A era dos extremos climáticos começou

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Mulheres caminham em região desertificada do Kenya, próximo ao “Chifre da África”. Lá, seca, pobreza e atraso na ajuda internacional podem ter matado 50 mil pessoas entre 2010 e 2011

Em 2011, acentuaram-se grandes secas, cheias, ondas de calor e desastres ambientais. É preciso agir já, contra reação em cadeia

Por Janet Larsen e Sara Rasmussen, do Earth Policy Institute | Tradução: Antonio Martins

A temperatura média global em 2011 foi de 14,52ºC. Segundo cientistas da Nasa, foi o nono ano mais quente desde que os dados passaram a ser coletados, há 132 anos – a despeito da influência resfriadora do fenômeno atmosférico e oceânico La Niña, e de irradiação solar relativamente baixa. Desde os anos 1970, cada nova década foi mais quente que a anterior – e nove dos dez anos mais quentes de todos os tempos estão no século 21.

A cada ano, a temperatura média do planeta é determinada por um conjunto de fatores, que incluem a atividade solar e o sentido dos fenômenos El Niño / La Niña. Mas os gases que capturam o calor e se acumularam na atmosfera, principalmente devido à queima de combustíveis fósseis, tornaram-se uma força influente, pressionando o clima da Terra para fora dos parâmetros normais. O planeta está agora quase 0,8ºC mais quente do que foi há um século. A média esconde, além disso, sinais espantosos de novos recordes de temperatura e precipitação de chuvas, em muitas partes do mundo. Extremos climáticos que seriam antes considerados anomalias ameaçam tornar-se normas, à medida em que a Terra se aquece.

Temperaturas globais médias (1880-2011)

Em todo o mundo, 2011 foi o segundo ano de maiores precipitações em terra firme. (O recorde atual é 2010, que também igualou-se a 2005, como o mais chuvoso em toda a superfície do planeta. Esperam-se degelos mais intensos, num planeta mais quente; cada aumento de 0,1ºC aumenta o limite de umidade que a atmosfera pode suportar em cerca de 7%. Temperaturas mais altas podem, portanto, desencadear tempestades mais violentas.

O Brasil inaugurou 2011 com um dos desastres naturais mais letais de sua história. Em janeiro, o equivalente a um mês de chuvas caiu num único dia no estado do Rio de Janeiro, provocando inundações e deslizamentos que mataram ao menos 900 pessoas. No mesmo mês, inundações na região oriental da Austrália atingiram uma área equivalente às da França e Alemanha somadas. Foi o terceiro ano mais chuvoso no país, desde que os registros começaram, em 1900.

O desastre climático mais caro do ano foram as inundações na Tailândia, no segundo semestre, que terminaram submergindo um terço das províncias do país. Com prejuízos de 45 bilhões de dólares – ou 14% do PIB da Tailândia, foram também a catástrofe natural mais custosa que o país já viveu.

Em outubro, mais de 100 pessoas morreram em duas tempestades – uma partindo do Pacífico, outra do Caribe – que despejaram chuvas pesadas na América Central. No oeste de El Salvador, quase 1500 mm. De chuva caíram em dez dias. E em dezembro, a tempestade tropica Washi atingiu as Filipinas, provocando inundações instantâneas que mataram mais de 1,2 mil pessoas.

Em 2011, a temporada de furacões no Atlântico teve 19 tempestades nomeadas. O furacão Irene produziu enormes inundações no nordeste dos Estados Unidos em agosto, com prejuízos totais de 7,3 bilhões de dólares. O ano foi o mais chuvoso de todos os tempos em sete estados norte-americanos – e foi, ao mesmo tempo, o mais seco para vários outros. Embora os extremos pareçam se compensar, resultando numa média próximas às comuns, na verdade deu-se um recorde: 58% dos estados viveram um ano ou extremamente seco, ou extremamente úmido.

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Num planeta mais quente, espera-se que algumas partes do globo sejam ultra-atingidas por chuvas, enquanto outras sofrem secas. Uma estiagem severa no Chifre da África, iniciada em 2010, descambou para situação de crise em 2011, caracterizada por perda de colheitas, preços exorbitantes de comida e subnutrição generalizada. Exacerbad por instabilidade política crônica e socorro humanitário retardado, o número de mortes pode ter superado 50 mil.

