eles atingirão o limite onde eles sintam que aquilo é insuportável. Naquelas condições… para construir sua família e manter a coragem…

Durante o debate você disse que foi difícil conversar com eles sobre essas coisas, que eles tinham uma barreira…

É porque eles querem falar sobre a vida. Eles têm de viver, eles têm que arrumar comida todos os dias e para ter força e motivação é necessário ter uma atitude positiva. Então você não pode ficar falando o tempo inteiro sobre problemas, do contrário você não quer sair para caçar – e ser caçador é uma profissão muito difícil. Ela requer muita paciência, requer saber lidar com o fracasso, pois muitos tiros não são certeiros, e você não pode perder seu humor, senão você continuará não acertando nada. Então se você tem esses pensamentos ruins, como “eu estou perdendo minha existência”…se você sai da cama pensando isso, você não quer sair para caçar. Então eles têm de focar em suas necessidades, que são diárias.

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Eu acho que é por isso que eles tinham uma certa barreira em discutir essas coisas. Não era porque eles eram covardes ou cegos. Eles têm de viver, de sobreviver, de conseguir alimento, de estar de bom humor para suas crianças. Você não pode dizer a seus filhos, todos os dias, “oh, vocês não têm um futuro”. Eu vejo dessa maneira e por isso é bem delicado lidar com esses assuntos sem forçá-los a falar. Mas claro, isso pertence a essa profissão [de documentarista]. Você tem que sempre saber “ler” as pessoas e compreender quem são elas, como elas pensam e o que as deixa confortável ou inconfortável, e o porque disso. E isso não apenas por serem pessoas em uma condição vulnerável, quem quer que seja que você tenha em frente a sua câmera, é necessário observar cuidadosamente e abordar da maneira correta.

E eles te aceitaram em suas vidas, como você os seguindo nas caças em Thule.

Bem, nós tivemos que pagar. Nós sempre pagávamos quando os estávamos filmando. Mas eles ficavam felizes quando os seguíamos nas caças, porque sim, eles ganhavam um pouco de dinheiro, mas nós sabíamos que eles gostavam de nós. Eles entenderam o que estávamos fazendo e eles gostaram muito da ideia de relatar o que estava acontecendo tanto em Thule, como em Tuvalu – e eles também estavam muito curiosos sobre Tuvalu. Toda vez que eu estava lá [em Thule], fazendo minhas pesquisas, eu perguntava o que eles queriam que eu trouxesse da próxima vez (risos). Então alguns deles me pediam alguns instrumentos tecnológicos que eles não tinham. Lars me pedia cigarros e Rasmus me pediu por uma pedra coral de Tuvalu. Eu trouxe uma e ele ficou muito, muito feliz. Ele realmente queria estar conectado com os tuvaluanos.

Como está sendo a repercussão do seu filme?

Até o momento muito boa. Em Thule eles gostaram muito, assim como o governo [da Groenlandia]. Eles assistiram o filme e ficaram muito orgulhosos. O governo de Tuvalu colocou imediatamente o pôster do filme em seu site oficial. Os dois primeiro-ministros se conheceram em uma conferência sobre o clima em Nova York por causa do filme, eles ainda não se conheciam. Então ambos os representantes na ONU organizaram uma exibição do filme na sede da organização em Nova York para todos os diplomatas da ONU, então eles estão muito felizes que esse filme exista, pois mostra algo que ainda não havia sido mostrado. Há muitas pessoas fazendo relatos sobre as mudanças climáticas [em Thule e Tuvalu], mas elas geralmente o fazem de maneira científica ou em um nível estatístico. Nada havia sido feito em nível pessoal, até então. Por isso eles se sentem muito bem representados nesse filme, dentro de seus ambientes e com seus pensamentos.

Como o mundo pode fazer algo para Thule e Tuvalu?

Eu conscientemente não abordei essa questão. Eu só queria fazer uma descrição da situação dessas pessoas, pois todas as outras questões – quem é responsável, quem é culpado, o que podemos fazer – nós temos todos os dias na mídia e todos nós já sabemos. Então, eu não queria focar nisso, pois senão se tornaria um filme ativista e não era isso que eu queria fazer. Eu queria um filme mais reflexivo e poético.

Eu acho que a questão não é “o que se pode fazer?”. A pergunta é, simplesmente, “nós queremos fazer alguma coisa?”. Pois até o momento, nós decidimos todos os dias que não queremos fazer nada. Todo mundo sabe o que deve ser feito, há muito tempo e em muitos detalhes, o problema é que nós não queremos fazer nada. Muitas pessoas assistem o filme e dizem, “oh, essas pobres pessoas em Thule e Tuvalu”. Mas aí eu pergunto: quem é que quer reduzir o seu consumo de gasolina, quem está pronto para deixar de lado seus carros, em viajar menos e outras coisas do tipo?

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