Banksy: agora contra o Estado de vigilância?

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Surge misteriosamente, na cidade-sede dos serviços de espionagem britânicos, um sugestivo grafite. Mercado de arte se alvoroça com artista anti-mercado…

Por Gabriela Leite

Um novo grafite do artista inglês Banksy parece ter aparecido na cidade de Cheltenham, no Reino Unido. A pintura retrata três agentes do serviço de inteligência britânico escutando as chamadas de uma cabine telefônica, ligados a um satélite. O local não foi escolhido ao acaso: Cheltenham, cidade de cerca de 110 mil habitantes e a 150 quilômetros a noroeste de Londres, é sede do Quartel General das Comunicações do Governo inglês (Government Communications Headquarters, ou GCHQ), serviço responsável pela espionagem nas comunicações e fornecedor de informações sobre os cidadãos ao Estado e forças armadas.

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A autoria da obra ainda não foi confirmada por Banksy, pseudônimo do um artista britânico cuja identidade permanece incógnita — mas que é conhecido mundialmente por sua arte de rua. Seus stêncils (técnica de grafite feita com desenhos recortados em máscaras e gravados com spray) satirizam a sociedade capitalista, consumista e violenta e começaram a aparecer pelas ruas de Bristol e Londres nos anos 90. A mais recente, com os agentes da GCHQ — equivalente da norte-americana NSA no Reino Unido –, expõe a indignação com a espionagem em massa de cidadãos, por parte dos governos e empresas, que foi revelada nos últimos anos. Continuar lendo

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A vitória de Snowden e o fracasso de Obama

Ilustração de Jason Stou

Ilustração de Jason Stou

Ex-agente que denunciou NSA indicado para Nobel da Paz. Em Washington, presidente debate-se para preservar espionagem e salvar aparências

Por Cauê Seignemartin Ameni

Aos poucos vão surgindo evidências de que a história trabalha mais a favor do ex-agente Edward Snowden, do que do presidente americano Barack Obama. Na quarta-feira (29/01), o ex-agente que revelou a maior plataforma de vigilância da história, foi indicado para concorrer o Prêmio Nobel da Paz. Oscar Wilde, escritor inglês do século XIX, sintetizou uma vez a importância histórica de fatos como este: “a desobediência é aos olhos de qualquer estudioso da História, a virtude original do homem. É através da desobediência que se faz o progresso, através da desobediência e da rebelião”. Continuar lendo

As empresas contra a sociedade civil

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Dossiê revela: para neutralizar ativismo, grandes corporações contratam militares, espionam e sabotam grupos que lutam por direitos humanos e meio-ambiente

Por Taís Gonzalez

Em março deste ano, quando ativistas brasileiros desmascararam um funcionário da Vale que se infiltrara em um encontro de mobilização, para espionar e registrar imagens, alguns pensaram tratar-se de ato raro, praticado por iniciantes atabalhoados. Acaba de sair nos Estados Unidos um relatório que revela, com riqueza de dados, o contrário. Nos últimos anos, vigiar, ameaçar e trapacear os movimentos sociais tornou-se prática comum entre as grandes empresas transnacionais. Elas passaram a adotar táticas idênticas às de agências como a CIA e a NSA – mas talvez provoquem ainda mais danos, pois têm um número muito maior de alvos. Perseguem ativistas ligados a um amplo leque de causas: entre outras, o ambientalismo, a oposição às guerras, defesa dos serviços públicos, segurança alimentar, agroecologia, reforma urbana e direitos dos animais. Entre as envolvidas, são citadas nominalmente Walmart, Bank of America, McDonalds, Monsanto, Shell, Chevron, Burger King, Kraft, Dow Química e Câmera Americana do Comércio

O relatório, disponível aqui, foi preparado pelo Centro de Estudos das Políticas Corporativas, um grupo dedicado a denunciar abusos corporativos e exigir responsabilidade empresarial. Com redação final de Gary Ruskin, tem 53 páginas e enorme quantidade de material inédito: após uma breve apresentação, seguem-se dezenas de casos concretos. O estudo remonta ao século 19. Lembra que desde então o mundo empresarial – particularmente o norte-americano – serve-se de vigilância para tentar impedir ações como greves e mobilizaçõs sindicais. Continuar lendo

Vigilância global: Casa Branca isola-se mais um pouco

Legenda imagem: Edward Snowden com prêmio Sam Adams de integridade em inteligência, com ex-funcionários do governo dos EUA Coleen Rowley, Thomas Drake, Jesselyn Raddack, Ray McGovern, e Sarah Harrison do Wikileaks. Fotografia: Sol Imprensa / Getty Images

Edward Snowden ao lado ex-funcionários do governo dos EUA Coleen Rowley (ex-FBI), Thomas Drake (ex-NSA), Jesselyn Raddack, Sarah Harrison do Wikileaks e Ray McGovern (ex-CIA).

