Em Cuba, o desafio do turismo cultural

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Uma nova maré estrangeira chega à ilha, atraída por cultura e lógicas sociais não ortodoxas. Como aproveitá-la sem repetir as fórmulas de sempre?

Por Fernando Ravsberg, no Havana Times | Tradução de Simone Paz Hernández

No último fim de semana, saí com a pequena Lucía para percorrer as ruas de La Habana Vieja — bairro histórico, no centro da capital cubana — atraídos pelo espetáculo de dança infantil realizado em suas praças. A qualidade dos grupos, as redondezas e o grande número de crianças que havia na plateia, eram fascinantes. Sentamos no chão na Praça de Armas, sobre paralelepípedos de madeira, parte de uma cenografia que nos fez viajar no tempo.

As crianças dançavam com uma graciosidade e maestria que só se obtém graças à combinação de instrução e genética. O som era deficiente e o figurino das crianças, muito austero. Porém, a magia da cultura nos envolveu a todos. Quando digo “todos”, também me refiro a dezenas de turistas que faziam vídeos e tiravam fotos, para depois agradecer com aplausos o espetáculo.

Passeando pelo centro histórico, encontramos um grupo de estadunidenses na fila para comprar churros de um vendedor ambulante, uma família latinoamericana esperando para entrar na Casa do Chocolate e um casal de idosos asiáticos tirando fotos com um velho trompetista.

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TEXTO-MEIO

Todo parecem fascinados pela Habana Vieja, pelos casarões restaurados, seus pátios internos, os parques e praças, as ruas de pedra. Os guias, cercados por turistas, explicam em diversas línguas a história dos prédios e das pessoas através dos séculos.

Este rápido retrato me fez pensar que alguma coisa vem mudando, nos últimos anos, no tipo de turismo que chega em Cuba. Também, parece ter ocorrido uma transformação na paisagem social do cubano que os “recebe”, quando saem do quarto para percorrer o país.

Uma amiga que trabalha com turismo há muito tempo, garante que “antes vinham muitos homens sozinhos, e a primeira coisa que perguntavam era onde ficava a Casa da Música [um bar com shows, estilo balada]. Hoje chegam mais casais, famílias e grupos, cujo principal interesse é conhecer Habana Vieja, Varadero ou Viñales”.

Os visitantes ficam impressionados com as propostas socioculturais dos cubanos, a Fusterlandia no bairro de Jaimanitas, o beco do Hamel em Centro Habana, o dos cabeleireiros em Habana Vieja ou o sítio agroecológico de Funes, saindo da capital.

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Fabrica de arte cubana

Parece até existir uma conjunção entre o que os turistas procuram e o que Cuba pode e quer lhes oferecer. O enorme investimento que a nação fez e continua fazendo em educação e cultura poderia se autofinanciar, se o boom turístico atual for bem aproveitado.

É imprescindível, por exemplo, dispor de um guia sério de espetáculos, que permita aos visitantes estar a par dos concertos, das apresentações de dança, das galerias de arte e suas exposições, das casas e clubes temáticos, dos teatros, festivais de cinema, artes plásticas e um longo etcétera.

Não há nada de errado em vender o show do Tropicana, mas nos limitarmos a oferecer um espetáculo de cabaré, é reduzir a cultura cubana ao clichê dos anos 1950. Seria muita tolice esconder o rico mosaico cultural, construído pela nação inclusive desde antes de existir como tal.

A Eusebio Leal e à equipe que restaurou a Habana Vieja, teremos de prestar permanente homenagem, e não somente pelo resgate do centro histórico, mas também por apontar para um dos caminhos que levam ao autofinanciamento da Cultura, utilizando o mercado ao seu favor. A locomotiva do turismo pode puxar muitos vagões da economia, mas a cultura não é mais um vagão – e sim a alma do trem.

Conduzida com inteligência, sem concessões mercantilistas e sem preconceitos ideológicos, poderia inclusive chegar a se autofinanciar. A questão não é multiplicar as bandas que hoje tocam as mesmas músicas em todos os restaurantes. O jazz e a música clássica, por exemplo, deveriam também ter um espaço, assim como pode-se ouvir a canção Guantanamera em versão instrumental na Praça de São Marcos, em Veneza.

É essencial coordenar estratégias e promover ações de realimentação. A cultura cubana poderia se tornar uma fonte inesgotável de atrativos turísticos, ao mesmo tempo em que vamos na alma da pequena Lucía o espírito de sua nação.

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