Uma vigília em favor de Rafael Braga

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Hoje, no Rio de Janeiro e em São Paulo, atos exigem liberdade para catador que é símbolo do racismo do sistema penal brasileiro

Por Douglas Belchior e Campanha pela Liberdade de Rafael Braga

Nesta terça-feira, dia 01/08, será julgado o Habeas Corpus de Rafael Braga na 1º Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.

Rafael foi condenado em 20 de abril de 2017 pelo juiz Ricardo Coronha Pinheiro a 11 anos e três meses de reclusão e ao pagamento de R$ 1.687,00. No dia 1º de junho a defesa entrou com pedido de Habeas Corpus para que Rafael aguarde a apelação da sentença em liberdade.

A Frente Alternativa Preta e a Campanha 30DiasPorRafaelBraga organiza um ATO-VIGÍLIA na noite desta segunda, dia 31 de Julho, a partir das 18h, nas escadarias do Teatro Municipal de SP, exigindo a liberdade de Rafael. No Rio de Janeiro e Distrito Federal também haverá Vigílias. Continuar lendo

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II Salão do Livro Político debate país em estado crítico

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Em S.Paulo, evento desafia, a partir de hoje, pregadores da intolerância e macartismo. Além de lançamentos, preços reduzidos e debates sobre temas centrais da Política, Cultura e Comunicações

O Salão do Livro Político chega à segunda edição em um momento crítico da conjuntura brasileira. Iniciativa independente de editoras vinculadas a questões sociais e política, o II Salão terá como foco a atual crise política brasileira. O evento vai desta quarta (1º/6) até sexta-feira (3), em São Paulo.

“Em tempos de neomacarthismo, quando há um clima de ódio fomentado pelo conluio de juízes, políticos golpistas, colunistas de jornais e o oligopólio midiático que promoveram um golpe de Estado, esse espaço de reflexão será muito bem-vindo”, diz Ivana Jinkings, idealizadora e coordenadora do evento. Continuar lendo

Um punho erguido contra os názis

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No gesto solitário de Tess Asplund diante da marcha nazista na Suécia, mais um sinal do novo protagonismo das mulheres e negras

Por Antonio Martins

Assim como o vídeo da garota brasileira que desafia o Coronel Telhada, na Assembleia Legislativa (ocupada!) de São Paulo, a imagem de Tess Asplund, acima, viralizou — em especial nos países nórdicos. No 1º de maio ao deparar, na cidade de Borländ, com uma marcha do partido neonazista Movimento de Resistência Nórdica (NRM), ela postou seu corpo negro e magro diante de trezentos homens uniformizados, ergueu o punho esquerdo, manteve o olhar muito altivo e os encarou. Escapou ilesa.

Hoje, o Guardian londrino a entrevista. Tess, que tem 42 anos e se define como afro-sueca e integra a organização Afrophobia Focus, em defesa de imigrantes negros, conta que agiu por impulso. Pensou: “estes nazistas não podem desfilar impunemente aqui”. Agora, sente-se dividida. Tem algum medo, é claro. Mas diz: “Espero que algo positivo surja da foto. Talvez o que eu fiz possa ser um símbolo de que qualquer um pode fazer algo contra a xenofobia”.

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O que o samba pode te ensinar

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Não pense que a denúncia da desigualdade surgiu com o rap. Vasto repertório de canções expressa, há décadas, re-existência e criatividade dos negros, num país que os queria apenas como braços

Por Stephanie Ribeiro, do site Alma Preta | Edição de Imagem: Vinícius de Almeida | Imagem: Elifas Andreato

(Um texto para o meu avô, que aos domingos
colocava um álbum do Martinho da Vila
e me tirava pra dançar)

Como já disse Nina Simone, é dever do artista mostrar os tempos em que vivemos. Com os cantores de samba não foi diferente. Ao contrário do que muitos imaginam, não foi só quando surgiu o rap que o negro passou a fazer críticas e denúncias ao contexto social que estamos inseridos.

São canções feitas há anos, nas décadas de 1950 a 80, que se hoje fossem escutadas por nós ainda fariam sentido e seriam facilmente identificadas com nossas atuais vivências. A origem do samba por si só explica o porquê esse ritmo negro fala tanto sobre nós:

“Uma das formas mais comuns pelas quais os negros reafirmavam seus laços de amizade e cooperação ocorria durante as festas nas casas das “tias” ou das “vovós”. As casas das “tias” e das “vovós” eram grandes pontos de encontro daquelas comunidades. Durante essas festas, ocorria a celebração de rituais religiosos, o oferecimento de variados pratos de comida e a execução de diferentes manifestações musicais. Usualmente, aqueles que frequentavam essas festam diziam que frequentavam o “samba” na casa da vovó (ou da titia). Dessa maneira, antes de surgir a música “samba” o termo era sinônimo de festa. Outros pesquisadores do assunto ainda relatam que o termo “samba” tem origem no termo africano “semba”, que era comumente utilizado para designar um tipo de dança onde os dançarinos aproximam seus ventres fazendo uma “umbigada”. Segundo o dicionário Aurélio o termo originário ainda significa “estar animado” ou “pular de alegria”.

