Em resposta ao neoliberalismo, o Comum. Por que caminhos?

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George Monbiot aposta em redes adensadas, autônomas em relação ao Estado. Mas como promover a redistribuição e as políticas públicas?

Por Antonio Martins

O escritor e jornalista britânico George Monbiot, que iniciou em dezembro passado uma série de artigos sobre o Comum acaba de publicar um novo texto a respeito do tema. Trata dos caminhos para construir e manter *redes comunitárias*.

Elas são essenciais, diz Monbiot, porque o neoliberalismo destruiu e dispersou, “como poeira lançada ao vento”, os antigos laços de sociabilidade, baseados em emprego duradouro, família, religião. O sistema atomizou as sociedades. E — avança o texto — atomizados e amedrontados, os seres humanos são incapazes de cultivar valores como a empatia, a conectividade e a generosidade. Buscam, ao contrário, poder individual, riqueza, status: é a lei da selva. Continuar lendo

TEXTO-FIM

Brasil: ainda estão rolando os dados

Passadas as eleições, toda a velha mídia diz que uma página foi virada, com a vitória dos liberais e conservadores. Veja o que há por trás desta análise apressada

Texto: Antonio Martins | Montagem: Gabriela Leite

Assim que as urnas se fecharam, neste domingo, começou uma operação político-midiática para afirmar que uma página da história do país foi virada. A ampla vitória de candidatos ligados ao governo, na maior parte dos municípios, significaria que já não se pode falar em golpe. Os eleitores teriam confirmado, nas urnas, sua adesão a uma maré liberal-conservadora. Ela é expressa nas importantes vitórias do PSDB e na emergência de figuras como o pastor Crivella, da Igreja Universal. Após as eleições – e aqui está o pulo do gato — deveríamos aceitar como inevitáveis as contra-reformas propostas pelo governo Temer e pelo empresariado: PEC-241 (PEC-55 no Senado). Redução dos direitos previdenciários. Ataque à legislação trabalhista. Todo este raciocínio é manco e interesseiro (– como você verá no começo da tarde).

De que a esquerda institucional está abalada, não há dúvidas. De que será preciso um longo e árduo trabalho de construção de novo pensamento pós-capitalista, também não. A ele nos dedicaremos, com empenho e criatividade, nos próximos anos. Mas por trás da narrativa que desenha uma irresistível onda conservadora há um truque banal. Trata-se de encerrar o jogo quando o placar está favorável ao narrador – mas a partida está apenas começando. Continuar lendo

São Paulo ensina a pequenez

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Na “reorganização” das escolas do Estado, dois cacoetes das elites: decidir sem debate e oferecer às maiorias o mínimo. Mas Florestan Fernandes inspira a resistir

Por Fernanda Feijó1

O Brasil caracteriza-se por estabelecer políticas sociais de forma autoritária: sempre “de cima para baixo”. Tal fenômeno tem marcado o desenvolvimento do país desde os primórdios da República (se considerarmos que o Império era um regime autoritário em si) até os dias atuais. Podemos perceber a força desse autoritarismo quando falamos mais especificamente de políticas educacionais e dos percursos que as mesmas percorreram ao longo do último século.

Desde a década de 1930, quando a intelectualidade brasileira iniciava o processo de institucionalização das ciências sociais, já se anunciava a importância da educação formal dentro do país, ainda que naquele momento a preocupação maior fosse formar quadros para a elite dirigente do país que pudessem impulsionar o processo de modernização que se colocava em curso. No contexto de centralização política propiciada pela Revolução de 1930, a educação nacional passa, então, efetivamente a ser responsabilidade do Estado. Foi justamente nesse momento, que o Brasil ensaiou o desenvolvimento de um “pseudoestado de bem-estar”, a saber extremamente conservador e autoritário, na qual o Estado realizava reformas sem a participação da sociedade nos processos decisórios. Continuar lendo

Breve nota sobre o impasse do capitalismo e a bifurcação à frente

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O que Ignacio Ramonet, Immanuel Wallerstein e Thomas Piketty sugerem acerca dos impasses contemporâneos e o espaço existente para mudar o mundo

Por Rennan Martins

O avanço da direita liberal-conservadora, iniciado após Pinochet, Thatcher e Reagan, foi de tamanho ímpeto que, na atualidade, a ascensão de um genuíno social-democrata, a saber, Rafael Correa, se dá num projeto político alcunhado Revolución Ciudadana. O espectro do debate político-econômico foi tão puxado pra direita, que propor um Estado de bem-estar social é revolucionário.

