Quarenta anos sem Neruda

Pablo Neruda abriu mão de sua candidatura para que ele e o PC Chileno pudessem apoiar a de Salvador Allende.

Candidato à Presidência do Chile, Neruda renunciou, em nome da unidade com Allende.

Morto em 1973 em circunstâncias suspeitas, ele ajudou a criar a tradição socialista do Chile e a promover salto da poesia latino-americana para modernidade

Por Flávio Aguiar, na Carta Maior

A morte de Pablo Neruda, dias após o golpe que derrubou o governo da Unidade Popular no Chile, e levou o Presidente Salvador Allende ao suicídio, depois de heróica resistência, está sob suspeição.

Neruda estava doente, com câncer. Alguns dias depois do golpe, foi levado para um hospital de Santiago, onde faleceu. Há dúvidas que apontam para a possibilidade de que tenha sido envenenado. Seus restos mortais foram exumados na sua casa em Isla Negra, e foram colhidas amostras para exame. Se confirmado o assassinato, será sua segunda morte, e mais um testemunho de sua eterna vida.

Neruda hoje é uma unanimidade no Chile. Mas nem sempre foi assim.

Em primeiro lugar, ele era odiado pela direita. A tal ponto que, ameaçado de prisão quando era senador comunista, promoveu uma fuga discreta mas espetacular, em 1949, atravessando a cavalo a Cordilheira dos Andes na altura de Valdívia para a Argentina. Deste país viajou com documentos falsos para a França e só depois de algum tempo conseguiu regularizar sua situação na Europa.

A morte de Neruda foi simbólica. Ele morreu com o país que ajudou a criar, o Chile de uma mais suposta que verdadeira tradição democrática, mas que, enfim, tinha esta tradição como objetivo e apanágio. Foi um dos mais entusiastas aderentes à luta da Unidade Popular. Abriu mão de sua candidatura à presidência para que ele e o Partido Comunista Chileno pudessem apoiar a de Salvador Allende.

O Chile hoje é outro, um país de memória torturada e por vezes tortuosa, cujos cidadãos ainda se dividem quanto à herança de uma das ditaduras mais nefastas da América Latina, entre as múltiplas nefastas que esta amargou.

Mas sobre e para além delas paira a palavra única, ímpar, de Pablo Neruda.

A primeira edição de seu livro Veinte poemas de amor y uma canción desesperada, em 1924, é saudada até hoje por muitos críticos como um dos marcos do “salto” da poesia hispano-americana para a modernidade do século XX. Ao longo de sua trajetória, Neruda cantou o amor, a história épica das lutas de libertação e sofrimento do nosso continente, e as simplicidades do cotidiano, revestidas de uma solene contemplação da natureza, como em seu inesquecível poema Oda a la cebolla:

“Bajo la tierra
fue el milagro
y cuando apareció
tu torpe tallo verde,
y nacieron
tus hojas como espadas en el huerto,
la tierra acumuló su poderío
mostrando tu desnuda transparencia,
y como en Afrodita el mar remoto
duplicó la magnolia
levantando sus senos,
la tierra
así te hizo,
cebolla,
clara como un planeta,
y destinada
a relucir,
constelación constante,
redonda rosa de agua,
sobre
la mesa
de las pobres gentes”.

Mas o livro que o consagrou como um poeta do continente foi mesmo seu Canto General, publicado no México em 1950 com ilustrações de David Alfaro Siqueiros e Diego Rivera, cujos orginais semi-prontos ele levara consigo em sua fuga através da Cordilheira, em 1949. Ali se lê, por exemplo, em Alturas de Macchu Picchu:

“Ésta fue la morada, éste es el sitio:
aquí los anchos granos del maíz ascendieron
y bajaron de nuevo como granizo rojo.

Aquí la hebra dorada salió de la vicuña
a vestir los amores, los túmulos, las madres,
el rey, las oraciones, los guerreros.

Aquí los pies del hombre descansaron de noche
junto a los pies del águila, en las altas guaridas
carniceras, y en la aurora
pisaron con los pies del trueno la niebla enrarecida,
y tocaron las tierras y las piedras
hasta reconocerlas en la noche o la muerte.

Miro las vestiduras y las manos,
el vestigio del agua en la oquedad sonora,
la pared suavizada por el tacto de un rostro
que miró con mis ojos las lámparas terrestres,
que aceitó con mis manos las desaparecidas
maderas: porque todo, ropaje, piel, vasijas,
palabras, vino, panes,
se fue, cayó a la tierra.

Y el aire entró con dedos
de azahar sobre todos los dormidos:
mil años de aire, meses, semanas de aire,
de viento azul, de cordillera férrea,
que fueron como suaves huracanes de pasos
lustrando el solitario recinto de la piedra”.

O tom épico dado pelos versos longos lembra o Drummond de A flor e a náusea, ou seja, de A rosa do povo. São consanguíneos, o mineiro de Itabira e o chileno de Parral, ambos, ao modo de cada um, cidadão do mundo.

Em 1971 ganhou o prêmio Nobel de literatura. Mas ele foi maior do que qualquer prêmio.

Diplomata de carreira desde sua nomeação, ainda jovem, para o cargo de cônsul em Rangoon, na Birmânia, Neruda teve o ápice desta sua faceta profissional ao ser nomeado Embaixador do Chile em Paris, em 1971, pelo governo da Unidade Popular, cargo que ocupou até o começo de 1973, tendo renunciado por razões de saúde.

Amigo de Garcia Lorca, acompanhou de perto, em suas funções consulares, a Guerra Civil Espanhola, não escondendo sua simpatia pelos republicanos, embora fosse repreeendido até pelo embaixador, que o desejava mais neutro.

Também amigo de Luis Carlos Prestes, veio ao Brasil saudá-lo em histórica jornada no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, diante de milhares de pessoas. Neruda nunca fugiu de seus compromissos, nem calou sua palavra.

O cidadão Ricardo Eliecer Nefataí Reyes Basoalto (seu nome de batismo) morreu em circunstâncias suspeitas em 1973. Pablo Neruda, este, é eterno.

Homenageá-lo, neste quadragésimo ano de sua morte, é também homenagear a eterna sombra do que com ele caíram – sem se vergar – perante a ditadura de Pinochet.

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Redação

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