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A presença colorida do feminismo negro

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Marcha do Orgulho Crespo, julho de 2015, São Paulo

Com rodas de samba, saraus, plenárias e manifestações, pretas costuram amplas alianças e, recordando Zumbi e Lélia Gonzalez, preparam-se para desaguar sua força em Brasília

Por Inês Castilho | Imagem: Larissa Isis

“Estamos em marcha!”

Com esse grito de guerra, milhares de mulheres negras brasileiras realizarão no dia 18 de novembro, em Brasília, a “Marcha das Mulheres Negras –e Contra o Racismo, a Violência e Pelo Bem Viver”.

Passados vinte anos do reconhecimento oficial de Zumbi, que originou a comemoração de 20 de novembro, e da morte de Lélia Gonzalez,  teórica pioneira do feminismo negro, as pretas retomam em 2015 a ação política nas ruas.

Com sua presença marcante, demandam o empoderamento político da mulher negra, o fim do machismo, do racismo e da discriminação racial, da lesbofobia, bifobia e transfobia, e do preconceito e discriminação de qualquer natureza. Colocam-se contra a intolerância religiosa, pelo respeito e preservação das religiões de matrizes africanas e pelo reconhecimento e preservação dos saberes materiais e imateriais da população negra (cultura, tecnologia, arquitetura, culinária etc.). E levantam-se em defesa da democracia no país. Continuar lendo

Como descolonizar o Brasil, no século XXI

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Decisão judicial que desprezou religiões africanas não é fato isolado. Para situá-la, é preciso examinar “colonialismo”, um processo cultural muito mais profundo que julgamos

Por Luã Braga de Oliveira

Recentemente, no dia 28 de Abril de 2014, fomos surpreendidos com uma decisão judicial absolutamente controversa. O juiz Eugênio Rosa de Araújo, titular da 17ª Vara Federal, recusou-se a dar ganho de causa a uma ação movida pelo Ministério Público Federal. A ação pedia a retirada de uma série de vídeos do Youtube que ofendiam o Candomblé, a Umbanda e seus praticantes. Assistindo ao vídeos, torna-se difícil aceitar a defesa de que aquele conteúdo não ofendia as religiões supracitadas e seus praticantes.

Porém, a tese defendida pelo juiz rompeu de maneira muito mais brusca os limites da sensatez. Segundo Eugênio Rosa de Araújo, as religiões afrobrasileiras em questão sequer cumpriam os requisitos que, segundo ele, configuravam uma manifestação religiosa como uma religião. Para ele, para algo ser considerado uma religião seria necessário : Ter um Deus a ser venerado (assim, com “D” maiúsculo), ter um livro sagrado e possuir um sistema hierárquico.

Como candomblecista, proveniente de uma família com diversos praticantes de religiões afrobrasileiras, me senti pessoalmente ofendido. Entretanto, me senti mais ofendido enquanto cidadão e ser pensante. Primeiramente, devido ao galopante desconhecimento do Candomblé e da Umbanda desfilado pelo juiz. Além destas terem um rígido sistema hierárquico, possuem um respeitável portfólio de deuses a serem venerados. Em segundo lugar, pela constatação do estágio pouco avançado em que nos encontramos para a superação dos elos que nos prendem a nosso passado colonial e escravista. Estes elos manifestam-se recorrentemente nas atitudes e nos discursos dos indivíduos na sociedade. Entretanto, ultimamente eles tem se manifestado de maneira assustadora e preocupante nas altas esferas políticas – e agora jurídicas –, colocando a perder os singelos passos que demos em direção a pluralização de direitos básicos outrora restringidos a determinados setores da sociedade. Continuar lendo

Uma Holanda contra o racismo

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Boa surpresa: parte de Amsterdam reage, em passeata, contra políticos que tentam marginalizar imigrantes pobres

Por Marília Arantes

Um dos tiros disparados pela ultra-direita na Europa pode sair pela culatra. Na Holanda, as pressões e os preconceitos contra imigrantes estão despertando crescente oposição e resistência – inclusive, entre parte da população branca. Uma nova onda de oposição ao racismo refletiu-se na participação de 8.000 pessoas, em marcha realizada em Amsterdam, em 22 de março, e relatada por Bryan Van Hulst, no site alternativo Waging Nonviolence.

