Por um diálogo entre esquerda e identitarismos

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Angela Davis, expoente dos Panteras Negras, e Jean Genet, poeta francês. A foto ilustra a matéria “The Black Panthers and Gay Rights”.

Mensagem a Luiz Carlos Azenha: “é um grave erro pensar que o esvaziamento da luta anticapitalista se deve às pautas identitárias”

Por Dennis de Oliveira, na Revista Fórum

O jornalista Luiz Carlos Azenha publicou recentemente um comentário intitulado “os movimentos identitários e o dividir para governar” (clique aqui para ler). Por ser um profissional que respeito imensamente e que tem contribuído na luta contra as narrativas hegemônicas da mídia golpista, é que resolvi escrever este artigo contestando suas afirmações.

Azenha levanta uma questão importante que é o papel de divisor do campo da esquerda que os movimentos chamados por ele de identitários (negros, mulheres, LGBT) produzem ao subordinar a luta contra o capitalismo às reivindicações por reconhecimento das identidades. As experiências que o jornalista teve nos Estados Unidos são os seus principais argumentos.

Azenha cobra das lideranças destes movimentos conhecimento histórico. Entretanto, também falta um melhor aprofundamento histórico neste diagnóstico que ele faz dos movimentos estadunidenses.

Na obra “Blacks in and out of left” (Negros dentro e fora da esquerda), o cientista social Michael Dawson aponta os erros históricos do Partido Comunista dos EUA e do Partido Socialista ao subestimarem a luta anti-racista naquele país. Principalmente porque parte significativa da base destes partidos era composta por trabalhadores negros. Nos anos 1920, segundo Dawson, 25% dos militantes da seção de Chicago do Partido Comunista dos EUA era composta por negros e negras. Um número significativo levando-se em conta que a população negra nos EUA não passa de 20%.  Muitos destes militantes negros comunistas estadunidenses tiveram papel fundamental na discussão sobre as questões étnicas no âmbito da III Internacional.

O acirramento das questões raciais nos EUA no inicio do século com o questionamento das políticas segregacionistas não foi corretamente interpretada pelos dirigentes do partido comunista e do partido socialista, hegemonizadas por operários brancos. Abandonados por estas agremiações partidárias “anticapitalistas”, a luta contra o racismo nos EUA foi realizada por outras vias, inclusive na perspectiva liberal. Isto não impediu o surgimento de iniciativas radicais de esquerda como o Partido dos Panteras Negras e mesmo a participação importante de Angela Davis no Partido Comunista, legenda para a qual ela foi candidata a vice-presidenta da República em 1980 e 1984.

De qualquer forma, Dawson é taxativo ao afirmar que a incompreensão da esquerda socialista estadunidense com a questão racial foi a responsável pela cooptação de parte da agenda antirracista pelos liberais e também pelo esvaziamento da esquerda socialista estadunidense. Assim, não se trata de uma “rejeição” a priori dos movimentos anti-racistas a uma pauta anticapitalista a priori, mas sim um histórico de incompreensão da esquerda socialista com estas reivindicações nos EUA.

Outro problema no raciocínio de Azenha é considerar que a responsabilidade do esvaziamento da luta anticapitalista se deve as pautas identitárias. Primeiro, é preciso dizer que boa parte da esquerda brasileira não é anticapitalista. Ou alguém acredita que a íntegra do PT, PSB, PCdoB, PSOL hoje é totalmente anticapitalista? Os governos Lula e Dilma não propuseram uma pauta anticapitalista e sim uma pauta nacional-desenvolvimentista (portanto, dentro da lógica do capitalismo). Alguns podem até acreditar que são etapas necessárias para uma luta contra o capitalismo. Porém, outros – e não são poucos – acreditam piamente que é possível melhorar as condições de vida da classe trabalhadora, de negras e negros, mulheres, LGBT, etc e acabar com as opressões dentro do capitalismo. Isto não só nos “movimentos identitários” mas também no conjunto dos movimentos sociais e da esquerda.

