A Bolívia que se move

Bloqueio de estrada feito pela COB que presenciei nos arredores de El Alto

Breves impressões sobre um país onde os excluídos perderam o medo — e, às vezes, não percebem que os inimigos ainda têm poder…

Por Cláudio Ribeiro, no Palavras Diversas

Em viagem de férias a Bolívia e Peru, passei dois dias em La Paz, para me adaptar à altitude e, também, claro, ver de perto a nova Bolívia de Evo. O que pude perceber é que a região da capital boliviana passa por obras, parece reconstruir-se.  São muitas obras, em uma região de pobreza e exclusão históricas.  Na Bolívia a riqueza concentra-se em Santa Cruz de La Sierra, uma espécie de São Paulo conservadora e voltada para Miami deles.

Nas minhas voltas pelas ladeiras íngremes e com ar rarefeito de La Paz, encontro pobreza, mas também as obras que mencionei.  Na região de El Alto, a caminho de Tiwanaku, vi, em fase final, o prédio da Universidade Pública de El Alto, uma promessa de campanha de Evo, prestes a ser inaugurada.  Pode parecer pouco, muito pouco, mas para um país sempre governado a partir de Miami, por uma elite que sempre teve asco dos indígenas, pessoas com a cara de Evo que dominam a paisagem das regiões mais populosas do país, incluindo La Paz, é muita coisa, é uma obra histórica!
É verdade que o país ainda precisa, e muito, avançar econômica e socialmente, mas muito mesmo.  Há muita coisa a ser feita, muitas oportunidades a serem criadas.  Na Bolívia que testemunhei, nas ruas e nos passeios ao redor da capital, o boliviano parece lutar para superar todo o atraso de sucessivos governos, que por séculos, usurparam as riquezas do país e, recentemente, as transportaram para Miami, onde poderiam fazer uso circundados de “pessoas civilizadas”.  É uma triste história, por ora combatida pelo primeiro governo indígena da Bolívia, que apesar de todo avanço conquistado até então, ainda precisará de muito mais para atenuar o cenário de pobreza que ainda assola uma região tão populosa como a de La Paz.  Serão necessários tantos outros governo como o de Evo, sucessivamente, para não se permitir o regresso da exclusão dos mais pobres, por um Estado que governava apenas para cerca de 25% da população, que ignorava a miséria das “cholitas” nas ruas da capital.

No meu último dia na capital boliviana fui impedido de pegar um vôo para Cuzco, minha próxima parada, por uma manifestação da Central Obrera Boliviana (COB), por reajuste de 15% de salários.  Os trabalhadores fecharam todos os acessos ao aeroporto de El Alto.  O motorista do táxi ainda tentou outras alternativas, mas todas estavam fechadas.  Fiquei frustrado por não conseguir chegar ao aeroporto, mas muito impressionado com a determinação e organização dos manifestantes.  Fecharam todas as principais estradas do país.

Na verdade, fiquei mais chateado com a companhia aérea que não devolveu o dinheiro e me ofereceu crédito de validade de um ano para viajar.   No final da tarde, consegui um ônibus, 12 horas de estrada até Cuzco.  Não me arrependi de tentar esta opção, mas fiquei com a enorme sensação de que na Bolívia, me parece algo histórico, as forças que podem ser aliadas, voltam-se contra seus próximos para conseguir o que querem, mesmo que para isso regridam ao estágio inferior que se encontravam e não consigam nada.

Porque digo isso?  Os movimentos sociais são os maiores aliados de Evo na luta gigantesca de reverter ou atenuar todo o quadro de atraso que governantes insensíveis à realidade de um povo tão sofrido, mas batalhador.  As constantes manifestações, escalonadas de mineiros, maestros e profissionais da saúde, enfraquecem a imagem do governo, o tornam ainda mais frágil para seus adversários de Santa Cruz de La Sierra.  Não receito a inércia dos movimentos sociais, muito pelo contrário, mas a compreensão de que somente avançarão se negociarem respeitando os contextos apresentados, frente a frente com um governo que mais têm em comum de que seus antecessores ou de abutres à espera de sua queda.

Ao final de uma semana, soube, de Lima pelo noticiário, que as manifestações se encerraram e a COB aceitou um reajuste de 11% em seus salários.

O governador coberto de heroísmo pela TV boliviana

Uma coisa grave e interessante que ocorreu no dia do corre-corre para chegar a Cuzco foi o tiroteio em que se envolveu o governador de Santa Cruz de La Sierra, Rubén Costas, que segundo o noticiário havia sido alvejado, de raspão, na orelha, ao tentar socorrer uma moça que estaria sendo assaltada perto de sua caminhonete importada.  Achei aquilo tudo muito estranho, me parecia algo pouco crível, poderia parecer outra coisa qualquer, algo pior, mas não aquilo. O noticiário era confuso, alguns falavam que “o estado do governador era estável, mas ainda grave”, outros diziam “que não corria risco de morte”.  Logo me lembrei do caso da bolinha de papel no Serra, nas eleições de 2010.  Claro, uma bala é algo muito mais sério, mas a motivação parecia pouco provável, a cobertura dava-lhe ares de heroísmo e também de sofrimento.  Para quem não conhece, Santa Cruz de La Sierra é a região mais rica da Bolívia e, a despeito da pobreza vista na região de La Paz, é também a região com maior desigualdade do país: pouquíssimos ricos e muita gente pobre.  A diferença?  Os enormes bolsões de riqueza e símbolos de prosperidade naquela região.

Ao partir para a rodoviária e me despedir das atendentes do hotel, comentei o fato a elas, logo respondido assim: “que pena que não morreu”… Em 2009, em Santa Cruz de La Sierra, foram encontrados extremistas que tramavam a morte de Evo, naquela ocasião os governos de Hungria, Irlanda e Croácia, além de Rubén Costas, condenaram as mortes dos extremistas e tentaram imputar a Evo a culpa por um suposto massacre.

Por Cláudio Ribeiro, no Palavras Diversas
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Redação

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