Antigos funcionários na inteligência norte-americana premiam Snowden em Moscou. Comitê para Proteção de Jornalistas compara Obama a Nixon

Por Cauê Seignemartin Ameni

Sumido desde agosto, após despistar o governo norte-americano e conseguir asilo político na Rússia, o ex-analista de sistema da Agência Nacional de Segurança (NSA), Edward Snowden reapareceu quarta-feira passada (09/10) em cerimônia organizada por ex-agentes da inteligência norte-americana, críticos assíduos da vigilância estatal.

Responsável por revelar o maior esquema de espionagem em massa da história, Snowden recebeu o prêmio Sam Adams Awards, oferecido pela associação Sam Adams Associates for Integrity in Intelligence. A associação reúne agentes aposentados da segurança nacional norte-americana e premia, anualmente, profissionais do serviço de inteligência que tenham se distinguido pela integridade ética. Uma comissão composta por Ray McGovern, ex-analista da Agência Central de Inteligência (CIA); Coleen Rowley, ex-agente do FBI; Jesselyn Radack, ex-autoridade no Departamento de Justiça; e Thomas Drake, ex-alto funcionário da NSA, se deslocou dos Estados Unidos à Rússia para homenagear o mais novo inconfidente. Uma ironia: o país é presidido pelo ex-espião do KGB, polícia secreta da antiga União Soviética, Vladimir Putin. Continuar lendo

Espionagem: o truque sujo dos ingleses

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Edward Snowden denuncia: serviço secreto começou a vazar seu próprios segredos, para jogar opinião pública contra quem denuncia vigilância

Por Cauê Seignemartin Ameni

Há dois anos, os governos e exércitos ocidentais têm atacado furiosamente quem revela seus segredos esgrimindo um argumento básico. Mesmo quando comprovam ataque sistemático dos Estados à privacidade dos cidadãos, estas revelações seriam indesejáveis — porque colocariam em risco a vida de soldados que lutam contra “o inimigo”. Acaba de surgir um fato que demonstra a falsidade deste argumento. Num texto publicado sexta-feira passada (23/8), o jornalista Glenn Greenwald, do jornal britânico The Guardian, sugere que o serviço secreto britânico está, ele próprio, vazando segredos que podem atingir militares britânicos. Tudo para incriminar Edward Snowden.

O foco da polêmica é uma suposta base de espionagem inglesa no Oriente Médio, que seria encarregada de monitorar em massa telefonemas e comunicações via internet. Sua existência foi denunciada por outro jornal britânico, The Independent. Este, porém, atribuiu a revelação do segredo a Snowden. A autoria é falsa. Na mesma sexta, Glenn publicou, em seu blog, mensagem de Snowden, assegurando: “Jamais falei, trabalhei ou forneci qualquer tipo de material ao The Independent”.

Nesse caso, quem seria a fonte da revelação? O próprio Snowden especula: “Tudo faz crer que o governo britânico tenta criar a impressão de que as revelações publicadas no Guardian (…) seriam danosas. Para ‘demonstrá-lo’, vaza para o The Independent informação intencionalmente danosa, atribuindo-a a outros”.

Ao que tudo indicada, os governos tentarão acuar cada vez o jornalismo investigativo pós-wikileaks. Se os jornalistas não são intimidados por portar material confidencial — mesmo que seja de enorme interesse publico –, são acusados de colaborar com os inimigos “terroristas”. Mas o que fazer quando o próprio Estado alimenta o terrorismo para defender seus interesses?

Leia abaixo a tradução na integra da matéria.

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Você enxerga o mundo na internet? Ou ela pesquisa você?