Na América do Norte, uma seca que começou no final de 2010 e se agravou em 2011 levou centenas de agricultores do norte do México a marchar até a capital do país, em janeiro de 2012, tentando chamar atenção do governo para seu drama. Quase 900 mil hectares de colheitas e 1,7 milhão de cabeças de gagos foram perdidas devido ao fenômeno – o pior desde que os dados passaram a ser registrados, há 70 anos.

Temperaturas abrasadoras, secas e incêndios florestais atingiram as planícies do sul e sudoeste dos Estados Unidos, provocando prejuízos superiores a 10 bilhões de dólares em 2011. A cidade de Wichita Falls, no Texas, viveu cem dia com temperaturas acima de 38ºC – muito mais que o recorde anterior (79 dias), em 1980. Oklahoma e o Texas tiveram os verões mais quentes de todos os estados na História, quebrando por larga margem o recorde de 1934, durante a onda de tempestades de areia que ficou conhecida como Dust Bowl. James Hansen, diretor do Instituto Goddard par Estudos Espaciais, da NASA, escreve que a possibilidade de tais ondas de calor “era desprezível antes do recente aquecimento global acelerado”. O Texas também viveu o ano mais seco na história. O calor e a estiagem favoreceram incêndios florestais, que queimaram uma área equivalente a 1,5 milhão de hectares no estado. (…)

Em todo o mundo, sete países viveram recordes históricos de temperatura em 2011: Armênia, China, Irã, Iraque, Kuait, República do Congo e Zâmbia. Curiosamente, o Zâmbia foi também o único país a experimentar um recorde negativo de temperatura no ano, quando os termômetros desceram a 9ºC, em junho. O Kuait viveu a temperatura mais alta do ano, 53,3ºC, o maior calor já registrado em qualquer parte do planeta num mês de agosto. Ainda mais ameaçadores para a saúde que os picos diurnos são as temperaturas mínimas noturnas excepcionalmente altas, que indicam a ocorrência de um calor sem pausas. A temperatura mínima mais alta num único período de 24 horas, em todos os tempos, foi registrada em Oman, em junho de 2011: chegou a 41,7ºC.

Até mesmo na região ártica, 2011 foi um ano de calor notável, com um recorde de 2,2ºC acima da média registrada entre 1951-80. Barrow, no Alaska, a cidade mais próxima do Polo Norte em território norte-americano, viveu mais de 86 dias seguidos na temperatura do derretimento do gelo ou acima dela. O recorde anterior era de 68 dias, em 2009.

Ao longo dos últimos 50 anos, as temperaturas no Ártico subiram mais de duza vezes mais que a média planetária, o que provocou derretimento de gelo e permafrost. O gelo do Oceano Ártico está recuando mais rapidamente, e caiu para o volume mais baixo e segunda área mais baixa de todos os tempos no verão de 2011. Com a perda de gelo no verão bem acima da recuperação invernal, a cobertura do oceano tornou-se mais delgada, tornando-o cada vez mais vulnerável a novos derretimentos. Cientistas preveem um verão ártico completamente sem gelo em 2030, ou mesmo antes.

À medida em que desaparecem o gelo, e sua capacidade de refletir os rais solares, fica exposto o oceano escuro, que absorve a energia solar muito mais rapidamente, o que provoca aquecimento ainda maior da região. Isso desencadeia uma espiral climática, acelerando o derretimento tanto no oceano quanto na vizinha Groenlândia, que tem gelo suficiente para provocar a elevação do nível do mar em 7 metros – caso ele se derreta por completo. O derretimento do permafrost também libera dióxido de carbono e metano, dois gases que contribuem para o aquecimento global.

Mesmo sem que todos estes gatilhos disparem, certos modelos sugerem que o uso continuado de combustíveis fósseis poderá elevar a temperatura em até 7ºC, até o final deste século. Tamanha elevação poderia multiplicar os extremos de temperatura e precipitações, a ponto de gerar tragédias perto das quais parecerão minúsculas as registradas nos últimos anos. Só uma redução dramática da emissão de gases do efeito-estufa poderá manter as temperaturas futuras numa faixa relativamente segura.

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Janet Larsen e Sara Rasmussen

Janet Larsen é diretora de pesquisa do Instituto de Política da Terra, uma organização ambiental independente, baseada em Washington.

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