A mobilização foi deflagrada em resposta a um comício odioso de Geert Wilders, líder do Partido da Liberdade (PVV), ultra-conservador e xenófobo. Em discurso, ele perguntou a seus apoiadores se queriam ter “mais ou menos marroquinos” no país. Escutou-se de um público entusiasmado: “menos, menos, menos!” A fala despertou polêmica. O próprio ministro da Justiça, Ivo Opstelten, classificou-a como inescrupulosa e inaceitável. O mote de campanha de Wilders era: “por uma cidade com problemas menores, e na medida do possível, um pouco menos de marroquinos”. Continuar lendo

Inglaterra: governo amplia “caça” aos imigrantes

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Suspeitos são detidos e têm fotos divulgadas, para provocar temor. Parte da população começa a reagir, nas redes sociais

home office (espécie de ministério do Interior) do governo inglês levou aina mais adiante as práticas de discriminação anti-imigrantes, já relatadas por Outras Palavras em 30/7. Desde quarta-feira, as detenções de estrangeiros suspeitos de não terem documentos passaram a ser fotografadas e divulgadas amplamente pela polícia (inclusive nas redes sociais…). Só nesta quinta-feira, orgulha-se o home-office, 139 pessoas foram presas. O objetivo é aterrorizar os imigrantes considerados “ilegais”. Ao mesmo tempo, circulam em Londres e arredores out-doors sobre rodas, que incitam a população a denunciar não-britânicos indocumentados em sua vizinhança.

Felizmente, cresceu, entre setores da população, a resistência a tal tipo de barbárie. A edição de hoje do Guardian relata uma batalha no Twitter, entre os partidários do preconceito e os que defendem posturas humanistas.  Um jornalista do Daily Mirror sugeriu a seus leitores: “Se todos denunciarmos o @ukhomeoffice como spam, não poderão nos deportar. FAÇAM ISSO. Pelo menos, acho que não poderão nos deportar. Certamente tentarão. Especialmente, se você for meio escurinho”…

“Eu vi os Racionais sacudindo a quebrada”

Crônica de quem viveu, de dentro, as festas, desabafos e sede de justiça despertadas na periferia pelos manos que rimavam como ninguém

Por Jean Mello

“Saiu o novo trabalho dos Racionais, Sobrevivendo no Inferno”, disse Esquerdinha, meu melhor amigo na época, quando me viu voltando da escola em 1997. Com uma fita K7 na mão, nem me esperou ir pra casa e guardar o material: logo ligou o som de sua casa, no último volume.

Capítulo quatro, versículo três, logo depois da fala introdutória de Mano Brown, intitulada com um nome bastante sugestivo, Gênesis. “Deus fez o mar, as águas, as crianças e o amor. O homem? Me deu a favela, o crack, a ‘trairagem’, as armas, as bebidas e as putas”. Mas, além desse som, a que mais bateu forte em minha consciência foi Fórmula Mágica da Paz.

Piramos ainda mais um ano depois quando soubemos que os ingressos para o show desse CD-Manifesto estava à venda próximo ao terminal São Mateus. Quando chegamos para comprar, uma fila gigantesca nos esperava. A juventude negra presente em massa. Uma galera cantando as letras mais fortes. Todos queriam garantir, com quase um mês de antecedência, um bom lugar na festa mais aclamada da região. Se bem que comprar antes só garantia à presença. Ficaria na frente quem chegasse primeiro no dia do show.  Continuar lendo

São Paulo reage à violência policial

Convocada por pressão de movimentos sociais, audiência publica debaterá hoje ataques a pobres e negros. Procurador cogita pedir afastamento de cúpula da PM

Por Taís Capelini

O assassinato do publicitário Ricardo Prudente de Aquino, numa batida policial, e a série recente de “confrontos” entre a PM e a facção criminosa PCC, em São Paulo, podem não ser eventos casuais. Uma audiência no Ministério Público Federal investigará, na tarde desta quinta-feira, na capital do Estado, algumas hipóteses angustiantes. A polícia paulista desenvolveu uma cultura de violência gratuita, autoritarismo e demonstração abusiva de poder, cujo alvo principal é a população pobre e negra, denunciam entidades que participam da Comissão Nacional de Direitos Humanos. O procurador da República Matheus Baraldi Magnani antecipou que está disposto a pedir o afastamento da cúpula da PM no Estado. Para ele, os métodos primários adotados no comando da corporação provocaram “perda de controle” sobre a segurança em São Paulo.

Alguns dados revelam a gravidade da situação. Entre 2006 e 2010, a PM matou 2262 pessoas no Estado — cerca de onze por semana, em supostos “confrontos”. Metade dos policiais encarcerados no presídio Milton Romão Gomes (zona norte da capital) foi julgada e condenada por homicídio. Estes sinais de violência sem controle não foram capazes de oferecer tranquilidade à população. O número de homicídios em São Paulo cresceu 8,4%, no primeiro semestre deste ano. O próprio secretário de Segurança Pública, Antonio Ferreria Pinto, admitiu que o Estado vive uma “onda de violência”.
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