Rafael Braga, 30

Rafael Braga, 30

O que acontece com Rafael me afeta. Até porque não se trata só do Rafael, mas de todas as pessoas que, como ele, o Estado criminaliza

Crônica de Luiza Sansão

Neste 31 de janeiro, Rafael Braga faz 30 anos. Preso no contexto da grande manifestação de 20 de junho de 2013 no Rio de Janeiro com um frasco de água sanitária e um de desinfetante Pinho Sol, o até então catador de latas ficou conhecido em todo o país e no exterior pela flagrante injustiça de que foi vítima, tornando-se um símbolo da seletividade do sistema penal brasileiro.

De 2015 pra cá, escrevi 22 reportagens sobre o caso — deixando a subjetividade para o livro-reportagem que decidi que produziria em 2016, quando percebi que, como única repórter a cobrir “por dentro” a história do Rafael, tinha e teria pela frente, ao longo desses anos de cobertura, um monte de histórias para contar além das que estão nas matérias.

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Caveirão: o carro da morte

Caveirão: o carro da morte

Veículo blindado da PM é símbolo de terror para moradores de favelas. Campanha lançada este mês luta para bani-lo de operações policiais

Reportagem de Luiza Sansão

 

“É o carro do horror. Quando ele vem, chega devastando tudo”, diz a cabeleireira Nadia Santos, moradora do Chapadão, na Zona Norte do Rio de Janeiro, ao se referir ao Caveirão veículo blindado da Polícia Militar do Estado. “O Caveirão é uma proteção para os policiais. Quando eles entram na favela dentro de um Caveirão, nada acontece com eles. Mas é de onde os policiais atiram. Eles vêm na maldade sabendo que não serão atingidos. Só quem está fora é atingido”, completa. Seu filho, Cleyton, foi morto aos 18 anos por policiais, em 2015.

A sensação de Nadia não é diferente da que têm outras mulheres que tiveram seus filhos assassinados por policiais em favelas. “Pra quem mora na favela, a imagem do Caveirão é de terror, de medo. Quando o Caveirão entra, as pessoas correm, geralmente fecham suas portas, porque ficam aterrorizadas. O veículo é bem grande e, geralmente, quando ele entra na favela, ele já entra destruindo tudo o que estiver pela frente. Então dá muito medo mesmo. A imagem do Caveirão, pra gente, simboliza a morte”, diz Ana Paula de Oliveira, moradora da favela de Manguinhos, também na Zona Norte da capital fluminense. Seu filho Johnatha foi morto em 2004, aos 19 anos, com um tiro nas costas, disparado por um policial da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da comunidade.

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O racismo na pele

A vendedora de balas ambulante Elisângela Cristina de Oliveira, de 46 anos, na Avenida Atlântica, orla de Copacabana, Zona Sul do Rio. | Foto: Luiza Sansão

A vendedora ambulante Elisângela Cristina fala sobre o preconceito cotidiano: “sempre querem te dar o pior emprego”

Reportagem de Luiza Sansão


“Quando você vai procurar emprego, determinados lugares não contratam pessoas negras. Lojas de shopping, restaurantes mais selecionados. Se alguém gritar ‘assalto!’ e você estiver parada, a polícia vai passar por todos os branquinhos que estiverem no lugar e vai parar em você, perguntar onde você estava, se você conhece o ladrão ou é o ladrão”. O relato da vendedora de balas Elisângela Cristina de Oliveira, de 36 anos, não traz, infelizmente, nenhuma novidade para pessoas que, como ela, são negras e sentem o racismo na pele todos os dias.

De tanto se deparar com ‘nãos’ em suas procuras por emprego, ela optou, há mais de dez anos, por trabalhar de forma autônoma, vendendo balas em diferentes regiões da cidade do Rio de Janeiro, mas principalmente na Zona Sul, onde acontecem mais eventos. Foi onde a encontrei, neste domingo, trabalhando durante a 22ª Parada do Orgulho LGBTI, na orla de Copacabana.

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