Xploit 01 – Democracia Hackeada

Websérie da TV Drone e da Actantes explica, de forma didática, as disputas na Internet brasileira. Outras Palavras publicará um episódio por semana

Por André Takahashi

No primeiro episódio, mostra-se o cenário de avanço vigilantista no Congresso Nacional e nas interpretações do Judiciário brasileira. Os entrevistados apontam como iniciativas importantes como o Marco Civil da Internet vêm sendo descontextualizados para justificar medidas de controle da internet brasileira.

A mini-série Xploit, que é uma realização da TVDrone / Actantes, em associação com a Fundação Heinrich-Böll-Stiftung e com apoio da Rede TVT, pretende abordar uma guerra silenciosa que acontece longe dos PCs, laptops e dispositivos móveis mas cujo resultado interfere diretamente em nossas vidas online e offline.

Contando com a ajuda de um seleto grupo de entrevistados como o co-criador do sistema GNU Richard Stallman, o jornalista James Bamford, a advogada Flávia Lefèvre, a jornalista Bia Barbosa, a cientista social Esther Solano e o sociólogo e cyberativista Sérgio Amadeu da Silveira a série introduz o espectador nas disputas políticas políticas e econômicas que trarão consequencias diretas em nossos diretos essenciais dentro e fora do mundo digital.
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Por uma internet mais subversiva

Fevereiro de 2014: manifestantes saem às ruas na Turquia contra restrições à internet, aprovadas pelo Parlamento. Para autores do novo manifesto, é preciso enfrentar, além do autoritarismo, mercantilização da rede

Manifestantes saem às ruas na Turquia, em 2014, contra restrições à internet. Para autores do novo manifesto, é preciso enfrentar, além do autoritarismo, mercantilização da rede

Em resposta ao Facebook, Google e plataformas precarizantes como Uber, pesquisadores e ativistas mobilizam-se para criar redes pós-capitalistas, onde se compartilhe propriedade e trabalho

Por Antonio Martins

Se você acha que o potencial democratizador e descentralizador da internet está se perdendo em banalidades (como as timelines do Facebook), ferramentas de controle (como o Google, capaz de vigiar todos os seus passos) ou plataformas que, embora favoreçam o compartilhamento, beneficiam essencialmente seus proprietários (como Uber e AirBnB), não sinta-se sozinho. Está se espalhando rapidamente pela rede o Projeto Novo Sistema.

Lançado por dois jovens pesquisadores norte-americanos (Nathan Schneider e Trebor Sholz, apresentado num manifesto que tem, entre outros endossos, o de Noam Chomsky, ele sustenta que as sociedades articuladas em redes estão maduras para um novo sistema social, claramente pós-capitalista. Questiona pilares centrais da ordem atual – como a propriedade privada e o trabalho assalariado. Pede esforços para desenvolvimento de sistemas de internet realmente libertadoras (visando um Cooperativismo de Plataforma). Acredita que é possível começar a construí-lo desde já. Mas reconhece: a tecnologia não promove as grandes mudanças sociais – para elas, é necessário consciência e mobilização de massas.

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Internet: o que você assina sem ler

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Um repórter britânico atreveu-se a examinar, por uma semana, os “termos de uso” de todos os serviços que utiliza na rede. O que descobriu vai do bizarro ao trágico

Por Gabriela Leite | Imagem: Tom Fish Burne

A maior mentira da internet: “li e concordo com os termos de uso”. Pudera: quem tem tempo ou paciência para o calhamaço de letras miúdas com texto muitas vezes incompreensível que vem antes de nos cadastrarmos a uma rede social ou instalarmos um programa? O problema é que estamos assinando um contrato sem nos dar conta do que podemos perder. Para entender melhor onde estamos nos metendo, o jornalista Alex Hern, do The Guardian, resolveu se desafiar e escrever sobre isso. Decidiu que leria todos os termos de uso de serviços que fosse usar, em uma semana.

O que primeiro chama a atenção, em seu relato, é a quantidade de tempo perdida com leituras maçantes. Segundo ele, toda sua leitura da semana junta — incluindo termos do Facebook, celular e até videogame — equivaleria a um livro com mais ou menos três quartos do tamanho de Moby Dick, livro do norte-americano Herman Melville que pode ser colocado de pé. Hern conta sobre como a Apple, tão conhecida pelo design e usabilidade de seus aparelhos e sistemas, é a que tem pior texto, com alguns blocos todos em letra maiúscula, impossível de ler — e, pior de tudo, desatualizado. Continuar lendo

Um roteiro para a Arena Net Mundial

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Aberta ao público, programação terá debates com Manuel Castells e Gilberto Gil, dezenas de oficinas e shows de Tom Zé, Emicida e Jorge Mautner

Por Gabriela Leite

Tem início hoje, em São Paulo, o Arena Net Mundial, evento que pretende ampliar os debates sobre a internet, suas possibilidades, liberdade e democracia. De forma mais ampla, acontece paralelamente ao Net Mundial, evento mais restrito e formal que reunirá diversas lideranças relacionadas com a governança da internet. Gratuito e aberto a todos, inclusive por participação online, acontece no Centro Cultural São Paulo, no bairro do Paraíso.