Correa, que tem mandato até 2017, já fala em emenda constitucional no tocante a reeleição. Tem consciência da dificuldade que é enfrentar a reação, cada vez mais inescrupulosa e virulenta. Continuar lendo

Economia: o notável exemplo da Bolívia

Trabalhadores celebram Dia da Descolonização, instituído em 2011. Ao descartar, com sucesso, políticas desejadas por mercados financeiros, país revela espaço para alternativas

Trabalhadores celebram Dia da Descolonização, instituído em 2011. Exito na distribuição de riquezas e em reformas estruturais revela espaço para alternativas

Além de rechaçar políticas do FMI, país fez reformas estruturais e evitou concessões a grandes empresas. Sucesso revela como são frágeis ideias conservadoras que dominam debate brasileiro

Por Antonio Martins

Uma vasta onda de conservadorismo econômico varre o Brasil. Neste exato instante, por exemplo, o ministro da Fazenda Guido Mantega batalha por um amplo corte no Orçamento da União para 2014. Reduzir investimentos públicos é, pensa ele, indispensável para “tranquilizar os mercados”, sinalizando que o governo Dilma não adotará políticas que os afetem e recuperando sua “confiança“. Entre os adversários mais fortes da presidente, o cenário é ainda mais devastador. Aécio Neves prega o retorno puro e simples às políticas neoliberais. Eduardo Campos e Marina Silva cercam-se, informa o Valor Econômico, dos principais assessores econômicos de FHC. Preveem, se eleitos, ampliar as concessões que o Executivo faz, há meses, ao mundo das grandes finanças. Não há saída, todos parecem calcular: num mundo em que a crise agrava-se, a única opção de governantes prudentes seria evitar ousadias, não confrontar o grande poder econômico, esperar que passem os tempos de vacas magras. Será verdade?

Uma reportagem na edição de hoje do New York Times sugere desconfiar deste consenso. Trata de um país cuja força para resistir às pressões dos mercados financeiros é, em teoria, incomparavelmente mais reduzida que a do Brasil: a frágil Bolívia, com PIB (US$ 50 bilhões) cerca de 46 vezes inferior ao nosso. Traz revelações surpreendentes. A economia boliviana cresceu 6,5% no ano passado — uma das taxas mais altas do mundo. As reservas internacionais em moedas fortes são, proporcionalmente, quase duas vezes superiores às brasileiras. A dívida pública cai a cada ano. Tudo isso foi alcançado com medidas opostas às esboçadas pelos candidatos brasileiros. Continuar lendo

Novo capítulo na Primavera do Québec

Na retomada das aulas, milhares de estudantes voltam às ruas, protestam contra aumento das mensalidades escolares e podem ajudar a eleger partido favorável à autonomia regional da província canadense

Por Hugo Albuquerque

Em 22 de Agosto, estudantes universitários da província de Quebec, no Canadá, protestaram fortemente contra o governo local, chefiado pelo liberal Jean Charest. O movimento estudantil repetiu o que já acontece desde março deste ano — e pode prosseguir, pelos próximos seis meses. Em 22/3, uma grande manifestação iniciou o combate contra o plano de aumento abusivo dos chamados “droits de scolarité universitaires” (direitos de escolaridade universitária) — os valores exigidos para que um estudante possa se matricular em um programa de estudos de educação superior. Uma vez implementada, essa medida representará um aumento brutal de 75% dos custos educacionais pelos próximos cinco anos, além dos aumentos já registrados nos anos recentes (3,6% a mais de 2009 para 2010 e 4,0% de 2010 para 2011)

Pelo seu tamanho e intensidade, as manifestações foram chamadas de Primavera do Quebec. Não tardou a vir uma reação violentíssima contra elas: inclusive, por meio de um dispositivo de exceção, a famigerada lei “especial” n. 78, instituída pelo parlamento local em 18 de Maio deste ano. Seu efeito prático é suspender os direitos fundamentais a manifestação pacífica dos estudantes, obrigando, entre outras coisas, que qualquer organização ou coletivo que planeje uma manifestação pacífica com mais de 50 participantes informe às autoridades policiais data, hora, duração, locais, intinerários e meios de transporte utilizados para tanto às autoridades policiais. Em nome da “segurança pública”, a polícia pode determinar “modificações”. Uma campanha dos estudantes pede a anulação da lei nos tribunais. Suas razões estão resumidas em um vídeo que circula pela Internet. Continuar lendo

Renda Básica: assistência ou pós-capitalismo?

Debate provocador em São Paulo: Guy Standing diz que sociedades – e esquerda – vão se tornar insuportáveis, se não adotarem e radicalizarem programas como Bolsa-Família

Por Antonio Martins


Sobre o tema:
Precariado, rebeldia e renda cidadã
Uma nova classe social multiplica-se e questiona bases do capitalismo oligárquico. Esquerda institucional não pode continuar sem propostas para ela (Por Guy Standing)

Embora sejam muito populares entre as maiorias, e produzam mudanças sociais notáveis onde aplicados, programas como o Bolsa-Família permanecem, ainda hoje, ameaçados por um fantasma: a chamada “porta de saída”… Para os conservadores, e mesmo para diversos setores da esquerda, eles são, no máximo, uma transição provisória. Amenizam a pobreza, mas não oferecem perspectivas. Precisam ser substituídos, assim que possível, por políticas que gerem empregos e desenvolvimento. Tal ponto de vista é retrógrado, inconsistente e elitista, pensa o economista Guy Standing. Ele vai expor suas ideias nesta sexta-feira (29/6), na Faculdade de Saúde Pública da USP, num seminário em que também estarão presentes o senador Eduardo Suplicy e o secretário nacional de Economia Solidária, Paul Singer.