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Já estão ativos, em seu celular, mecanismos de busca premonitória. Escolhem por você, pois convidam à rotina letárgica de viver sem refletir. Mas problema não é tecnologia

Antes que você pense em perguntar, seu telefone, conectado à internet, avisa que precisa sair de casa mais cedo e se agasalhar. O trânsito, até o local de seu próximo compromisso, está congestionado: você levará uma hora e dez, de carro. Faz mais frio do que previa a meteorologia na noite anterior. Em compensação, sorria: há uma promoção para a viagem a Paris que você queria fazer com sua namorada. Clique aqui, para reservar duas passagens, ou aqui para incluir, na compra, cinco diárias de hotel, com desconto, em Montmartre.

Novas descobertas tecnológicas estão tornando as buscas na internet muito mais sofisticadas. Diversas empresas — Google, obviamente, mas também Cue, reQall, Donna, Tempo AI, MindMeld e Evernote — estão desenvolvendo aplicativos que cruzam seus dados, adivinham seus desejos e fazem ofertas. É parte da “inteligência artificial”, um passo tecnológico que estava associado aos computadores corporais (como o Google Glass), mas que entrou em teste desde já. Se você usa um celular, Android ou Iphone, experimente, por exemplo, testar o Google Now.

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Espionagem em massa: possível reviravolta nos EUA

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Pela primeira vez, norte-americanos temem mais a perda de suas liberdades do que terrorismo. Congresso pode restringir vigilância sobre cidadãos

Por Cauê Ameni

Esquecido pela maior parte do noticiário, Edward Snowden, o ex-contratado da CIA que revelou o mega-esquema de espionagem global praticado pelos EUA, pode ter alcançado sua primeira vitória. Uma nova pesquisa de opinião pública acaba de revelar: a difusão de detalhes sobre a vigilância contra os cidadãos está levando uma parcela crescente dos norte-americanos a voltar-se contra a prática. O próprio Congresso já admite – embora de forma tímida e contraditória – votar leis para restringir o monitoramento de telefonemas e da internet.

Inicialmente, mais da metade dos americanos eram a favoráveis aos procedimentos de vigilância adotados pela National Securty Agence (NSA). Mas uma recente sondagem, realizada pela Pew Research, revela uma gritante mudança. Os cidadãos estão mais preocupados com os abusos contra os direitos civis do que com o terrorismo. É “uma mudança radical da opinião publica a partir das recentes revelações”, assinala Glenn Greenwald, advogado e jornalista que vem cobrindo o caso desde o seu inicio. De acordo com a pesquisa, 70% acreditam que o governo usa os dados recolhidos para outros fins (que não o combate ao terrorismo); 56% acha que os tribunais federais não foram capazes em limitar o poder da interceptação estatal nas comunicações. Além disso, 63% desconfiam que o governo vai além de levantamentos estatísticos: também está coletando informações sobre os conteúdo postados nas redes. Isso demonstra uma rejeição direta aos três argumentos usados pelo governo para defender seus programas: a vigilância seria feita de forma adequada, não envolveria violação de conteúdo; e a espionagem seria usada apenas para manter a população segura. Continuar lendo

RIOT, o novo espião social da internet

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Revelado sistema sigiloso para monitorar ação dos cidadãos nas redes sociais e prever seu comportamento futuro. Crescem sinais de que disputa pelo futuro da rede está se acirrando

Por Antonio Martins

O caráter político do aparato sobressai já no nome: ele chama-se RIOT — revolta, motim, ou manifestação, em inglês. Trata-se de um software com enorme capacidade de obter informações sobre pessoas; identificar seus atos e comportamentos; prever suas ações futuras. Desenvolvido pela Raytheon, a quinta maior empresa privada de serviços militares do mundo, colhe e cruza informações a partir das redes sociais — em especial Facebook, Twitter, Instagram e Fourquare. Segundo seus criadores, é capaz de analisar “trilhões de entidades” — indivíduos, grupos, comunidades, organizações — no ciberespaço. Foi apresentado em abril de 2012 ao governo norte-americano, numa conferência nacional sobre “inovações secretas e reservadas”. É um dos sinais de que a internet permanece como um espaço em permanente disputa. Ela multiplica a potência das ações libertadoras, antiautoritárias e pós-capitalistas; mas pode ser utilizada para estabelecer controle social opressivo e high-tech. Continuar lendo