Cooperativismo digital para todos

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Há dois séculos, os trabalhadores criaram as cooperativas, buscando superar a logica do capital. Que tal conectar este esforço à potência da internet?

Por Trebor Scholz | Tradução: Rafael Zanatta


Quinto capítulo, revisado e adaptado por Outras Palavras, do livro Cooperativismo De Plataforma: Os Perigos Da Uberização, publicado no Brasil pela Fundação Rosa Luxemburgo e editoras Elefante e Autonomia Literária.

Leia aqui os quatro primeiros capítulos:
Para que a internet não devaste a sociedade
Os sinais de uma internet sem donos
A ascensão do cooperativismo digital
Dez princípios para o cooperativismo digital

Neste exato instante, o capitalismo de plataforma está sendo definido por decisões tomadas, de cima para baixo, pelos mega-conglomerados de tecnologia da informação do Vale do Silício – e executadas por algoritmos caixa-preta. O que precisamos é uma nova história sobre o compartilhamento, agregação, abertura e cooperação; uma história em que possamos acreditar.

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O movimento cooperativista, que tem tradição secular, precisa chegar a um acordo com as tecnologias do século XXI. Precisaremos de algum trabalho para fazer com que a noção de cooperativas online seja tão disseminada e popularizada quanto o arroz com feijão no Brasil.

A importância do cooperativismo digital não reside em destruir gigantes obscuros como Uber, mas em colocar a ideia da cooperação possível na cabeça das pessoas, incorporando diferentes modelos de propriedade e inserindo essas plataformas cooperativas no debate popular. No final dos anos 1960, início dos anos 1970, membros da contracultura formaram comunidades utópicas; deixaram cidades para colocar em xeque a ideia de futuro ao residirem em montanhas. Frequentemente, esses experimentos falharam. Visto como parte integral da cultura, o cooperativismo digital pode se tornar um importante ator da economia.

Para desenvolver plataformas cooperativas de modo bem-sucedido, exige-se mais que sabedoria prática e entusiasmo. Uma instância antiteórica, uma rejeição da autorreflexão crítica irá – como vimos no caso da contracultura nos EUA – tornar-se um impedimento. Precisamos estudar as falhas e os sucessos do passado. Precisamos identificar as áreas nas quais as plataformas cooperativas possuem mais chance de êxito. Precisamos espalhar a ideologia do mutualismo, dos ideais comunitários e da cooperação que tornam tudo isso possível. O cooperativismo digital pode fazer vigorar uma economia do compartilhamento genuína, uma economia solidária. Ela não irá remediar os efeitos corrosivos do capitalismo, mas pode mostrar que o trabalho pode ser dignificante ao invés de empobrecedor para a experiência humana.

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O cooperativismo de trabalho não se preocupa com o próximo dispositivo ou “plataforma”, ele preocupa-se com a visão de uma vida que não é centrada nos empreendimentos lançados para captar dinheiro na bolsa. Fazer mudanças não é dar uma festa, escrever um ensaio ou organizar uma conferência; não é tão conveniente; o cooperativismo digital também envolve confronto.

Para fortalecer e construir plataformas cooperativas, é essencial que pessoas com pensamento semelhante organizem-se. Yochai Benkler encorajou esse movimento: “se você pode imaginá-lo, então ele pode acontecer, se você fizer no tempo correto”.1

Não podemos perder mais tempo. Políticos e donos de plataformas estão prometendo proteções sociais, acesso e privacidade, mas estamos demandando controle das nossas ações. É hora de perceber que eles nunca irão entregar isso. Eles não podem. Mas nós devemos. Por meio do nosso esforço coletivo podemos construir o poder político para um movimento social que irá dar existência a essas ideias.

1 making it work: Platform Coop 2015: Platform Cooperativism Conference, 13-14 nov. 2015. http://platformcoop.net.

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