Standing é um dos co-presidentes da Rede Planetária pela Renda Básica (BIEN, na sigla em inglês). Ele está convencido de que as políticas de redistribuição monetária da riqueza social permitem enfrentar a ultra-concentração de riquezas, produzida pelo capitalismo contemporâneo. Poderiam, além disso, resgatar a esquerda da Europa (e de outras partes do mundo…) do atoleiro em que se meteu há pelo menos trinta anos, quando mudaram rapidamente os mecanismos de acumulação do capital. Continuar lendo

A rebeldia no coração do sistema

Manifestações contra ditadura das finanças crescem em Nova York, espalham-se pelos EUA e promovem encontros políticos que talvez sejam inspiradores em todo o mundo

É provocativo viver momentos que farão história, e tentar compreendê-los. Por suas inúmeras novidades, 2011 será lembrado durante muito tempo — e a partir de agora, há um motivo a mais. Occupy Wall Street, um movimento de contestação do sistema que nasceu com ousadia mas alcance limitado, em 17 de setembro, ganhou nos últimos dias novas dimensões. Inspirado pelas ideias da autonomia e contracultura — mas reforçado por jovens mais movidos pela defesa de seus interesses que pela ideologia anticapitalista –, espalhou-se, no fim-de-semana, por dezenas de cidades norte-americanas: do Texas ao Havaí; de Boston a Memphis. Na segunda-feira, recebeu a adesão de alguns dos maiores sindicatos norte-americanos. Ontem (5/10), já engrossado por este apoio, organizou uma marcha de 15 mil pessoas, em Manhattan.  Ao receber adesões e influências, está se convertendo, antopofagicamente, em algo muito distinto de todas as tendências que o compõem — anarquismo, hippíes, juventude desencantada, trabalhadores organizados. Talvez aí residam sua potência e sua capacidade de contribuir com a construção de uma nova cultura política — uma necessidade que também ficou mais clara que nunca este ano.

Um texto publicado hoje, em nossa revista virtual, ajuda a compreender as origens do movimento. Foi produzido para The Nation por Nathan Schneider, um ativista ligado à cultura de paz e à organização dos movimentos de base (grassroots, no jargão político norte-americano) [e traduzido pela rede Vila Vudu]. Revela que os preparativos para um acampamento próximo ao centro financeiro de Nova York e do mundo começaram em julho. Foram conduzidos por três pequenos coletivos: Adbusters (uma rede global anti-consumista, fundada no Canadá e presente em especial na América do Norte), Day of Rage (uma rede de grupos jovens cujos alvos parecem ser, como na Espanha, os banqueiros e políticos) e Anonymous (uma espécie de guerrilha digital em rede, que luta especialmente pela liberdade na internet).

Redigido na forma de perguntas e respostas, o breve texto de Nathan reconhece que o início foi difícil. Os organizadores esperavam reunir 20 mil pessoas em Wall Street, em 17 de setembro — um sábado. Mobilizaram um décimo disso. Os participantes enfrentaram a vida dura com coragem. Quase todos com menos de 25 anos, dormiram ao frio, em colchonetes finos, sobre o chão da Liberty Plaza (veja o mapa), próxima a pontos por onde trafegam trilhões de dólares todos os dias.

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Quando os banqueiros ouvem Karl Marx

Um consultor ilustre do sistema financeiro ajuda a ridicularizar o consenso em favor de “corte dos gastos públicos”, que domina Europa e América do Norte — com ecos no Brasil

Na aparência, tudo não passa de um completo nonsense. Aos 61 anos, o economista britânico George Magnus é uma das vozes ouvidas no escalão mais alto do sistema financeiro internacional. Desde 1997, aconselha (primeiro, como economista-chefe; hoje, como consultor senior) o UBS, o maior banco suíço e o segundo maior do mundo na administração de fortunas milionárias (com ativos de cerca de 2,5 trilhões de dólares). Este homem está dizendo [leia seu texto, na revista virtual de Outras Palavras] a seus insignes clientes que ouçam, para salvar a economia da crise… Karl Marx.

Magnus não se refere, é claro, ao Marx político, que propunha a derrocada da burguesia por meio da revolução proletária. O que ele realça é a precisão teórica das análises marxianas sobre a natureza das crises do capitalismo. Demonstrando conhecer a obra do filósofo alemão, sustenta: por trás das turbulências que continuam sacudindo os mercados financeiros, há uma clássica crise de superprodução. A concentração de riquezas foi tão aguda, nas mais de duas décadas de hegemonia neoliberal, que se reproduziu o velho mecanismo descrito por Marx: já não há consumidores capazes de adquirir as mercadorias e serviços socialmente produzidos.

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