Há, portanto, diversas visões presentes nos movimentos e isto não é exclusividade destes setores. O movimento sindical, que representa a classe trabalhadora, tem seis centrais sindicais e nem todas desenvolvem uma luta anticapitalista (ou alguém acredita que a Força Sindical é anticapitalista?). No movimento popular também existem organizações vinculadas ao PSDB e que atuam na perspectiva de administrar as demandas por moradia junto a órgãos públicos ou ainda como cabos eleitorais de vereadores. Os movimentos sociais são plurais e a perspectiva anticapitalista é minoritária ainda.

No tocante a especificidade do movimento negro brasileiro, há um número significativo de organizações que se colocam no campo anticapitalista. Tiveram participação importante na eleição de candidatos progressistas e de esquerda. Atuam na luta contra o golpe, tanto na Frente Brasil Popular como na Frente Povo Sem Medo.

Porém, esta atuação não tem sido correspondida na mesma proporção por parte da direção das organizações de esquerda em colocar no centro da agenda política a luta contra o racismo. Basta verificar o número de negras e negros que estão nas direções dos partidos de esquerda, o número de candidata(o)s negra(o)s eleita(o)s por estes partidos e, mais importante, o peso que bandeiras como a luta contra o genocídio da juventude negra, pelas ações afirmativas, defesa da liberdade de expressão das religiões de matriz africana, entre outras, ocupam nas agendas centrais dos partidos políticos de esquerda.

Aí sim é que se encontra a grande incompreensão da esquerda brasileira. Não se trata de apensar estas bandeiras simplesmente, mas compreender que o racismo no Brasil é estrutural e mantém os padrões de acumulação de riqueza via a superexploração do trabalho. O machismo e o racismo, por exemplo, sustenta a brutal opressão do trabalho doméstico, reduzindo o valor necessário para a reprodução da força de trabalho. É mais barato para o capital a existência de uma mão de obra precarizada e baratíssima como a da mulher negra empregada doméstica que a instituição pelo Estado de uma rede pública de creches e escolas em tempo integral para todos, restaurantes e lavanderias populares, entre outros. Isto também se aplica à imposição da dupla jornada de trabalho à mulher.  Manter esta mulher negra submissa inclusive nos padrões imagéticos possibilita ganhos materiais. É esta a equação que mostra que não há necessariamente uma incompatibilidade entre a luta pelas afirmações identitárias e a luta contra o capitalismo.

Annibal Quijano, pensador peruano, aponta que a categoria “raça” foi uma forma que a Europa colonizadora encontrou para justificar a divisão internacional do trabalho, impondo uma colonialidade do poder que, hoje, concentra cada vez mais os recursos nos países do chamado Primeiro Mundo (Europa e EUA, com populações majoritariamente brancas) e destina a miséria aos países da África e America Latina (populações negras e indígenas).

De fato, a luta não é apenas para dizer presidenta ao invés de presidente, como diz Azenha. Mas a luta pelo “presidenta” só ganha tal dimensão por conta da resistência machista absurda em querer adotar este termo. Uma jornalista que tem trânsito nos comandos das redações dos grandes jornais confidenciou-me que os editores dos principais veículos jornalísticos pactuaram em não adotar esta palavra como “birra”. Podemos dizer que isto ocorreu por conta do perfil conservador e antipetista desta grande mídia. Mas também isto ocorreu porque a esmagadora maioria dos comandos das redações é de homens brancos (apesar da maioria da categoria profissional jornalística ser composta por mulheres). No fim, a mídia machista deu um golpe contra uma presidenta mulher. E instaurou um governo somente com homens brancos que aplica um projeto de desmonte social. E, junto, crescem exponencialmente os discursos racistas, machistas e homofóbicos. Isto não é mera coincidência.

*Professor da Universidade de São Paulo, membro da Rede Antirracista Quilombação, colunista da Revista Fórum e organizador da obra “A luta contra o racismo no Brasil” (Edições Fórum, 2017)

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