A Índia muito além da Karma-Cola

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A religião é onipresente e pode ser empacotada para ocidentais. Mas o país me pega pelo carnal. Cores, cheiros, comidas, tons de pele. Caos harmônico, balé da muvuca

Relato de viagem de Maria Bitarello

Entregar-se para vencer” é o título de uma crônica que escrevi há quase 5 anos. A frase não é minha. Tirei-a do livro Shantaram, de Gregory David Roberts, que lia na época. Foi pouco antes de ir à Índia pela primeira vez. Três viagens depois, lembrei-me dessa crônica. Porque a resistência vem me parecendo uma força inútil e, lá, entregar-se é um ato de sobrevivência. A cada vez que volto ao país, essa frase ganha mais corpo e se transforma numa espécie de fé.

Não vou aqui ficar fazendo pregações sobre a cultura espiritual indiana. Sim, a espiritualidade está por toda parte, sagrado e profano tudo junto e misturado, e isso é maravilhoso em muitos momentos, mas o karma-cola não é meu forte. Essa expressão aprendi por lá. É o produto nacional vendido na Índia à classe média e alta do Ocidente que vai pro Oriente em busca de cura, sentido pra vida, respostas, uma pílula da felicidade em forma de guru, etc. A coca-cola do karma. Como o gringo que vem pro Brasil e quer virar mestre de capoeira, craque de futebol ou passista da Mangueira. Oferta e procura. Nesse caso, de um clichê, que costuma ser a primeira coisa a saltar aos olhos do viajante. Se é isso que você busca, vai aparecer alguém vendendo. Pelo preço que for.

E, de fato, o karma-cola não é uma mentira. É só olhar pro lado em qualquer viela de Mumbai, de Delhi, de Varanasi. Nas portas das casas. As imagens sagradas, as swastikas, as tikkas nas testas; elas estão por toda parte. Assim como as mesquitas, os templos sikhs, hindus, jainistas, os nomes de grande parte da população: Durga, Puja, Siddharth, Mohammed, Krishna, Pema, Kala, Vishnu. O que fazem é embalar tudo isso pra presente do jeito que nós, ocidentais, gostamos de comprar e customizar ao gosto do cliente pra, obviamente, faturar em cima. Assim como no Rio leva-se os turistas pra passear de jipe nas favelas – aliás, lá também. Todo mundo tentando ganhar dinheiro de algum jeito. Vendendo sonhos.

A Índia me pega mesmo pelo dia-a-dia; uma correnteza humana de 1,2 bilhão de pessoas convivendo. Pra experimentar o que eu acho que aquela terra oferece de melhor, não precisa seguir guru nem comprar roupa colorida, incenso ou tapete de yoga. É só ir ao mercado. São tantos estímulos. O caos. O trânsito. As negociações. A impossibilidade de uma resposta direta. Os convites pra tomar chá. A quantidade de gente. As roupas; nossa, as roupas! As cores. Os cheiros. As comidas. As frituras. Os condimentos. As buzinas incessantes. Animais. Mercados. Crianças. As balançadas de cabeça. Os diferentes tons de pele. Os piercings no nariz. Os anéis nos dedos dos pés. As marcações coloridas na testa, entre os olhos, mas também na altura da linha do cabelo. As tornozeleiras. Os saris. As kurtas. Gente, gente, gente pra todo lado. As vacas, bicicletas, ônibus, carros, caminhões, tuk-tuks e pedestres, todos juntos na rua, num caos harmônico, num balé da muvuca, tudo confuso, mas surpreendentemente calmo. Considerando o número de pessoas todas juntas, a qualquer momento, em qualquer lugar de uma cidade, a coreografia dos movimentos e o número reduzido de acidentes e desentendimentos entre motoristas, ambulantes e cachorros é de uma organicidade que nós, aqui no Brasil, estamos perdendo.

TEXTO-MEIO

Porque a gente passou a achar muito chique ser como aos americanos, que por sua vez são filhotes europeus. Mas se pensarmos bem, na verdade verdadeira mesmo, a maioria absoluta da população mundial (inclusive no Brasil) vive em alguma variação aproximada do que se vive na Índia. Somos bichos parecidos. Menos formais; mais passionais: seja você rico ou pobre. E o que nos aproxima, penso eu, é uma forma de amor dedicada às ações do cotidiano. Ainda não viramos robôs, nos enxergamos. E a meus olhos, existe mais sabedoria nessa acomodação e rearranjo permanente dos desejos ordenada pelos afetos que na imposição de linhas duras e inflexíveis em torno das quais uma sociedade mais cartesiana se organiza.

Não precisa nem ir à Índia pra se lembrar disso. Temos essa sabedoria atávica em nós. É só sair da bolha. Desligar a Globo. Confiar na multidão. Soltar o corpo na correnteza. Cultuar a festa, a nossa versão local do karma-cola. Aproveite que o carnaval vem vindo.

TEXTO-FIM
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Maria Bitarello

Maria Bitarello trabalha como escritora, jornalista, tradutora e é mestre em Literatura Brasileira e Portuguesa pela UCLA. Só sei que foi assim (2014) é seu primeiro livro e outros trabalhos seus estão no blog ioncemetagirl.com

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