A programação é vasta, e já teve início na manhã de hoje (22), mas a abertura oficial acontece às 19h, com um diálogo sobre o Marco Civil da Internet. Até a quinta-feira (24), haverá conversas, oficinas e shows que abrangem diversos temas e gostos, que vão desde as possibilidades criativas da internet até sua segurança. Para amanhã, por exemplo, estão marcadas atividades e debates sobre inclusão digital, democracia na sociedade em rede (com o criador do termo, o filósofo Manuel Castells), feminismo 2.0 e a arquitetura da internet. Nas oficinas, serão ensinados, entre outras coisas, o fotojornalismo 2.0, rádio digital, e técnicas antivigilância. Continuar lendo

RIOT, o novo espião social da internet

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Revelado sistema sigiloso para monitorar ação dos cidadãos nas redes sociais e prever seu comportamento futuro. Crescem sinais de que disputa pelo futuro da rede está se acirrando

Por Antonio Martins

O caráter político do aparato sobressai já no nome: ele chama-se RIOT — revolta, motim, ou manifestação, em inglês. Trata-se de um software com enorme capacidade de obter informações sobre pessoas; identificar seus atos e comportamentos; prever suas ações futuras. Desenvolvido pela Raytheon, a quinta maior empresa privada de serviços militares do mundo, colhe e cruza informações a partir das redes sociais — em especial Facebook, Twitter, Instagram e Fourquare. Segundo seus criadores, é capaz de analisar “trilhões de entidades” — indivíduos, grupos, comunidades, organizações — no ciberespaço. Foi apresentado em abril de 2012 ao governo norte-americano, numa conferência nacional sobre “inovações secretas e reservadas”. É um dos sinais de que a internet permanece como um espaço em permanente disputa. Ela multiplica a potência das ações libertadoras, antiautoritárias e pós-capitalistas; mas pode ser utilizada para estabelecer controle social opressivo e high-tech. Continuar lendo

A China experimenta o poder das novas mídias

Afastamento de líder popular incentiva uso de plataformas alternativas à imprensa chapa-branca. Estado tenta manter controle, mas sabe que não deterá internet

Por Antonio Martins

Milhões de chineses receberam ontem (24/4) uma mensagem incomum, quando abriram as páginas do Sina Weibo [visitar (experimente traduzir com Google) | ler verbete na Wikipedia], uma plataforma de microblogs similar ao Twitter ou Facebook. “Elementos criminosos usaram recentemente o Weibo para criar e difundir online rumores políticos malévolos, produzindo efeitos terríveis na sociedade, dizia o texto. Informava que os implicados haviam sido excluídos da rede e “submetidos aos órgãos de segurança, de acordo com a lei”. E advertia: “Não espalhe rumores, não acredite em rumores, denuncie rapidamente os rumores”. O ocorrido é um pequeno retrato de uma das grandes tendências culturais e políticas, no país mais populoso e segunda maior economia do mundo. Há meses, os microblogs e outras formas de mídia participativa tornaram-se muito populares. O regime, centralizador por natureza, incomoda-se e reage — mas até certo ponto. Sabe que não pode conter a tendência, tenta conviver com ela.

A mensagem nervosa de ontem tem a ver com a enorme repercussão alcançada, nas novas mídias, pelo afastamento de Bo Xilai, um alto dirigente do Partido Comunista [leia a história e seu contexto, em Outras Palavras]. A imprensa oficial mantêm-se extramamente lacônica: limitou-se a comunicar a demissão, numa nota da Agência Xinhua. O próprio Bo está silencioso. Mas, polêmico e midiático, sua ausência desencadeou, nas novas mídias, uma espécie de investigação paralela. Desde o início do episódio, informações não encontradas nos jornais estatais foram postadas no Sina Weibo e (em muito menor escala) no Boxun, um site que publica notícias anônimas e é voltado para a China, porém sediado nos EUA.

A difusão do Sina Weibo pode ser considerada um fenômeno mundial. Oferecida num único país, a plataforma tem 300 milhões de usuários — um terço do Facebook e o dobro do Twitter. Ouvido pelo Wall Street Journal, Qiao Mu, diretor do Centro de Estudos de Comunicação Internacional na Universidade de Beijing explicou que o fenômeno é (como no Ocidente) principalmente sociológico. “O efeito mais importante é a decentralização. Antes, tudo era decidido pelo governo: o que é notícia, quem fica famoso. Agora, qualquer um pode ficar. Não é preciso autorização oficial. E todo mundo pode postar notícias”.

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